A CIDADE UNIDA, O PODER NADA PARALELO

pessoas,
 
acompanhando os últimos acontecimentos na cidade do rio de janeiro, surgiu-me a idéia das linhas.
 
linhas de prosas que tratam de uma situação sempre em evidência: a violência urbana à qual nos submetemos.
 
mais precisamente, nos últimos meses algumas grandes favelas são palcos de batalhas entre traficantes pelo controle dos pontos de venda de drogas — ilícitas —. isso, para nós, cariocas e residentes, já não é novidade.
 
sempre penso na falta de oportunidade “decente” para os jovens envolvidos com a ilegalidade de maneira tão bruta, bruta como é a vida nas favelas; afinal, não acredito que haja alguma evidência científica que me diga sermos, nós, brasileiros, geneticamente propensos a arroubos de violência (rs). se essa brutalidade não existe, por exemplo, em países como a holanda, como a dinamarca, não existe por um motivo muito simples, inexiste por uma razão que nada tem a ver com algum código genético específico: a distribuição de rendas, nesses países, funciona; as pessoas não se vêem sem perspectivas na vida, pobres, de uma pobreza material indigna. 
 
acomete-me o sofrimento que vivem os moradores, impedidos de saírem às ruas, de chegarem às suas moradas, mortos, antes de morrerem, pelo medo das atrocidades que lhes podem suceder a partir da guerra instaurada entre facções rivais.
 
abate-me uma espécie de dor, de culpa social, de revolta, por permitir-se que pessoas, pessoas como eu, como você, de carne, osso e sonhos, vivam, de perto, no zoom, tamanho horror.
 
(não bastasse a pobreza, o inconveniente de enfrentarem engarrafamentos, em ônibus lotados, de agüentarem, muitas e muitas e muitas vezes, jornada de 12 horas de tarefas, para, então, uns zumbis de cansaço, retornarem às suas moradas, acompanhados de mais engarrafamento, e receberem, ao fim do mês, um salário que sustenta apenas a pobreza material,  um pagamento que sustém apenas a falta de escola particular, do plano de saúde, do plano odontológico, do plano funerário e do empréstimo em banco para aquisição do apartamento próprio.)
 
e por favor: esclareçamos os fatos: a situação vigente não tem nada de “poder paralelo do tráfico”, “o estado paralelo instaurado pelo crime”; a cidade não é nem nunca foi partida. há muita gente aparentemente idônea, “gente de bem” (odeio essa expressão, porém, aqui, cabe como uma luva – rs), gente “limpa”, envolvida com o que ocorre nas favelas, gente pagando o luxo e o conforto de suas vida e casa na zona sul carioca com as brutalidades que sofrem os moradores dessas comunidades.
 
abaixo, o trecho final do livro cidade partida, do grande e admirado jornalista zuenir ventura, uma entrevista que o autor fez com o chefe do tráfico em vigário geral (à época da entrevista, evidentemente), conhecido como “flávio negão”.
 
após as linhas do zuenir, 4 trechos de um romance que adoro, intitulado o matador, da talentosa roteirista, dramaturga e escritora patrícia melo. a personagem principal do romance é um jovem da periferia de uma grande cidade que se torna um criminoso brutal a serviço de grandes figurões pertencentes à baixa alta sociedade local. uma hora, a personagem principal “clica”, entende, percebe, o seu papel no jogo dos poderosos.
 
como bem escreveu a autora em seu livro, podemos fazer das nossas vidas rio ou cavalo. eu, homem como todos, homem de inconstâncias, inquietações, prefiro fazer da minha vida um tanto de cada coisa: em determinados momentos, rio, em outros, cavalo, isto é, rio e cavalo.
 
no entanto, para essa situação no rio (de janeiro), sou acertivo:
 
sigamos cavalos!
 
beijo em vocês!
paulo sabino / paulinho.
______________________
 
(trecho extraído do livro Cidade Partida, de Zuenir Ventura, editora: Companhia das Letras)
 
Onde estará a cabeça dessa cobra de que só se vê o rabo? Nesses dez meses tive a quase certeza de que o verdadeiro controle do tráfico de drogas no Rio não estava nas mãos desses moleques que vivem em processo autofágico, se entredevorando, comprando armas para se defenderem uns dos outros, em uma alta rotatividade que raramente os deixa chegar aos trinta anos. São semi-analfabetos, a maioria nunca saiu do Rio, muitos não saem nem da favela, se forem jogados dentro de um aeroporto internacional se perderão, e, apesar de lidarem com um dos negócios mais rentáveis do mundo, têm um patrimônio que se limita a bens e propriedades como os de Flávio Negão: alguns táxis, uma carreta, uns apartamentos no subúrbio.
 
Que crime organizado é esse sem comando centralizado, sem sucessão dinástica, sem rígida hierarquia, sem cartel, sem consumo conspícuo e sem acumulação de riqueza, ao contrário da máfia ou mesmo do jogo do bicho?
 
Por isso resolvi voltar ao tema:
 
— Na entrevista que me deu, você disse que há gente acima de você no circuito do tráfico. Quem são essas pessoas?
— Ah, isso eu já disse que num posso dizer pro senhor. É gente muito importante.
— Mas essas pessoas vêm aqui?
— Que vem nada! Eu nunca vi a cara delas aqui.
— E elas ficam com a maior parte dos lucros?
— É claro que ficam, eu não fabrico o bagulho! (Rindo) Se eu fabricasse, eu nem tava aqui.
— Só os intermediários vêm aqui então?
— É, os mulas.
— Quer dizer que vocês são os fichinhas, os varejistas?
— A gente só revende.
— E esses mulas vendem para o Comando Vermelho, Terceiro Comando…
— Num tem isso não. Vende pra quem quiser comprar.
— Quer dizer que eles é que são o verdadeiro crime organizado?
— Ah, são, eles são muito organizados.
______________________
 
(todos os trechos extraídos do livro O Matador, de Patrícia Melo, editora: Companhia das Letras)
 
“Casamatas. Vivemos assim, ele continuou. É verdade, eu pensei, grades, muros, cacos de vidro, tenho tudo isso dentro de mim, pedra, lama, tigres no meu coração.”
 
“Hoje eu sei o que é um kamikaze. Os caras me transformaram num kamikaze, um kamikaze ignorante que não sabia que o avião iria explodir. Hoje eu sei quem são os filhos da puta, os inventores de pilotos-suicidas, só de olhar para o sapato desses caras eu sei quem é filho da puta. Os filhos da puta gostam de mocassins, gostam de penduricalhos, gostam de correntinhas douradas no peito do pé, os sapatos deles têm cor de vinho, se você vir um cara com o sapato dessa cor, saia correndo porque na primeira oportunidade ele vai te foder. Mas naquele dia eu não sabia de nada. O dr. Carvalho cuidou dos meus dentes podres, eu pensava. O dr. Carvalho me convidou para jantar na casa dele. O dr. Carvalho me apresentou seu amigo industrial. Era nisso que eu pensava. Eles me deram uísque, me deram abacaxi tropical, eles fizeram com que eu me sentisse um cachorro molhado, me fizeram sentir vergonha de ter os sapatos fodidos, então eu pensei, porra, esses caras são legais, eu sou um fodido e eles são legais, abaixe a cabeça porque eles são legais, eles têm a casa que eu não tenho, a família que eu não tenho, o carro que eu não tenho, esses caras são legais. Eles me humilharam e eu disse, vocês são legais. Eles me desprezaram. Eles me rebaixaram, e eu achei aquilo certo, achei aquilo correto. Foi isso.”
 
“De repente, eu tinha entendido tudo, aquela história, o lado de cá e o lado de lá, já falei sobre isso, mas foi o crioulo que fez a verdade cair sobre a minha cabeça. Eu era o revólver desses caras. A paz. Eles têm que ter um revólver porque todo mundo quer roubar o videolaser deles. A Miami deles. O estupro das filhas deles. O medo deles. A segurança deles. Eles não têm paz, eles diziam isso toda hora, não temos paz. Eu era o matador, era isso. Paz. Agora que a merda estava fedendo, eles estavam querendo jogar o revólver no rio, queriam acabar com as provas. Usar e jogar fora, como a gente vê escrito nas embalagens.”
 
“Enquanto caminhava e olhava para os meus sapatos fodidos, eu pensava que a vida é uma coisa engraçada. Ela vai sozinha, como um rio, se você deixar. Você também pode botar um cabresto, fazer da sua vida o seu cavalo. A gente faz da vida o que quer. Cada um escolhe a sua sina, cavalo ou rio.”
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