A ARTE PARA AS CRIANÇAS

porque, no fundo, não passamos de velhas crianças — que bom! a notar pelo segundo texto que segue (rs).
 
beijo nocês tudo!
paulo sabino / paulinho.
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A arte para as crianças 
 
Ela estava sentada numa cadeira alta, na frente de um prato de sopa que chegava à altura de seus olhos. Tinha o nariz enrugado e os dentes apertados e os braços cruzados. A mãe pediu ajuda:
 
Conta uma história para ela, Onélio —. Pediu — Conta, você que é escritor…
 
E Onélio Jorge Cardoso, esgrimindo a colher de sopa, fez seu conto:
 
Era uma vez um passarinho que não queria comer a comidinha. O passarinho tinha o biquinho fechadinho, fechadinho, e a mamãezinha dizia: “Você vai ficar anãozinho, passarinho, se não comer a comidinha”. Mas o passarinho não ouvia a mamãezinha e não abria o biquinho… 
 
E então a menina interrompeu:
 
Que passarinho de merdinha — opinou.
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Crônica da cidade de Havana
 
Os pais tinham fugido para o Norte. Naquele tempo, a revolução e ele eram recém-nascidos. Um quarto de século depois, Nelson Valdés viajou de Los Angeles a Havana, para conhecer seu país.
 
A cada meio-dia, Nelson tomava o ônibus, a guaga 68, na porta do hotel, e ia ler livros sobre Cuba. Lendo passava as tardes na biblioteca José Martí, até que a noite caía.
 
Naquele meio-dia, a guaga 68 deu uma violenta freada num cruzamento. Houve gritos de protesto, pela tremenda sacudida, até que os passageiros viram o motivo daquilo tudo: uma mulher prodigiosa, que tinha atrevessado a rua.
 
— Me desculpem, cavalheiros — disse o motorista da guaga 68, e desceu. Então todos os passageiros aplaudiram e lhe desejaram boa sorte.
 
O motorista caminhou balançando, sem pressa, e os passageiros viram como ele se aproximava da saborosa mulher que estava na esquina, encostada no muro, lambendo um sorvete. Da guaga 68 os passageiros seguiam o ir-e-vir daquela lingüinha que beijava o sorvete enquanto o motorista falava sem resposta, até que de repente ela riu, e brindou-lhe um olhar. O motorista ergueu o polegar e todos os passageiros lhe dedicaram uma intensa ovação.
 
Mas quando o chofer entrou na sorveteria, produziu-se uma certa inquietação generalizada. E quando depois de um instante saiu com um sorvete em cada mão, espalhou-se o pânico nas massas.
 
Tocaram a buzina. Alguém grudou-se na buzina com alma e vida, e tocou a buzina como alarme de roubos ou sirena de incêndios; mas o motorista, surdo, continuava grudado na perigosa mulher.
 
Então avançou, lá dos fundos da guaga 68, uma mulher que parecia uma bala de canhão e tinha cara de mandona. Sem dizer uma palavra, sentou-se no assento do chofer e ligou o motor. A guaga 68 continuou sua rota, parando nos pontos habituais, até que a mulher chegou no seu próprio ponto e desceu. Outro passageiro ocupou seu lugar, durante um bom trecho, de ponto em ponto, e depois outro, e outro, e assim a guaga 68 continuou até o fim.
 
Nelson Valdés foi o último a descer. Tinha esquecido a biblioteca.
 
(Textos extraídos da obra O livro dos abraços, de Eduardo Galeano, e tradução de Eric Nepomuceno)
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