VIVÊNCIAS À FLOR DA PALAVRA

pessoas,
 
desde que o conheci, melhor, desde que conheci os seus poemas, percebi afinidades. o autor da seleção que segue tem quase a mesma idade que a minha — somos da mesma geração —, e, coincidentemente, estudou filosofia no mesmo instituto onde estudei história.
 
aprecio deveras a sua delicadeza e sabedoria; sabedoria de traçar as suas linhas com uma clareza que denota simplicidade, porém uma simplicidade imbuída de requinte, de cuidado, de máximo esmero.
 
o título do livro de onde vieram as poesias, “vívido”, aponta para os temas que tramam a poética do poeta: as constatações, os achados, colhidos aqui e ali, das experiências de vida — experiências com o fazer poético (como nos poemas “inventário”, “medida”, “trânsito” & “poesia”), e experiências existenciais (como nas linhas de “vívido”, “do riso”, “jardim”, “poema sobre a mesa” & “turismo”).
 
as vivências à flor da palavra, à flor da poesia. vivências repaginadas em poéticas vivências de: pedro amaral.
 
vivam-nas também!
 
beijo grande!
paulo sabino / paulinho.
____________________________________________________
 
(do livro: Vívido. autor: Pedro Amaral. editora: Sette Letras.)
 
Inventário
 
É a mesma lição
De novo ecoando,
Da qual sempre me escapa
O enunciado.
 
E, dele esquecido,
Me vejo obrigado
A refazer novamente o inventário
Do que pensava já haver aprendido.
 
 
Medida
 
Não sabia ainda
— E este era o problema
Que estancava o aprendizado:
O quanto, para fazer poemas,
Não fazer poemas é necessário.
 
 
Vívido
(living)
 
Não senhores não se importunem
com essa indisfarçável tristeza,
tristeza por nada, repentina,
que nada aplaca ou anima.
 
Não é amarga, não tem ranço,
não empesta o ar nem arrasa,
é como um pássaro batendo asas
pela casa
adentro, já passa.
 
 
Do riso
 
Me lembro de quando
A leveza do riso
Não me era
Algo
 
Assim tão preciso
 
Como uma janela
Aberta para esta
Sala, ou uma tábua
Para quem navega
E naufraga
 
 
Jardim
 
Nutrir um sentimento
Como quem a uma planta,
Ou algo assim:
Dar-lhe de beber,
Cuidar, podá-lo
E remediá-lo de seu fim.
 
 
Poema sobre a mesa
 
Lia
O poema que ali estava,
O poema sobre a mesa;
E, à medida que lia,
Algo estranho se passava,
Algo, que o testemunhavam
O embargo, os olhos molhados
E o irrefletido exclamado:
Que diabo, que beleza!
 
 
Trânsito
 
Levar ao poema o lema
Do aviso rodoviário
Que diz: fale ao motorista
Somente o indispensável.
Tentar não o perder de vista
Falando ao leitor ao lado:
Falar,
Se calar é inviável.
 
 
Poesia
 
Quando unido a ti em abraço forte,
Que há, que me seja impossível?
Quando unido a ti, até
A morte, mesma: risível.
 
 
Turismo
 
Aonde quer que se vá,
Levar o quanto se é;
Seja qual for o modo
De andar: se ligeiro
Ou pé-ante-pé.
 
(Aonde quer que se vá,
Decidido ou como-quem-não-quer,
Impossível será não levar
Na bagagem o quanto houver.)
 
Mais que isso:
Levar consigo,
Indo determinado ou a esmo,
O que há que faz ser possível
No andar, o andar mesmo.
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2 Respostas

  1. Paulinho,

    Muito bom! Grato por compartilhar!

    Abração,
    Adriano Nunes.

    • pessoa sempre benvinda e querida,

      sou eu quem agradeço a sua presença, sempre.

      beijo grande!

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