SOBRE PLUMAS QUE SUSTENTAM UM MUNDO

meninos, 

estes poemas seguem porque me fizeram refletir sobre questões que dizem respeito ao modo de vida que levamos. 

drummond alerta sobre, põe em xeque, algumas “regras” estabelecidas por uma maneira judaico-cristã de ver e entender o mundo. culpa, pecado, castigo, justiça divina, a existência de um deus, todos esses conceitos, de uma maneira ou de outra, estão inseridos no nosso quotidiano e na convivência nossa com o resto do mundo.  

até que ponto ser uma boa pessoa, aos olhos de um sistema cristão, garante algum bônus (espiritual e material)?, garante a existência de uma justiça divina?, um bem-estar nesta nossa vida? 

até que ponto devemos anular desejos e aspirações em prol de alguma recompensa provinda dos céus? 

as hipóteses para que um deus, supondo a existência deste, criasse um mundo como o nosso são como plumas: tão delicadas, tão difíceis de se sustentarem, que é bem possível que este deus, que nem ele saiba por que isso tudo foi gerado, a que finalidades atende. portanto, tais hipóteses, como plumas, caem, despencam. 

então, já que a vida se desnuda sem razão de ser, sem sentido, sem norte – são tantas as possibilidades, tantos os (divergentes) caminhos tomados para se fazer valer uma existência… -, estejamos preocupados em viver, simplesmente viver, respeitando-nos, ou seja, respeitando as nossas vontades e aspirações, e as vontades e aspirações alheias. de resto, é viver e deixar viver. até hoje, que eu saiba, ninguém bateu à porta dos que habitam este planeta, dizendo “cá estou, muito prazer, me chamo deus”, como bem escreveu fernando pessoa. 

antonio cicero, amigo e poeta de que muito gosto, possui versos que declaram: 

Ninguém vai nos trazer
nem recompensa, nem conta,
no final.
Ninguém vai nos dizer,
pra nós, o que é que conta,
e, afinal,
pra esclarecer:

prefiro pôr as cartas sobre 
a mesa:
não dou meu desejo a Deus.
Feroz é a natureza;
feroz, todo céu.  

(Próxima Parada, composição de Marina Lima e Antonio Cicero)

uma poeta, também por mim muito admirada, sophia de mello breyner, escreveu que há muito do divino no real. ou seja, se quisermos, não precisamos procurar a divindade na transcendência. não; a divindade encontra-se aqui, no plano da matéria, está ao nosso lado, é de carne, osso e carvão. basta olhar o mundo, admirar a maravilha que é o que, aqui, entre nós, está. o mais, não tem sentido, pois não há “razão de ser”.

sejamos bacanas na vida por respeito ao outro e não por um lugar ao lado do senhor, em sua morada, tão longe de nós.

enfim. aproveitem bastante as linhas que seguem. são de uma sabedoria…

beijo nocês tudo! 

 paulinho.

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OS DOIS VIGÁRIOS  carlos drummond de andrade 

Há cinqüenta anos passados,

Padre Olímpio bendizia,

Padre Júlio fornicava.

E Padre Olímpio advertia

e Padre Júlio triscava.

Padre Júlio excomungava

quem se erguesse a censurá-lo

e Padre Olímpio em seu canto

antes de cantar o galo

pedia a Deus pelo homem.

Padre Júlio em seu jardim

colhia flor e mulher

num contentamento imundo.

Padre Olímpio suspirava,

Padre Júlio blafesmava.

Padre Olímpio, sem leitura

latina, sem ironia,

e Padre Júlio, criatura

de Ovídio, ria, atacava

a chã fortaleza do outro.

Padre Olímpio silenciava.

Padre Júlio perorava,

rascante e politiqueiro.

Padre Olímpio se omitia

e Padre Júlio raptava

patroa e filhas do próximo,

outros filhos lhe aditava.

Padre Júlio responsava

os mortos, pedindo contas

do mal que apenas pensaram

e desmontava filáucias

de altos brasões esboroados

entre moscas defuntórias.

Padre Olímpio respeitava

as classes depois de extintos

os sopros dos mais distintos

festeiros e imperadores.

Se Padre Olímpio perdoava,

Padre Júlio não cedia.

Padre Júlio foi ganhando

com tempo cara diabólica

e em sua púrpura calva,

em seu mento proeminente,

ardiam em brasas. E Padre

Olímpio se desolava

de ver um padre demente

e o Senhor atraiçoado.

E Padre Júlio oficiava

como oficia um demônio

sem que o escândalo esgarçasse

a santidade do ofício.

Padre Olímpio se doía,

muito se mortificava

que nenhum anjo surgisse

a consolá-lo em segredo:

“Olímpio, se é tudo um jogo

do céu com a terra, o desfecho

dorme entre véus de justiça.”

Padre Olímpio encanecia

e em sua estrita piedade,

em seu manso pastoreio,

não via, não discernia

a celeste preferância.

Seria por Padre Júlio?

Valorizava-se o inferno?

E sentindo-se culpado

de conceber turvamente

o augustíssimo pecado

atribuído ao Padre Eterno,

sofre — rezando sem tino

todo se penitenciava.

Em suas costas botava

os crimes de Padre Júlio,

refugando-lhe os prazeres.

Emagrecia, minguava,

sem ganhar forma de santo.

Seu corpo se recolhia

à própria sombra, no solo.

Padre Júlio coruscava,

ria, inflava, apostrofava.

Um pecava, outro pagava.

O povo ia desertando

a lição de Padre Olímpio.

Muito melhor escutava

de Padre Júlio as bocagens.

Dois raios, na mesma noite,

os dois padres fulminaram.

Padre Olímpio, Padre Júlio

iguaizinhos se tornaram:

onde o vício, onde a virtude,

ninguém mais o demarcava.

Enterrados lado a lado

irmanados confundidos,

dos dois padres consumidos

juliolímpio em terra neutra

uma flor nasce monótona

que não se sabe até hoje

(cinqüenta anos se passaram)

se é de compaixão divina

ou divina indiferença.

 

TRISTEZA NO CÉU  carlos drummond de andrade

 

No céu também há uma hora melancólica.

Hora difícil, em que a dúvida penetra as almas.

Por que fiz o mundo? Deus se pergunta

e se responde: Não sei.

 

Os anjos olham-no com reprovação,

e plumas caem.

 

Todas as hipóteses: a graça, a eternidade, o amor

caem, são plumas.

 

Outra pluma, o céu se desfaz.

Tão manso, nenhum fragor denuncia

o momento entre tudo e nada,

ou seja, a tristeza de Deus.

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Uma resposta

  1. […] as questões levantadas por drummond em seus versos intitulados “tristeza no céu” (https://prosaempoema.wordpress.com/2009/08/05/sobre-plumas-que-sustentam-um-mundo/):   Todas as hipóteses: a graça, a eternidade, o amor caem, são plumas.   saibam-se não […]

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