COMER, COMER

queridos & queridas, 

como já lhes escrevi, os textos enviados seguem, sempre, por questões emocionais. as linhas têm que tocar a minha sensibilidade e o meu sentimento. 

o texto abaixo lhes chega por causa de uma mulher imprescindível na minha vida, amiga para todas as horas e que faz toda a diferença na minha existência: a minha amada e idolatrada mama, a mãe do meu anjo da guarda, a grande grande grande: fernanda nepomuceno de sá. 

lendo as linhas de hoje, imediatamente lembrei-me da sua mão certeira e ágil para a inexplicável e ininteligível alquimia tão sabiamente produzida por seus dedos, no preparo de qualquer refeição. isto eu afirmo repleto, transbordado, de razão: sempre fui fã (talvez o maior!) do seu talento culinário, da sua capacidade de fazer qualquer macarrão tornar-se algo que não se troca por nada neste mundo, desde antes da chegada do nosso anjo maior, desde quando dividíamos um apartamento (querido por todos que o conheceram), na rua tão acertadamente chamada: monte alegre (rs). 

(ocorreu-me, neste exato momento, a lembrança de um arroz, com lula e mexilhão, feito por suas mãos e alquimia, em saquarema, que eu, tão maravilhado pelo sabor, fiz questão de comer e repetir três vezes(!), querendo mais – rs!) 

comer, para mim, é das coisas mais prazerosas que existem. não é à toa que, na língua portuguesa, haja analogias as mais deliciosas relacionadas à ação de comer, de matar a fome. a seguir, os versos que encerram o poema “a defesa do poeta”, de natália correia: 

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
Ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.
 

importantíssimo o ato de comer, de matar a fome: de amigos, de carinho, de literatura, de conhecimento, de sexo. comer bem, em todos os sentidos, faz um bem danado (rs). 

e essa ligação com a comida, com o prazer de comer, tem, em nossas vidas, na minha, na vida da nanda e na dos nossos, muito a ver com a realidade de família que criamos, desde o apê na monte alegre, e que se acentuou vertiginosamente com a chegada do meu anjo da guarda, do meu gordinho safado, de nome otto, e do papai do otto, gustavo de sá, também amado e idolatrado por este preto, carinhosamente chamado guto. 

aliás, não bastasse todo o talento da mama, o maridão, fotógrafo exuberante, agora gerente-administrador de um super restaurante tailandês, cada vez mais se especializa nos segredos da boa culinária. aí, é demais para o meu coração (rs)! 

acredito que uma casa de família seja aquela que, além de nela se manter o fogo sagrado do amor bem aceso, como acontece conosco, mantenham-se as panelas no fogo. além de comer, conversamos muito sobre o que acontece no brasil e no mundo. ouvimos arnaldo antunes, elis regina e novos baianos. ficamos, muitas vezes, de pilequinhos (salve salve a nossa santa cerva – rs!), recheados de histórias divertidíssimas. declaramos, através de gestos e afetos, o nosso mais fundo carinho. 

não, nossa família não é metafísica. evidentemente: nós somos um lar. nós: amigos e aqueles que estão por vir. 

um beijo em todos vocês.

o mumu do otto. 

(hipertexto: otto = anjo da guarda do mumu. seguem, para que todos o conheçam, duas fotos dele, que é das coisas mais lindas e importantes na minha existência. numa delas, ainda bem pequeno, o anjo acompanhado do seu mumu.)

o anjo e o seu mumu

anjo da guarda materializado

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COMER, COMER (Clarice Lispector. Livro: A descoberta do mundo. Editora: Rocco)
 
Não sei como são as outras casas de família. Na minha casa todos falam em comida. “Esse queijo é seu?”  “Não, é de todos.”  “A canjica está boa?”  “Está ótima.”  “Mamãe, pede à cozinheira para fazer coquetel de camarão, eu ensino.”  “Como é que você sabe?”   “Eu comi e aprendi pelo gosto.”  “Quero hoje comer somente sopa de ervilhas e sardinha.”  “Essa carne ficou salgada demais.”  “Estou sem fome, mas se você comprar pimenta eu como.”  “Não, mamãe, ir comer no restaurante sai muito caro, e eu prefiro comida de casa.”  “Que é que tem no jantar para comer?”
 
Não, minha casa não é metafísica. Ninguém é gordo aqui, mas mal se perdoa uma comida malfeita. Quanto a mim, vou abrindo e fechando a bolsa para tirar dinheiro para compras. “Vou jantar fora, mamãe, mas guarde um pouco do jantar para mim.”  E quanto a mim, acho certo que num lar se mantenha aceso o fogo para o que der e vier. Uma casa de família é aquela que, além de nela se manter o fogo sagrado do amor bem aceso, mantenham-se as panelas no fogo. O fato é simplesmente que nós gostamos de comer. E sou com orgulho a mãe da casa de comidas. Além de comer conversamos muito sobre o que acontece no Brasil e no mundo, conversamos sobre que roupa é adequada para determinadas ocasiões. Nós somos um lar.
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2 Respostas

  1. Lindo, lindo, lindo! Adorei. Doce e querida a minha descoberta do seu site. Beijos com saudade!

    • ciça, minha flor,

      quero-a aqui sempre! por favor, esta casa é nossa!

      beijo cheio de saudades!

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