GÊNIO DA HUMANIDADE: O CORAÇÃO

pessoas do meu brasil varonil,
 
trago até vocês duas poesias — que adoro — de um poeta sergipano do século XIX chamado tobias barreto.
 
numa delas, o bardo faz uma verdadeira ode às belezas edificadas pela natureza humana, promovidas pelo seu gênio, o gênio da humanidade — segundo os antigos, “gênio” é uma espécie de espírito benéfico ou maléfico que presidia ao destino de cada um (essa informação foi retirada do dicionário aurélio) —. é como se tobias barreto encarnasse o “ser galhardo da humanidade”, adquirindo, por conseguinte, todas as formas do que é bom, grande e belo, citando, inclusive, na obra poética, alguns grandes personagens da história.
 
seus versos são recheados de sensualidade e erotismo, recheados de prazer pela existência. o poeta diz ser uma espécie de tropel para o ouvido sutil de deus, que o escuta grande, eloqüente, a passos pesados, na vida.
 
e deixa o recado: às tempestades que abalam as crenças da alma, resiste de pé. o coração, que não é somente um músculo oco, um órgão, que também é metafísico — e que, portanto, anda a sonhar uns mundos encantados —, suporta as intempéries do caminho. (o meu, graças!, mantém-se firme & forte.) 
 
e vamos que vamos.  
 
beijo afetuoso em todos vocês,
o preto,
paulo sabino / paulinho.
_________________________________________________________________________
 
(do livro: Antologia dos Poetas Brasileiros – Poesia da fase romântica. organização: Manuel Bandeira. autor: Tobias Barreto. editora: Nova Fronteira.) 
 
 
O GÊNIO DA HUMANIDADE
 
Sou eu quem assiste às lutas,
Que dentro d’alma se dão,
Quem sonda todas as grutas
Profundas do coração:
Quis ver dos céus o segredo;
Rebelde, sobre um rochedo
Cravado, fui Prometeu;
Tive sede do infinito,
Gênio, feliz ou maldito,
A Humanidade sou eu.
 
Ergo o braço, aceno aos ares,
E o céu se azulando vai;
Estendo a mão sobre os mares,
E os mares dizem: “passai!…”
Satisfazendo ao anelo
Do bom, do grande e do belo,
Todas as formas tomei:
Com Homero fui poeta,
Com Isaías profeta,
Com Alexandre fui rei.
 
Ouvi-me: venho de longe,
Sou guerreiro e sou pastor;
As minhas barbas de monge
Têm seis mil anos de dor:
Entrei por todas as portas
Das grandes cidades mortas,
Aos bafos do meu corcel,
E ainda sinto os ressábios
Dos beijos que dei nos lábios
Da prostituta Babel.
 
E vi Pentápolis nua,
Que não corava de mim,
Dizendo ao sol: “eu sou tua,
Beija-me… queima-me assim!”
E dentro havia risadas
De cinco irmãs abraçadas
Em voluptuoso furor…
Ânsias de febre e loucura,
Chiando em polpas de alvura,
Lábios em brasas de amor!…
 
Travei-me em lutas imensas;
Por vezes, cansado e nu,
Gritei ao céu: “em que pensas?”
Ao mar: “de que choras tu?”
Caminho… e tudo o que faço
Derramo sobre o regaço
Da história, que é minha irmã:
Chamam-me Byron ou Goethe,
Na fronte do meu ginete
Brilha a estrela da manhã.
 
E no meu canto solene
Vibra a ira do Senhor:
Na vida, nesse perene
Crepúsculo interior,
O ímpio diz: “anoitece!”
O justo diz: “amanhece!”
Vão ambos na sua fé!…
E às tempestades que abalam
As crenças d’alma, que estalam,
Só eu resisto de pé!…
 
De Deus ao sutil ouvido
Eu sou como que um tropel,
E a natureza um ruído
Das abelhas com seu mel,
Das flores com seu orvalho,
Dos moços com seu trabalho
De santa e nobre ambição,
De pensamentos que voam,
De gritos d’alma, que ecoam
No fundo do coração!…
 
(1866)
 
 
O CORAÇÃO
 
O coração também é um metafísico:
Estremece por formas invisíveis,
Anda a sonhar uns mundos encantados,
E a querer umas cousas impossíveis…
 
(1884)
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