SÍTIO

pessoas,
 
abaixo, um poema que tange o assunto tratado no post anterior a este, “a cidade unida, o poder nada paralelo”.
 
linhas vindas de uma poeta que, mais à frente, estejam certos, ganhará um texto meu com várias das suas poesias. sou um apaixonado pelo livro de onde veio o poema que lhes chega. nele, no poema, há um tanto de uma das diversas nuances e características aferidas na obra de cláudia roquette-pinto: seus poemas sempre nos salteiam, seguem um rumo que, de repente, é bruscamente mudado, desviado, invertido; seus escritos, de uma hora para outra, sem que se espere por aquilo, dão uma guinada, um salto brusco, e, desse efeito, ocorre-nos a suspensão do ar, tamanho susto pregado pelas linhas. quando li pela primeira vez esta poesia (que abre o livro, é a primeirona!) foi isto o ocorrido após a leitura: uma mudez longa; ali, ante a página, eu, perplexo, domado pelo espanto causado pelo desfecho.   
 
pensei um tanto se deveria pôr, aqui, exatamente as linhas que seguem, pois o meu querido amigo antonio cicero já as postara em seu blog, o acontecimentos, há algum tempo. queria um outro achado, outro canto, todavia, a força dos versos falava mais alto, pedia-me para que fossem eles os selecionados (rs).
 
os versos comungam exatamente com este trecho do meu texto sobre a violência gerada pela disputa dos pontos de venda de drogas ilícitas entre traficantes rivais, em grandes favelas do rio de janeiro:
 
acomete-me o sofrimento que vivem os moradores [de favelas], impedidos de saírem às ruas, de chegarem às suas moradas, mortos, antes de morrerem, pelo medo das atrocidades que lhes podem suceder a partir da guerra instaurada entre facções rivais.
 
beijo em todos com olhos de carinho e cuidado.
paulo sabino / paulinho.
____________________________
 
(livro: margem de manobra / autora: cláudia roquette-pinto / editora: aeroplano)
 
SÍTIO
 
O morro está pegando fogo.
O ar incômodo, grosso,
faz do menor movimento um esforço,
como andar sob outra atmosfera,
entre panos úmidos, mudos,
num caldo sujo de claras em neve.
Os carros, no viaduto,
engatam sua centopéia:
olhos acesos, suor de diesel,
ruído motor, desespero surdo.
O sol devia estar se pondo, agora
— mas como confirmar sua trajetória
debaixo desta cúpula de pó,
este céu invertido?
Olhar o mar não traz nenhum consolo
(se ele é um cachorro imenso, trêmulo,
vomitando uma espuma de bile,
e vem acabar de morrer na nossa porta).
Uma penugem antagonista
deitou nas folhas dos crisântemos
e vai escurecendo, dia-a-dia,
os olhos das margaridas,
o coração das rosas.
De madrugada,
muda na caixa refrigerada,
a carga de agulhas cai queimando
tímpanos, pálpebras:
O menino correndo na varanda.
Dizem que ele não percebeu.
De que outro modo poderia ainda
ter virado o rosto: “Pai!
acho que um bicho me mordeu!” assim
que a bala varou sua cabeça?
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Uma resposta

  1. […]   tal característica já foi levantada aqui, na publicação do poema “sítio” (https://prosaempoema.wordpress.com/2009/09/25/sitio/), que é a guinada surpreendente que dão alguns dos seus versos. de repente, sem que se […]

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