O SENTIDO E O SIGNIFICADO

pessoas lindas e benvindas, 

a idéia de mandar os trechos que seguem me veio por causa de um poema que refiz há pouco tempo, onde cito e homenageio o autor das linhas abaixo. e também porque me lembrei dos trechos dos livros da clarice lispector que enviei a alguns de vocês, retirados da exposição sobre a obra da autora. achei-os, os trechos dos livros da clarice na exposição, tão fortes, tão bonitos, separados dos seus contextos — ali, chapados nas paredes –, que resolvi pegar alguns livros do escritor cujas letras aqui se fazem presentes e reler algumas das partes por mim destacadas. e pumba!, tal como aconteceu com a clarice, chapei com o que li em destaque! 

o que acho lindo neste autor é o canto de esperança emitido em toda a sua prosa. a todos, mostra a faceta bruta e empedernida da existência, esfrega-a bem em nossos rostos, reflete o horror ao qual nos subjugamos, para, com isso, dizer que “sim, o mundo tem um lado feio, cariado”, todavia, podemos mudar esse lado se optarmos por outros caminhos. visto que a vida é feita, em muitas ocasiões, de opções, de escolhas, e muito da realidade podre que nos cerca é fruto das nossas escolhas porcas e mesquinhas.  

lê-lo é, sempre, a escolha por uma cuca sadia, por uma cuca que deseja, como o autor, a cooperação e o cuidado mútuos.    

por isso, os fragmentos, ei-los aqui, para a apreciação de todos. 

ei-lo aqui, o cara mago das palavras, o josé. 

beijo bom em vocês, com olhos de cuidado, carinho e atenção.

o preto,

paulinho.

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  (Todos os trechos do livro Todos os nomes, de José Saramago) 

“Em geral não se diz que uma decisão nos aparece, as pessoas são tão zelosas da sua identidade, por vaga que seja, e da sua autoridade, por pouca que tenham, que preferem dar-nos a entender que refletiram antes de dar o último passo, que ponderaram os prós e os contras, que sopesaram as possibilidades e as alternativas, e que, ao cabo de um intenso trabalho mental, tomaram finalmente a decisão. Há que dizer que estas coisas nunca se passaram assim. Decerto não entrará na cabeça de ninguém a idéia de comer sem sentir suficiente apetite, e o apetite não depende da vontade de cada um, forma-se por si mesmo, resulta de objetivas necessidades do corpo, é um problema físico-químico cuja solução, de um modo mais ou menos satisfatório, será encontrada no conteúdo do prato. Mesmo um ato tão simples como é o de descer à rua a comprar o jornal pressupõe, não só um suficiente desejo de receber informação, o qual, esclareça-se, sendo desejo, é necessariamente apetite, efeito de atividades físico-químicas específicas do corpo, ainda que de diferente natureza, como pressupõe também, esse ato rotineiro, por exemplo, a certeza, ou a convicção, ou a esperança, não conscientes, de que a viatura de distribuição não se atrasou ou de que o posto de venda de jornais não está fechado por doença ou ausência voluntária do proprietário. Aliás, se persistíssemos em afirmar que as nossas decisões somos nós que a tomamos, então teríamos de principiar por dilucidar, por discernir, por distinguir, quem é, em nós, aquele que tomou a decisão e aquele que depois a irá cumprir, operações impossíveis, onde as houver. Em rigor, não tomamos decisões, são as decisões que nos tomam a nós. A prova encontramo-la em que, levando a vida a executar sucessivamente os mais diversos atos, não fazemos preceder cada um deles de um período de reflexão, de avaliação, de cálculo, ao fim do qual, e só então, é que nos declararíamos em condições de decidir se iríamos almoçar, ou comprar o jornal, ou procurar a mulher desconhecida”. 

“Ao contrário do que em geral se crê, sentido e significado nunca foram a mesma coisa, o significado fica-se logo por aí, é direto, literal, explícito, fechado em si mesmo, unívoco, por assim dizer, ao passo que o sentido não é capaz de permanecer quieto, fervilha de sentidos segundos, terceiros e quartos, de direções irradiantes que se vão dividindo e subdividindo em ramos e ramilhos, até se perderem de vista, o sentido de cada palavra parece-se com uma estrela quando se põe a projetar marés vivas pelo espaço fora, ventos cósmicos, perturbações magnéticas, aflições”. 

“Assim como a morte definitiva é o fruto último da vontade de esquecimento, assim a vontade de lembrança poderá perpetuar-nos a vida”. 

“(…) a memória, que é suscetível e não gosta de ser apanhada em falta, tende a preencher os esquecimentos com criações de realidade próprias, obviamente espúrias, mas mais ou menos contíguas aos fatos de cujo acontecer só lhe havia ficado uma lembrança vaga, como o que resta da passagem duma sombra”. 

“(…) como toda a gente sabe, ou devia saber, a prudência só é boa quando se trata de conservar aquilo que já não interessa”.   

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 (Todos os trechos do livro O evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago) 

“(…) Sim, se existe Deus terá de ser um único Senhor, mas era melhor que fossem dois, assim haveria um deus para o lobo e um deus para a ovelha, um para o que morre e outro para o que mata, um deus para o condenado, um deus para o carrasco (…), não gostaria de me ver na pele de um deus que ao mesmo tempo guia a mão do punhal assassino e oferece a garganta que vai ser cortada (…), Deus não dorme (…), Ainda bem que não dorme, dessa maneira evita o pesadelo do remorso”. 

“(…) espevitar o andamento do burro, resignado animal que, de cansado, só ele sabe como vai, que Deus, se de algo sabe, é dos homens, e mesmo assim não de todos, que sem conta são os que vivem como burros, ou ainda pior, e Deus não tem curado de averiguar e prover”. 

“(…) milagre, milagre mesmo, por mais que nos digam, não é boa coisa, se é preciso torcer a lógica e a razão própria das coisas para torná-las melhores”. 

“(…) a lógica não é tudo na vida, e não é raro que justamente o previsível, que o é por ser o remate mais plausível duma sequência, ou porque, simplesmente, havia sido já anunciado antes, não é raro, dizíamos, que o previsível, levado por razões que só ele conhece, acabe por escolher, para enfim revelar-se, uma conclusão por assim dizer aberrante, quer quanto ao lugar, quer quanto à circunstância (…), considerando a já referida imprevisibilidade a que o previsível recorre algumas vezes”. 

“Mil vezes a experiência tem demonstrado, mesmo em pessoas não particularmente dadas à reflexão, que a melhor maneira de chegar a uma boa idéia é ir deixando discorrer o pensamento ao sabor dos seus próprios acasos e inclinações, mas vigiando-o com uma atenção que convém parecer distraída, como se se estivesse a pensar noutra coisa, e de repente salta-se em cima do desprevinido achado como um tigre sobre a presa”. 

“(…) não é por serem breves as ausências que a alegria será menor, afinal a ausência é também uma morte, a única e importante diferença é a esperança”. 

“(…) o tempo leva-nos até onde uma memória se inventa, foi assim, não foi assim, tudo é o que dissermos que foi”.

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