UMA BRUTA FLOR

armando freitas filho é mão que pira, que arde — a mil, a cem por hora —, dedos-tochas que nunca à burocracia, aos papéis timbrados e carimbados.

armando freitas filho é cão danado, dolorido, dado à poesia desembestada, à mão livre.

com armando, me armo de amores. sim, armar-se de amores… porque sua delicadeza é uma arma; é forte, bruta — uma bruta flor —. flor violenta, impetuosa, escalavrada a ferro & fogo, sangue & suor, lanho & lirismo. 

 vide o vate, vide os versos: “Escrever é arriscar tigres/ ou algo que arranhe”.

escrever é riscar o ar de tigres, de feras, de coisas que ranhem o ar.

escrever é riscar o fósforo para que o ar ganhe asas, ganhe forma de chama, mantendo a luz acesa até que os dedos se queimem com o fogo dos versos.

portanto, aqui: o veneno antídoto, a pústula curativa, a reza raivosa, o maremoto que amortece, o sismo que abala edificando, construindo.  

deixo-os com alguns dos seus poemas publicados em seu livro intitulado “numeral / nominal”.  

(ju — juliana krapp —, minha lindinha, enquanto pensava no poeta, em suas poesias, você estava comigo de corpo presente. isto aqui é muito para você.) 

beijo afetusoso em todos.

paulinho / paulo sabino.

_________________________________________________

(todos os poemas extraídos do livro Máquina de escrever: poesia reunida e revista, editora Nova Fronteira)
 
3
 
Reescritor, com o lápis de dentro
sempre se arranhando no rascunho
nos vastos espaços abertos, no cerrado.
Nesse cenário, a imagem de apoio não será:
a de remos idênticos, n’água ao mesmo tempo
cada qual de um lado, copiando-se
em andamento e cadência, paralelos
(ou simultâneos), com igual reflexo
e no meio, por onde se passa, em pensamento
a pé, a possibilidade das duas margens
o trilho do rio que acolhe, intermediário
o centro, o corpo da pedra úmida
que não apanha sol, parecendo de sombra
e motor, irradiando o esforço rumo
ao alto-mar — parado — sem o corte
do braço do nadador, por exemplo.
 
  
10
 
Vestido por nenhum veículo.
Vidrado, quando a lua
se encrava na madrugada
e amortece o mar.
Elevado com sombras:
acelera, cérebro. 
 
 
16 (para Mário Rosa)
 
Escrever é arriscar tigres
ou algo que arranhe, ralando
o peito na borda do limite
com a mão estendida
até a cerca impossível e farpada
até o erro — é rezar com raiva. 
 
 
17
 
A lua realinha o mar, cortando o bravio
arremeda um lago, na medida certa
noite adentro, e no calor quebrado
a rua só é alarmada
pelas luzes de açougues e farmácias:
vermelha e prata, com significado
idêntico — coagulação, paralisia.
Dia afora, continuo a não ter à mão
o que a mão quer dizer.
As lágrimas que não choraram
a diferença entre catarse e descarte. 
 
 
19
 
Escrever o pensamento à mão.
Reescrever passando a limpo
passando o pente grosso, riscar
rabiscar na entrelinha, copiar
segurando a cabeça, pelos cabelos
batendo à máquina, passando o pente
fino furioso, corrigindo, suando
e ouvindo o tempo da respiração.
Depois, digitar sem dor, apagando
absolutamente o erro, errar.
  
 
22
 
A intenção é o horizonte
mas a linha que se alcança
é a do papel, por mais
que force a vista, a mão.
No meio, porém, o mar não pára
tendo como pé-direito, o céu.
 
 
23
 
Escrever é riscar o fósforo
e sob seu pequeno clarão
dar asas ao ar — distância, destino
segurando a chama contra
a desatenção do vento, mantendo
a luz acesa, mesmo que o pensamento
pisque, até que os dedos se queimem.
 
 
26 (pensando em Drummond e Clarice)
 
A máquina de um, a outra
se sentindo uma, e a minha:
mecânica, não oferecida
tampouco entranhada, enferruja
sem metafísica ou metáfora
perdendo a força a cada dia
não dizendo o que durante
tanto tempo prometeu — ilusão não era
pois o mundo palpita para todos.
 
O que faltou foi velocidade
na datilografia, acurácia, para
captar o que, sub-reptício se afastava
e mesmo se gritante, os dedos gagos
não conseguiam, nas teclas, articular
as palavras, o que se exprimia, próximo
mas sempre além de todo mecanismo
que embora igual aos outros, desistia.
 
29
 
Esta luz apura tudo
e não perdoa nada: qualquer falha
na montanha que se arrisca no horizonte
salta aos olhos, com o visto
do vôo das gaivotas, em esquadrilha.
Cada erro da rocha, que um dia
resvalou, escalavrando seu perfil
difícil, aparece na escalada áspera
onde a mão, mais de croqui
que de escrita, escorrega, e se rala.
  
 
30
 
Longa flor que não acaba
no pensamento que a imagina
atravessando todas as estações
sem ter seu desejo interrompido.
É o perfume que a prolonga
e perdura no ar, sem palmo de terra
que o segure, e continua sentido
e parado, defendido pela lembrança.
 
  
31
 
Escrevia a um palmo de si.
Às vezes nem isso. Às vezes
por dentro, sem se separar
da sua sombra, sequer do suor
do corpo. Mesmo estando na máquina
que reúne, mecânica, o que parece
ruído, disparo — de revólver e relógio.
Ou quando, em computador, se ouve
ordenado, o franzido rumor
de arame e oceano, e, também, talvez
o roçar do rosto dos astros.
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2 Respostas

  1. Paulinho,

    Lindas linhas, as suas, e que poeta porreta esse Armando Freitas! Valeu!

    Abração,
    Adriano Nunes.

    • maravilha, né, adriano?

      sou louco por ele! que bom que você gostou da seleção!

      beijão, meu querido!

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