OSSOS DO OFÍCIO

navegantes,
 
abaixo,
 
mais um poema que trata da arte poética, do processo de construção de linhas poéticas.
 
de pronto, fiquei louco pelo título: “ossos do ofício”.
 
a palavra “osso”, metaforicamente, pode significar “dificuldade”, “aquilo que é difícil”. e os ossos, no corpo humano, servem de arcabouço, de estrutura de sustentação do organismo. assim sendo, os versos a seguir apontam para as dificuldades de se fazer poesia, clarificando que tais dificuldades são parte inerente do processo, a parte de sustentação, a estrutura da construção poética. 
 
mas por que as dificuldades do processo formam a estrutura, o arcabouço, do poema? respondo: porque o que se pensa não é o que se canta. eis a chave do processo: o que se coloca no papel, na tela do computador, não corresponde exatamente à sensação que se tem; a idéia que se alcança para expor determinada sensação fica sempre aquém do que é sentido. todas as vezes que tentamos descrever aquilo que sentimos, há um declínio, uma perda, e é exatamente pela perda que temos ao transpor sentimentos para o papel, que o que se pensa não é o que se canta, o que se fala, o que se escreve. 
 
mesmo o maior esforço, a mais alta tentativa de transpor o que se sente, não adianta. por isso a arte poética é árdua, propõe dificuldades, dores, obstáculos, impedimentos. e é justamente por causa das tais complexidades impostas pelo processo de construção de um poema que essa arte tanto encanta & fascina. o raciocínio a mil, buscando saídas para os impedimentos, tendo, ainda, que lidar com a rima, ali, no seu encalço, atravessada na garganta, querendo desengasgar, desobstruir a passagem, não conseguindo agigantar-se na voz do poeta, com a plenitude almejada pelos bardos. a rima atravessada na garganta é o trambolho que menos se agiganta, que menos cresce, no percurso nada retilíneo, inteiramente tortuoso, que é o de formulação dos versos, o de cantar aquilo que se sente.
 
porém, posto fim ao processo, poema pronto, traçado, ao ler as linhas, ao ter as linhas em papel ou tela de computador, mesmo sabendo do declínio que há entre a sensação e a idéia, magicamente, o poema significa, comunica, explicita o que se pensa. 
 
depois que a rima atravessa a garganta, isto é, depois que desengasga, que é posta no papel, depois que ganha forma, o que se canta passa a ser o que se pensa.
 
só isso justifica acharmos lindos alguns tantos poemas, julgarmos belos vários achados poéticos, identificarmo-nos com tantos textos, achando que eles dizem “exatamente” o que sentimos. 
 
paulo henriques britto, autor da poesia que segue, poeta por quem possuo a mais alta admiração, dá-nos prova disso com este belo texto.
 
beijo bom em todos,
o preto,
paulo sabino / paulinho.
_____________________
 
(do livro: Tarde. autor: Paulo Henriques Britto. editora: Companhia das Letras.)
 
OSSOS DO OFÍCIO
 
O que se pensa não é o que se canta.
Difícil sustentar um raciocínio
com a rima atravessada na garganta.
 
Mesmo o maior esforço não adianta;
da sensação à idéia há um declínio,
e o que se pensa não é o que se canta.
 
Difícil, sim. E é por isso que encanta.
Há que sentir — e aí está o fascínio —
com a rima atravessada na garganta.
 
Apenas isso justifica tanta
dedicação, tanto autodomínio,
se o que se pensa não é o que se canta,
 
mesmo porque (constatação que espanta
qualquer espírito mais apolíneo)
a rima atravessada na garganta
 
é o trambolho que menos se agiganta
nesse percurso nada retilíneo,
ao fim do qual se pensa o que se canta,
depois que a rima atravessa a garganta.
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2 Respostas

  1. Paulinho,

    O Máximo! Valeu!… “Nem tudo que se tem se usa/ Nem tudo que se usa se tem”

    Grande abraço,
    Adriano Nunes

  2. você será publicado aqui, logo logo.

    pois fique sabendo (rs)!

    beijo grande, poeta!

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