CHORORÔ CELESTE

bacanas,
 
este poema foi escolhido por causa do dia chuvoso no rio de janeiro. havia pensado em outras linhas, ontem, para postagem. no entanto, a chuva teve um papel tão atuante na minha manhã, que fui levado, pelas águas pluviais, a mudar a escolha (rs).
 
devido ao caos que foi, para mim, sair hoje à chuva, um caso pluvioso para vocês, um caso de chuva que também gerou um certo caos na vida dos versos abaixo.
 
estas linhas seguem no intuito de pôr um tanto de poesia no dilúvio-transtorno que deságua por sobre a cidade.
 
beijo bom (e molhado – rs) em todos,
paulo sabino / paulinho.
_______________________________________________
  
 
CASO PLUVIOSO (Carlos Drummond de Andrade)
 
A chuva me irritava. Até que um dia
descobri que maria é que chovia.

A chuva era maria. E cada pingo
de maria ensopava o meu domingo.

E meus ossos molhando, me deixava
como terra que a chuva lavra e lava.

Eu era todo barro, sem verdura…
maria, chuvosíssima criatura!

ela chovia em mim em cada gesto,
pensamento, desejo, sono, e o resto.

Era chuva fininha e chuva grossa,
matinal e noturna, ativa…Nossa!

Não me chovas, maria, mais que o justo
chuvisco de um momento, apenas susto.

Não me inundes de teu líquido plasma,
não sejas tão aquático fantasma!

Eu lhe dizia – em vão – pois que maria
quanto mais eu rogava, mais chovia.

E chuveirando atroz em meu caminho,
o deixava banhado em triste vinho,

que não aquece, pois água de chuva
mosto é de cinza, não de boa uva.

Chuvadeira maria, chuvadonha,
Chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha!

Eu lhe gritava: Pára! E ela, chovendo,
poços d’água gelado ia tecendo.

Choveu tanto maria em minha casa
que a correnteza forte criou asa

e um rio se formou, ou mar, não sei,
sei apenas que nele me afundei.

E quanto mais as ondas me levavam,
as fontes de maria mais chuvavam,

de sorte que com pouco, e sem recurso,
as coisas se lançaram no seu curso,

e era o mundo molhado e sovertido
sob aquele sinistro e atro chuvisco.

Os seres mais estranhos se juntando
na mesma aquosa pasta iam clamando

contra essa chuva, estúpida e mortal
catarata (jamais houve outra igual).

Anti-petendam cânticos se ouviram.
Que nada! As cordas d’água mais deliram,

e maria, torneira desatada,
mais se dilata em sua chuvarada.

Os navios soçobram. Continentes
já submergem com todos os viventes,

e maria chovendo. Eis que a essa altura,
Delida e fluida a humana enfibratura,

e a terra não sofrendo tal chuvência,
comoveu-se a Divina Providência,

e Deus, piedoso e enérgico, bradou:
Não chove mais, maria! – e ela parou.

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