FRAGMENTOS PARA O DIA MUNDIAL DA POESIA

a ela, amante dominadora, que tudo devora. a ela, exigente, insone, que me vira a cabeça pelo avesso e que, do avesso, figura as suas vestes. a ela, senhora da minha existência, a amante a quem devo total fidelidade, ainda que não me ordene. pois ela, no fundo no fundo, sabe das suas capacidades de me pôr no lugar devido. a ela, única religião que professo. a ela, crime, erro público que confesso. a ela, a dobra do meu paraíso & martírio. a ela, inexplicável. a ela, imprescindível. a ela, inexorável.
 
aqui, fragmentos dos fragmentos poéticos de casimiro de brito.
 
um beijo em todos vocês,
com todo o carinho,
o preto.
 
(cicero, mais uma vez, os meus eternos agradecimentos.)
   
________________________________________________
 
Fragmentos para o dia mundial da poesia — Casimiro de Brito
 
(…)
 
2
 
Diana (a filha, também com 8 anos), perguntou-me:
— Qual é o cúmulo da escrita? Que não sei, digo.
— É uma pessoa gostar tanto de escrever — respondeu — que enche todas as folhas do mundo e depois escreve nas folhas das árvores e nas ruas e nas praias e em toda a parte do mundo…
 
(…)
 
4
 
O “bem-feito” incomoda-me, o demasiado limpo. Sinto-me mais livre dentro das metáforas porosas. Mais nu. Mas nada de algodão, de areia. O pó da morte, saltando de um lado para o outro como se fosse um insecto louco, basta. Quero dizer, não se pode evitar, nem há que ser evitado. Olhá-lo, comê-lo, viajar nele.
 
(…)
 
6
 
Vou na cidade e depois salto para dentro do texto.
Mas o texto expulsa-me e fico de novo perdido no ruído da rua.
 
7
 
Tenho-o dito mas não sei se o escrevi: que o poema é filho de pai e mãe, do poeta que o escreve e da língua de que emerge.
 
(…)
 
9
 
Fazer poesia ou fragmentos ou fazer amor como se fossem os dedos de Monk no piano, os nervos de Coltraine no saxofone, a voz de Lady Day, já rouca, caída no álcool e no chão. Assim a chuva cai e o sol nasce e o rumor da terra se eleva.
 
10
 
Pertenço a essa família danada que transforma a dor em música; o que devia ser um silêncio discreto em rumor de palavras sonâmbulas.
 
11
 
O que se descreve (ou canta) é sempre um nada, um objecto já desfeito, rigorosamente indescritível (incantável). O que fica, sendo de outra ordem, talvez dure um pouco mais.
 
12
 
Escreve, diz-me o amigo interior. Não faças mais nada. E assim faço, escrevo, esteja onde estiver. Em lugares ou em livros ou em pessoas. Se pouso em pessoas em breve levanto voo e levo delas mais matéria de escrita. Devorei. E se fui devorado, resisti e fiquei mais fecundado. Escrevia quando trabalhava em fábricas ou num banco, escrevo agora que subo um elevador, escrevi há pouco no parque do meu bairro. Escrevo quando me elevo e quando penetro. Escrevo quando ouço música e quando assisto a um funeral. Será uma solidão, isto de escrever, mas a minha tem sido bastante acompanhada. Escrevo quando subo e quando desço os declives das minhas amantes, nos intervalos dos meus casamentos. Sei da poesia que dela nunca me divorciarei.
 
13
 
Faço e desfaço o poema
que me faz e refaz.
 
14
 
A poesia é uma ilha? Um retiro onde um homem se recompõe? Escreverei para não esquecer ou para me salvar? Mas não vou abandonar o mundo — será, pois, uma ilha intermitente. Vou à caça e depois, quase sempre imensamente ferido, recolho e lambo as feridas, ou outro alguém as lambe. As tardes novamente perfumadas pelo aroma dos corpos quando se amam. Um suplício — por vezes doce, embora, bem o sei, de pouca dura: o suplício e a doçura.
 
(…)
 
16
 
Se professo alguma religião? A poesia, que para mim,
é uma anti-religião.
 
17
 
Ter sido filho único me levou a criar amigos imaginários. Teatro ao vivo. E uma amante para a vida, devoradora de tudo quanto se aproxima, para o bem e para o mal: a poesia.
 
18
 
Único livro que não se pode reler: o da vida.
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Uma resposta

  1. […] tempo, professo. E com fervor (rs).   Isto porque, como bem escreveu o poeta Casimiro de Brito (https://prosaempoema.wordpress.com/2009/10/09/fragmentos-para-o-dia-mundial-da-poesia/), a minha religião é a poesia, que, no fundo, é uma anti-religião.   Adoro cantar esta […]

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