VAMO COMÊ, VAMO COMÊ — POESIA!

pessoas,
 
ontem, 14 de março, foi o dia nacional da poesia. em sua homenagem, poemas que tratam exatamente da arte poética, poemas que falam de: poemas.
 
o primeiro da seleção diz-se uma citação de livro — op. cit. é um termo em latim que significa, segundo o dicionário houaiss, opere citato, isto é, “a obra citada/ na obra citada” —, mas uma citação transformada num belíssimo e moderno soneto. os versos abordam a tensão existente no poema de querer exprimir uma subjetividade numa personalíssima voz lírica ao mesmo tempo em que é entendido pelo poeta — devido à sua consciência crítica — que muito dessa subjetividade é mesclada, misturada, enovelada, a uma série de achados poéticos que não estão ligados à sua voz lírica personalíssima, que vieram à tona por necessidades suscitadas pelas próprias linhas, pelo próprio fazer poético. ao final, uma homenagem ao gigante fernando pessoa, que, segundo os versos, já disse o mesmo, só que de uma maneira muito melhor, mais completa, numa referência ao seu magnífico poema “autopsicografia”, que começa assim:
 
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
 
(Fernando Pessoa, Autopsicografia)
 
num outro escrito, as dificuldades de trabalhar com essa arte, a arte poética, porque esta impõe, sugere, uma série de entraves, inúmeros óbices. o mais bacana é que tal problemática é explicitada por um obstáculo existente no próprio poema, obstáculo relacionado à criação de uma rima cuja imagem gerada, de acordo com o bardo, não condiz com a intenção do que querem dizer as linhas. todavia, indo mais fundo, pergunta-se num tom de “autoprovocação”: e quem garante que esse modo de atrelar, que esse jeito de ligar pensamentos, puxado pela rima, isto é, puxado por uma rima criada apenas com o propósito de rimar, seja pior que algum outro? já que a poesia é uma viagem única, intransferível, por que o encadeamento de rimas — de pensamentos, conseqüentemente — tem que obedecer a algum sistema, à alguma lógica prévia? por que a lógica ditada?
 
e alerta: isso é só o primeiro problema (rs).
 
adiante, a natureza do poema: diário de viagem sem viagem, carta sem nenhum destinatário. a poesia nasce desinteressada de quem a possa receber, pois ela, quando nasce, nasce pela própria vontade de querer rebentar, e ponto. a poesia não se destina a nada nem a ninguém. por isso ela pode ser tudo e de todos. no poema, o verbo é intransitivo, isto é, a ação é intransmissível, conjuga-se, no poema, numa só pessoa, na primeira pessoa do singular (eu). somente assim se justificam as diversas maneiras de enxergar um único poema, as várias interpretações que as pessoas podem dele fazer, os diferentes achados poéticos verificados pelos mais variados tipos de olhar.
 
encerrando a seleção, a descrição de uma criatura estranha, que, à primeira vista, nos causa assombro, espanto, o mesmo espanto que a gente imagina ter diante de um grifo ou de uma esfinge (que são seres fabulosos): o poema. no seu último instante, (mais) uma homenagem prestada ao grande mago das palavras, fernando pessoa.
 
como pessoa, na minha modesta opinião, é o maior poeta da língua portuguesa, fico feliz de render esta homenagem à poesia onde ele é citado no primeiro e no último poema desta seleção.
 
(a todos, fica o convite: vamo comê, vamo comê – poesia!)
 
beijo em vocês!
paulo sabino / paulinho.
_____________________________________________________________________
 
(do livro: Tarde. autor: Paulo Henriques Britto. editora: Companhia das Letras.)
 
 
OP. CIT., PP. 164-65
 
“No poema moderno, é sempre nítida
uma tensão entre a necessidade
de exprimir-se uma subjetividade
numa personalíssima voz lírica
 
e, de outro lado, a consciência crítica
de um sujeito que se inventa e evade,
ao mesmo tempo ressaltando o que há de
falso em si próprio — uma postura cínica,
 
talvez, porém honesta, pois de boa-
fé o autor desconstrói seu artifício,
desmistifica-se para o ‘leitor-
 
irmão…'” Hm. Pode ser. Mas o Pessoa,
em doze heptassílabos, já disse o
mesmo — não, disse mais — muito melhor.
 
 
I
 
Porrada de problemas — insolúveis,
ça va sans dire — mas o pior é que
mudam sempre de forma, como nuvens
num dia de muito vento — ou um leque
fechando e abrindo — não, a imagem é estúpida,
e não tem nada a ver com essa história;
o símile do leque foi sem dúvida
puxado pela rima — feito “glória”
com “memória” — no entanto, quem garante
que este modo de atrelar pensamentos
seja pior que outro qualquer? que o antes
não possa vir depois? que o encadeamento
tenha que obedecer a algum sistema?
(Mas isso é só o primeiro problema.)
 
 
II
 
Diário de viagem sem viagem
ou carta sem nenhum destinatário:
palavras que, no máximo, interagem
com outras palavras do dicionário.
 
Um escrever que é verbo intransitivo
que se conjuga numa só pessoa.
Um texto reduzido a substantivo
menos que abstrato: se nem mesmo soa,
 
como haveria de querer dizer
alguma coisa que valesse o vão
e duro esforço de fazer sentido?
 
Por outro lado, a coisa dá prazer.
Dá uma formidável sensação
(mesmo que falsa) de estar sendo ouvido.
 
 
III
 
Uma forma de vida se anuncia,
ainda hesitante. Mas insistente.
Põe o focinho de fora. Uma esguia
cabeça. Uma pata. Tranqüilamente,
como se não estivesse nem aí.
Agora está à vista de corpo inteiro,
arisca, peluda feito um sagüi,
rabo felpudo de angorá, e um cheiro
talvez de almíscar. O olhar é de cão,
mas a desconfiança é bem felina.
Diante dela, temos a impressão
indefinível que a gente imagina
ter diante de um grifo, ou de uma esfinge.
Só que ela existe. (Ou, pelo menos, finge.)
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