SOBRE GRANDEZAS

pessoas queridas,
 
há já algum tempo, aconteceu uma exposição, organizada no ccbb do rio de janeiro, sobre a obra da clarice lispector e sua relação com a língua portuguesa. nas paredes das salas que a abrigavam, trechos de alguns dos seus livros. achei-os, ali, separados de seus respectivos contextos, em destaque, tão significativos, tão singulares, que não resisti e copiei num bloquinho os que mais me comoveram.
 
aqui segue a demonstração de quem, com sabedoria, elegância e simplicidade, soube, mais do que ninguém, transpor para as linhas o que apenas se escreve em vida. linhas que não se desenham, a escrita da existência, da experiência humana, sem ortografia, a única, segundo clarice, que pode ser corretamente “lida”.
 
diz-se, ainda hoje, que clarice possui uma literatura complexa. fico pensando: se assim o é, o é porque a vida é complexa. e, se a vida é complexa, e, mesmo com toda a complexidade, vivenciamo-la, podemos o mesmo com estas obras espetaculares (porque cada trecho é um espetáculo à parte) desta não menos espetacular mulher. lispector, segundo a dona do nome, deriva do latim e quer dizer “luz do peito” (ou qualquer coisa próxima a isso).
 
portanto, um tanto de luz para todos nós!
 
beijo grande!
paulo sabino / paulinho.
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“Ver é a pura loucura do corpo.” (Água-Viva)
 
“Será preciso coragem para fazer o que vou fazer: dizer. E me arriscar à enorme surpresa que sentirei com a pobreza da coisa dita.” (A paixão segundo G.H.)
 
“Ah, mas para chegar à mudez, que grande esforço da voz. Minha voz é o modo como vou buscar a realidade; a realidade, antes de minha linguagem, existe como um pensamento que não se pensa, mas por fatalidade fui e sou impelida a precisar saber o que o pensamento pensa.” (A paixão segundo G.H.)
 
“Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.” (A paixão segundo G.H.)
 
“E um dos indiretos modos de entender é achar bonito.” (A maçã no escuro)
 
“A explicação do enigma é a repetição do enigma.” (A descoberta do mundo)
 
“Olhou face a face a minúcia com que a beleza da árvore era inútil. Trezentas mil folhas tremiam na árvore tranqüila.” (A maçã no escuro)
 
“Tem gente que cose para fora, eu coso para dentro.” (Esboço para um possível ‘auto-retrato’)
 
“Criar não é imaginação, é correr o grande risco de se ter a realidade.” (A paixão segundo G.H.)
 
“…E descobri que não tenho um dia-a-dia. É uma vida-a-vida. E que a vida é sobrenatural.” (Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres)
 
“Alegria de encontrar na figura exterior (refletida no espelho) ecos da figura interna: ah, então é verdade que não me enganei, eu existo.” (A descoberta do mundo)
 
“Por que é que um cão é tão livre? Porque ele é o mistério vivo que não se indaga.” (A descoberta do mundo)
 
“Oh Deus, que faço desta felicidade ao meu redor que é eterna, eterna, eterna, e que passará daqui a um instante porque o corpo só nos ensina a ser mortal?” (A maçã no escuro)
 
“Amo a língua portuguesa. (…) Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que minha abordagem do português fosse virgem e límpida.” (A descoberta do mundo)
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