HORTO DE INCÊNDIOS

queridos,
 
a seleção que segue vem de um poeta que, de início, me foi “difícil de engolir” (rs).
 
em princípio, suas linhas não se revelaram por completo para mim, todavia, uma sensação de desconforto, um sentimento atordoado era sempre o que me restava ao fim das leituras.
 
com o tempo — nada como o tempo… — os versos começaram a clarear aos meus olhos.
 
de fato, o poeta português al berto não é figura fácil (em termos poéticos, quero dizer).
 
as poesias apontam para as dificuldades, angústias, perdas, solidões, que a trilha, o caminhar, propõe no seu decorrer. escarafuncham os percalços e pedreiras a enfrentar, mostrando o quão árduo é o trabalho de suportar, de carregar, tais dores mundanas.
 
outra característica que permeia a sua poética é um certo deboche para com a existência.
 
no poema “recado”, o primeiro do livro, essa nuance mostra-se claramente nos últimos versos: desejando a quem o lê uma vida boa, de dia limpo, isto é, de dia sem sujeira, sem imundície, ao final, o autor propõe a construção da “morada eterna” — o mar por onde fugirá o etéreo visitante desta noite —, a edificação da morte, lembrando que o navio, para zarpar, deve partir carregado de lumes, de ouro, marfim — (aqui, a quebra:) e, no navio, além dos lumes, do ouro e do marfim, não esquecer dos sessenta comprimidos letais no “pequeno-almoço” (que equivale ao nosso desjejum — o café da manhã).
 
ou seja: é melhor que se encerre a vida logo, quando tudo vai bem, quando os dias são limpos, antes de aportarem nas rotas as experiências ruins, as experiências mal sucedidas. antes da chegada das coisas sujas, vis, o melhor é garantir “a saída” — a morte — sem transtornos (mate-se enquanto tudo prossegue bem, antes que siga mal).
 
noutro escrito, intitulado “sida” (“aids” na tradução para a língua portuguesa: síndrome da imuno-deficiência adquirida), o bardo trata da dor de se perder pessoas que tanto se ama de maneira tão bruta, tão grave, e repentina. termina deixando implícito um sentimento de desconsolo, um sentimento entristecido. o tempo, que passa com o vento, arrasta para longe as imagens de quem amamos. nem a vida, nem o que dela resta serve para consolar. até mesmo o amor, o passageiro ardente das areias, o viajante que irradia um cheiro a violetas noturnas, decepciona e não resolve tal equação existencial.
 
aborda também a existência de homens cegos, que procuram a visão do amor exatamente onde uma parede intransponível foi erguida pelos dias. uma parede intransponível certamente suspensa, através dos dias, por esses mesmos homens cegos, que, através dela, pretendem avistá-lo, avistar o amor. homens que caminham vergados, curvados, que não conseguem enxergar o horizonte, enxergar o além, porque têm suas cabeças guilhotinadas pelo próprio horizonte. homens cegos, que prosseguem caminho com a voz atada, com os corpos de um fogo lento, vagaroso, brando, fogo fraco, frouxo. 
 
sobre “incêndio”, o poeta alerta: se chegar em casa e encontrar um corpo em fogo na cama, e, junto ao corpo, uma série de imagens que remontam um cenário apocalíptico, não se assuste: são apenas os seus antepassados que resolveram fazer uma visitinha e bater um papinho “na boa” (rs).
 
e aconselha o bardo: diga-lhes, aos antepassados, sobre o esgotamento de uma vida inteira, vida consumida em culpas, pecados e castigos, exaurindo, assim, a morada da existência. depois, peça-lhes para murmurar uma canção que embale o sono e, sem lágrimas — por todas as revelações contadas aos ancestrais —, adormeça, com eles no chão, com os antepassados no lugar de onde vieram, no lugar onde se pisa, no lugar onde firmamos os pés durante a caminhada, no chão, lugar que serve de apoio aos nossos passos.
 
para encerrar, o poema último do último capítulo, linhas que servem tanto de epílogo ao conjunto de poesias que forma o “horto de incêndio” quanto de epílogo a esta seleção.
 
queimem-se neste incêndio. e não temam a dor. ela é uma das faces indispensáveis do existir.
 
beijo bom, beijo afetuoso em todos,
paulo sabino / paulinho.
____________________________________________________________
 
(do livro: Horto de Incêndio. autor: Al Berto. editora: Assírio & Alvim.)
 
 
recado
 
ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte
 
vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer — vai por esse campo
de crateras extintas — vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite
 
deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo — deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração — ouve-me
 
que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna — o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite
 
não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira — não esqueças o ouro
o marfim — os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço
 
 
sida
 
aqueles que têm nome e nos telefonam
um dia emagrecem — partem
deixam-nos dobrados ao abandono
no interior duma dor inútil muda
e voraz
 
arquivamos o amor no abismo do tempo
e para lá da pele negra do desgosto
pressentimos vivo
o passageiro ardente das areias — o viajante
que irradia um cheiro a violetas nocturnas
 
acendemos então uma labareda nos dedos
acordamos trémulos confusos — a mão queimada
junto ao coração
 
e mais nada se move na centrifugação
dos segundos — tudo nos falta
nem a vida nem o que dela resta nos consola
a ausência fulgura na aurora das manhãs
e com o rosto ainda sujo de sono ouvimos
o rumor do corpo a encher-se de mágoa
 
assim guardamos as nuvens breves os gestos
os invernos o repouso a sonolência
o vento
arrastando para longe as imagens difusas
daqueles que amámos e não voltaram
a telefonar
 
 
horto
 
homens cegos procuram a visão do amor
onde os dias ergueram esta parede
intransponível
 
caminham vergados no zumbido dos ventos
com os braços erguidos — cantam
 
a linha do horizonte é uma lâmina
corta os cabelos dos meteoros — corta
as faces dos homens que espreitam para o palco
nocturno das invisíveis cidades
 
escorre uma linfa prateada para o coração dos cegos
e o sono atormenta-os com os seus sonhos vazios
 
adormecem sempre
antes que a cinza dos olhos arda
e se disperse
 
no fundo do muito longe ouve-se
um lamento escuro
quando a alba se levanta de novo no horto
dos incêndios
 
prosseguem caminho
com a voz atada por uma corda de lírios
os cegos
são o corpo de um fogo lento — uma sarça
que se acende subitamente por dentro
 
 
incêndio
 
se conseguires entrar em casa e
alguém estiver em fogo na tua cama
e a sombra duma cidade surgir na cera do soalho
e do tecto cair uma chuva brilhante
contínua e miudinha — não te assustes
 
são os teus antepassados que por um momento
se levantaram da inércia dos séculos e vêm
visitar-te
 
diz-lhes que vives junto ao mar onde
zarpam navios carregados com medos
do fim do mundo — diz-lhes que se consumiu
a morada de uma vida inteira e pede-lhes
para murmurarem uma última canção para os olhos
e adormece sem lágrimas — com eles no chão
 
 
(do capítulo: morte de rimbaud dita em voz alta no coliseu de lisboa a 20 de novembro de 1996.)
 
IV.
 
          um rasgão de luz sobre a pele, dormes na seiva doce
das manhãs.
          mas sabes que só há repouso para o sofrimento
quando se entra no primeiro dia dos dias sem ninguém.
          a dor, a perna amputada, a chaga viva, o sangue a
latejar — o mapa da abissínia.
 
          o sol enterra-se nas areias
          viajo, sem me mexer desta enxerga branca.
          tento encontrar espaço para a lucidez do meu silêncio.
          no lugar do poema coalha o ouro das geadas, e os
animais são formas etéreas que se me colam ao rosto.
          o que morre, quase não faz falta…
 
          dantes ouvia o mar… bastava encostar a cabeça ao
peito um do outro.
          mas um homem em cujo coração se tenha concentrado
toda a fúria de viver, será um homem feliz?
           não sei se posso querer alguma eternidade… não
sei…
 
           o que vejo já não se pode cantar.
 
           que horas serão dentro do meu corpo?
           que mineral vermelho jorraria se golpeasse uma
veia… não sei… não sei…
 
           o que vejo já não se pode cantar.
 
           lembro-me duma cabeça rebelde flutuando junto à
janela.
           mas a casa está repleta de gemidos, vai amanhecer,
não me lembro de mais nada.
 
            o que vejo já não se pode cantar.
 
            recomeço a fuga, a última, e nela hei-de morrer de
olhos abertos, atento ao mínimo rumor, ao mais pequeno
gesto — atento à metamorfose do corpo que sempre recusou
o aborrecimento.
 
             o que vejo já não se pode cantar.
 
             caminho com os braços levantados, e com a ponta
dos dedos acendo o firmamento da alma.
             espero que o vento passe… escuro, lento. então,
entrarei nele, cintilante, leve… e desapareço.
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2 Respostas

  1. Gosto muito do seu blogue, de que sou seguidora.
    E gostei imenso de reler Al berto, para mim o último grande poeta do último quartel do s.XX em Portugal.
    «Morrem jovens os que os deuses amam»- e é verdade em muitos casos.

  2. amelia,

    é uma grande alegria saber que tenho, pelo menos, uma leitora de portugal. porque admiro muitíssimo os poetas portugueses. muito muito muito mesmo. a começar por pessoa, que, para mim, é o maior de todos na língua portuguesa (e afirmo que um dos melhores do mundo).

    quando conheci a poesia de al berto apaixonei-me de cara, mesmo ela, como conto no meu texto, não se revelando para mim, no início das leituras. al berto é grandioso, é uma honra termos um poeta da sua estatura escrevendo em português.

    grande beijo, querida!
    espero que o “prosa em poema” continue trazendo boas surpresas a você!

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