MANIFESTOS

senhores,
 
a terra, o sol, o vento, o mar, são meu rosto.
 
o meu interior é uma atenção voltada para fora.
 
por conta, o ofício do poema: ele ensina a estar de pé, fincado no chão, na rua, nas coisas que o rodeiam.
 
o verso não voa, não paira, não levita.
 
mão que escreve não sonha. não sonha, pois não dorme. não dorme, pois ligada, antenada, atenta, acordada pelas coisas das quais se ocupa.
 
as coisas de que se ocupa (a mão o verso a poesia): vida.
 
e na vida: sim ao prazer sem custo! acatar, beber, dividir o bom que venha feito o sol, gratuito.
 
quem sabe se o sem-razão, se o sem-motivos, se o espontâneo, possam mais do que exigimos (de nós)?
 
(não se duvide do que é capaz a coincidência entre coisas. não subestimar a capacidade inventiva do acaso.)
 
pratique-se o deixar-se fluir na vida, o deixar-se levar sem maiores esforços, o relaxamento.
 
num mundo onde os gênios são escravos, são servos de si mesmos, pratique-se o descanso, para que o fogo nunca esteja frio, para que o coração não adoeça, não pife, para que ele, o coração, passeie seus cavalos.
 
fica o recado: ame a vida, ame-se!, ame-se o que é, como nós, efêmero.
 
lições… há quem diga: são inúteis. (por mais belas que sejam.) porém, melhores se azuis, vermelhas, amarelas, melhores se extraídas diretamente da fonte, diretamente do colorido da existência, do entorno que se entorna diante das nossas retinas.
 
(reter em retina.)
 
beijo bom em todos,
paulo sabino / paulinho.
____________________________________________________________________
 
(do livro: Cinemateca. autor: Eucanaã Ferraz. editora: Companhia das Letras.)
 
 
SUMÁRIO
 
O poema ensina a estar de pé.
Fincado no chão, na rua, o verso
não voa, não paira, não levita.
 
Mão que escreve não sonha
(em verdade, mal pode dormir à luz
das coisas de que se ocupa).
 
 
MANIFESTO
 
Sim ao prazer sem custo.
Acatar, beber, dividir o bom
que venha feito o sol, gratuito.
 
Quem sabe se o dom, o sem-razão
e o sem-motivos possam mais
do que exigimos. Nem se duvide
 
do que é capaz a coincidência
entre coisas. Nesse mundo
em que gênios são servos de si mesmos,
 
pratique-se o descanso, para
que o fogo nunca esteja frio
e o coração passeie seus cavalos.
 
 
VINHETA
 
Ame-se o que é, como nós,
efêmero. Todo o universo
podia chamar-se: gérbera.
Tudo, como a flor, pulsa
 
e arde e apodrece. Sei,
repito ensinamento já sabido
e lições não dizem mais
que margaridas e junquilhos.
 
Lições, há quem diga,
são inúteis, por mais belas.
Melhor, porém, acrescento,
se azuis, vermelhas, amarelas.
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