NO RIO DO MEIO, VELHOS E JOVENS

o rio do meio: a existência que nos escorre tempo afora.
 
o ato do escritor: o tempo transcorrido em palavras, transposto a partir da existência de quem o escreve.
 
sou dos que escrevem como quem assobia no escuro: vagar à beira do poço interior observando os vultos no fundo, misturados com minha imagem refletida na superfície. não vigio em quartos fechados, mas amo o vasto mar. não me atraem as sombras mas o sol. e minha literatura não emerge de águas tranqüilas, tantas as perplexidades vivenciadas.
 
nem sempre a filosofia dos meus personagens tem muito a ver com a minha, nem vivo as suas trajetórias. mas sou pai desses que dormem dentro de mim como filhos possíveis.
 
seja qual for o modo, escrever é uma forma de fazer valer a trilha escura.
 
digo e repito quantas vezes necessárias (isto é uma idéia que tenho para um novo poema): meu palco é o papel. e as palavras, vestes com as quais enceno os espetáculos.
 
inventemos as nossas ficções! (tenhamos a criança conosco, como adélia a jonathan.)
 
sobre o rio do meio, fica a lição:
 
No meio do caminho dessa vida
Vinda antes de nós
E estamos todos a sós
No meio do caminho dessa vida
E estamos todos no meio
Quem chegou e quem faz tempo que veio
Ninguém no início ou no fim
Antes de mim
Vieram os velhos
Os jovens vieram depois de mim
E estamos todos aí
 
(Velhos e Jovens, parceria de Arnaldo Antunes e Péricles Cavalcanti)
 
aproveitem-no — o rio do meio —, aproveitem as suas águas enquanto tais águas não ensecarem.
 
beijo em vocês,
o preto.
_______________________________________________________________________
 
(do livro: O rio do meio. trecho do capítulo: Assobiando no escuro. autora: Lya Luft. editora: Record.)
 
 
Há temas que se repetem, perguntas que se perpetuam; inquietações coincidem entre o escritor e seus leitores, entre quem dá algum depoimento e quem assiste.
 
“Por que você escreve?” é a primeira e universal indagação.
 
Um escritor respondeu que se parasse de escrever morreria, portanto escrevia para não morrer; uma mulher dizia que escrevia para não enlouquecer, outra revela que o faz para ser amada.
 
Sou dos que escrevem como quem assobia no escuro: falando do que me deslumbra ou assusta desde criança, dialogando com o fascinante — às vezes trevoso — que espreita sobre nosso ombro nas atividades mais cotidianas. Fazer ficção é, para mim, vagar à beira do poço interior observando os vultos no fundo, misturados com minha imagem refletida na superfície.
 
Tudo isso é jogo — contraponto da vida concreta, onde não me atraem as sombras mas o sol. Não vigio em quartos fechados, mas amo o vasto mar; não me esgueiro, mas, apesar de todas as fragilidades, avanço.
 
Minha literatura não emerge de águas tranqüilas: fala de minhas perplexidades enquanto ser humano, escorre de fendas onde se move algo que, inalcançável, me desafia. Escrevo quase sempre sobre o que não sei.
 
O artista — na minha linha de trabalho, gente da minha espécie — guarda a visão mágica da infância, quando o real e o imaginado convivem sem problemas. As entrelinhas — mais importantes do que as linhas — espelham essa dança de máscaras e desvendamentos.
 
Criar personagens trágicos não significa que o autor seja pessimista: muitos humoristas são calados e deprimidos. Nem sempre a filosofia de meus personagens tem muito a ver com a minha, nem vivo as suas trajetórias. Mas sou mãe desses que dormem dentro de mim como filhos possíveis, sementes plenas do sono do fruto. 
 
É preciso não sucumbir quando naufragam. O que nos resguarda? Que mão nos segura à margem? Talvez a crença de que tudo faz parte do mesmo fluir: amor e solidão, nascimento e morte, entrega e decepção. De que algum sentido existe — o essencial, que nossa inquietação procura.
 
Tenho um olho otimista que vive (e convive) e um olho pensativo: este, contempla, perscruta, inventa suas ficções.
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