AO LEITOR, ELEVAÇÃO: O ALBATROZ

 

É um desmascaro
Singelo grito:
“O rei está nu”
Mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que
                                              [o rei é mais bonito nu
  
(“O Estrangeiro”, Caetano Veloso)

 
 
prezados,
 
ao ler o primeiro poema da seleção que segue, imediatamente me ocorrem os versos acima.
 
pois que tal poema (o primeiro da escolha) desmascara, desnuda, descobre, aquela faceta que não nos é muito agradável de enxergar. penso que indesejável, porém importante de ser vista. é bom, bacana, que tenhamos um reconhecimento mais abrangente do que somos, sem falsas máscaras para escamotear.
 
à época do lançamento do livro de onde saíram as linhas a seguir (frança, metade do século 19), uma ação judicial movida contra o autor em 1857 condenou-o à multa de 300 francos, seus editores à multa de 100 francos cada um e ordenou-lhe a retirada de seis poemas da edição publicada. acusação: delito de ultraje à moral pública pela obra, chamada “as flores do mal”.
 
o conteúdo foi considerado imoral, impróprio. 
 
no fundo, porque, como dizem as linhas de caetano veloso, o conteúdo: um desmascaro, singelo grito — “o rei está nu! o rei está nu! o rei está nu!”
 
o leitor:
 
um pecador, um errado, um tolo, um mesquinho, recorrente nas faltas, assim como o bardo, assim como eu, assim como todos: um hipócrita — meu igual, meu irmão —.
 
às vezes, pela qualidade que o poeta tem de enxergar “acima”, de avistar “por sobre”, tal qual o albatroz — ave-monarca do azul, príncipe das alturas —, o bardo pode ser abatido por uma turba obscura, por gente que deseja tirar-lhe o poder do vôo, impedindo que o poeta, exilado ao chão, caminhe, deixando-o desajeitado com suas asas de gigante, feitas para o ar, para o viajar.
 
entretanto, mais do que das dores, do que dos desgostos, do que das penas, precisamos de uma asa vigorosa que nos lance às várzeas claras & serenas. sempre.
 
feliz é aquele que ao pensar qual pássaro veloz, distende-se, liberto, de manhã, rumo aos céus, paira sobre a vida e, sem esforço, entende a linguagem da flor e das coisas sem voz.
 
feliz o que, apesar dos pesares, enxerga o entorno belo, a maravilha que são as criações da natureza, as criações artísticas, humanas.
 
ao leitor, o meu desejo: de elevação — tal & qual a de um albatroz —. 
 
(alcem vôo! e não tenham medo da altura alcançada.) 
 
beijo grande & afetuoso em todos,
paulo sabino / paulinho. 
__________________________________________________________________________
 
(do livro: Poesia e Prosa – Volume único. autor: Charles Baudelaire. organização: Ivo Barroso. tradução: Ivan Junqueira. editora: Nova Aguilar.)
 
  
AO LEITOR
 
A tolice, o pecado, o logro, a mesquinhez
Habitam nosso espírito e o corpo viciam,
E adoráveis remorsos sempre nos saciam,
Como o mendigo exibe a sua sordidez.
 
Fiéis ao pecado, a contrição nos amordaça;
Impomos alto preço à infâmia confessada,
E alegres retornamos à lodosa estrada,
Na ilusão de que o pranto as nódoas nos desfaça.
 
Na almofada do mal é Satã Trismegisto
Quem docemente nosso espírito consola,
E o metal puro da vontade então se evola
Por obra deste sábio que age sem ser visto.
 
É o Diabo que nos move e até nos manuseia!
Em tudo o que repugna uma jóia encontramos;
Dia após dia, para o Inferno, caminhamos,
Sem medo algum, dentro da treva que nauseia.
 
Assim como um voraz devasso beija e suga
O seio murcho que lhe oferta uma vadia,
Furtamos ao acaso uma carícia esguia
Para espremê-la qual laranja que se enruga.
 
Espesso, a fervilhar, qual um milhão de helmintos,
Em nosso crânio um povo de demônios cresce,
E, ao respirarmos, aos pulmões a morte desce,
Rio invisível, com lamentos indistintos.
 
Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada
Não bordaram ainda com desenhos finos
A trama vã de nossos míseros destinos,
É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.
 
Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais,
Aos símios, escorpiões, abutres e panteras,
Aos monstros ululantes e às viscosas feras,
No lodaçal de nossos vícios imortais,
 
Um há mais feio, mais iníquo, mais imundo!
Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,
Da Terra, por prazer, faria um só detrito
E num bocejo imenso engoliria o mundo;
 
É o Tédio! — O olhar esquivo à mínima emoção,
Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado.
Tu conheces, leitor, o monstro delicado
— Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!
 
 
 
II
 
O ALBATROZ
 
Às vezes, por prazer, os homens da equipagem
Pegam um albatroz, imensa ave dos mares,
Que acompanha, indolente parceiro de viagem,
O navio a singrar por glaucos patamares.
 
Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés,
O monarca do azul, canhestro e envergonhado,
Deixa pender, qual par de remos junto aos pés,
As asas em que fulge um branco imaculado.
 
Antes tão belo, como é feio na desgraça
Esse viajante agora flácido e acanhado!
Um, com o cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,
Outro, a coxear, imita o enfermo outrora alado!
 
O Poeta se compara ao príncipe da altura
Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;
Exilado no chão, em meio à turba obscura,
As asas de gigante impedem-no de andar.
 
 
III
  
ELEVAÇÃO
 
Por sobre os pantanais, os vales orvalhados,
As montanhas, os bosques, as nuvens, os mares,
Para além do ígneo sol e do éter que há nos ares,
Para além dos confins dos tetos estrelados,
 
Flutuas, meu espírito, ágil peregrino,
E, como um nadador que nas águas afunda,
Sulcas alegremente a imensidão profunda
Com um lascivo e fluido gozo masculino.
 
Vai mais, vai mais além do lodo repelente,
Vai te purificar onde o ar se faz mais fino,
E bebe, qual licor translúcido e divino,
O puro fogo que enche o espaço transparente.
 
Depois do tédio e dos desgostos e das penas
Que gravam com seu peso a vida dolorosa,
Feliz daquele a quem uma asa vigorosa
Pode lançar às várzeas claras e serenas;
 
Aquele que, ao pensar, qual pássaro veloz,
De manhã rumo aos céus liberto se distende,
Que paira sobre a vida e sem esforço entende
A linguagem da flor e das coisas sem voz! 
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