CLARICE ENTREVISTA GULLAR

(trecho da orelha do livro: Clarice Lispector – Entrevistas.)
 
 
Mais do que uma simples especialidade jornalística, a entrevista é uma verdadeira arte, uma disputa amigável feita de muitas arremetidas e outros tantos recuos, sempre arriscando descambar para a contenda aberta quando o entrevistado sente-se pressionado.
 
O tipo de entrevista realizada por Clarice Lispector, no entanto, não era contaminado por qualquer rasgo de agressividade ou de armadilhas para o entrevistado, sendo, antes, uma agradável conversa, um bate-papo envolvente entre personalidades criativas que se admiravam e se respeitavam. O resultado, com valor de uma verdadeira peça literária, era altamente esclarecedor. Não é de se admirar, pois Clarice não era uma entrevistadora comum, não só em virtude de seu caráter peculiar e distintivo como pelo fato de ela já ser uma escritora consagrada quando iniciou a atividade de entrevistadora. Assim sendo, não seria possível para ela adotar uma pretensa neutralidade jornalística. Sobretudo porque, com freqüência, no entusiasmo da conversa, Clarice acabava emitindo opiniões pessoais e, desta forma, revelando a própria alma ao mesmo tempo que revelava a de seu entrevistado.
 
(…)
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mais uma belíssima entrevista realizada por esta mulher encantada, clarice lispector, com um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos, ferreira gullar.
 
absorvam & abasteçam-se da abastança aqui disponibilizada!
 
beijo carinhoso,
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Clarice Lispector – Entrevistas. perguntas & comentários: Clarice Lispector. organização: Claire Williams. editora: Rocco.)
 
 
 
FERREIRA GULLAR
 
 
De volta para o Brasil, o poeta Ferreira Gullar encontra os cariocas mais agitados, mais apressados, como se não soubessem o que vai acontecer no minuto seguinte.
 
Sou fervente admiradora de Ferreira Gullar, desde os tempos de A luta corporal até esse escandalosamente belíssimo Poema sujo. Nossos mútuos contatos se fizeram no tempo da primeira revista Senhor, para a qual nós dois escrevíamos. Mas eu tinha um pouco de medo dele, parecia-me que, com seu extraordinário poder verbal, eu seria aniquilada. Éramos um pouco distantes um do outro, e eu desconfiava que ele rejeitava a minha “literatura”. Mas o que fazer? Nada, senão continuar a gostar do que ele escrevia e escreve. Nesta entrevista, ele me assegurou que a desconfiança antiga era errada. Aleluia! Ele esteve em minha casa. Verifiquei que, praticamente, não mudou, tem o rosto como que talhado em madeira. Madeira sensível, madeira-de-lei. É pessoa extremamente simpática e com ar de bondade.
 
 
Há quanto tempo você não vinha ao Brasil?
 
— Há cinco anos e oito meses. Voltei no dia 10 de março deste ano.
 
Que diferenças você notou entre o Rio de antes e o de agora?
 
— O de hoje me parece mais frenético do que o de antes. É uma impressão um tanto subjetiva, de uma pessoa que apenas acaba de chegar. Sinto isso no comportamento das pessoas e no próprio aspecto da cidade, que parece mais um canteiro de obras. As pessoas estão mais agitadas, mais apressadas — como se não soubessem o que vai acontecer no minuto seguinte. Não há um ponto da cidade onde eu chegue e não veja buracos, terra e pedras, tudo amontoado e, às vezes, como se ali estivesse para sempre. Outra coisa que noto também é o distanciamento maior entre as classes sociais. Eu, que não tenho carro e que ando de ônibus, percebo que os usuários desses veículos são quase exclusivamente pessoas muito modestas. As outras devem estar no seu próprio carro. É uma sensação um pouco parecida com a que eu sentia em Lima, no Peru, onde o contraste social é enorme.
 
O mesmo eu senti na Colômbia, Gullar, onde havia multimilionários e o resto era completamente abandonado por todos, inclusive pelo governo. Lá a miséria é maior do que no Brasil, porque, com o frio, tudo piora.
 
— É claro, o clima do Brasil é uma das sortes nossas, Clarice.
 
Você tem reencontrado aqui os seus grandes amigos?
 
— Claro, e esta é uma das grandes alegrias da volta. Mas alguns desapareceram para sempre, como Leo Vitor, o Vianinha e Paulo Pontes.
 
Você já foi ao Maranhão, depois que voltou?
 
— Não, no momento não tenho condições para ver minha terra natal. Aqui me aguardavam problemas muito graves de família que exigem solução urgente e minha total dedicação. Mas, assim que eu puder, irei a São Luís para rever minha mãe, meus irmãos e minha cidade.
 
Olhe, Gullar, no Poema sujo você me fez sentir uma criança diante de uma selva ou de um altíssimo monumento. E quando você falou em “noites envenenadas de jasmin” — pois bem, senti-me de volta a Recife, que é a minha terra.
 
— É, suponho que o jasmin é algo muito forte. Assim o senti em Valparaíso, quando tomei um susto em relação ao intenso perfume dessa flor. Também então eu fui transportado de novo à minha cidade e infância. Em Lima, perto da casa onde morava, havia um muro, de onde se debruçava um jasmineiro.
 
Em que cidades você morou, durante seu tempo de exílio?
 
— A maior parte do tempo na América Latina, mas estive também em Paris e Roma. Depois morei em Santiago do Chile, Lima e Buenos Aires.
 
Como é que você se sustentava nesses lugares?
 
— Como a maior parte do tempo eu vivi sem a família, não necessitava de muito dinheiro para me manter. Escrevi para revistas brasileiras e dei aulas de português. Eventualmente, fazia palestras sobre arte e literatura brasileiras.
 
Você encontrou aqui, na sua volta, facilidade de arranjar um bom emprego?
 
— Durante todo o tempo de minha ausência, me mantive profissionalmente vinculado ao jornal O Estado de S. Paulo, onde eu fora redator desde 1962. Ao voltar, o diretor da sucursal do Estado, Villas Boas, que me recebeu no aeroporto, foi logo dizendo: “Como é? Amanhã você já estará na redação.” Bem, no dia seguinte não, mas na semana seguinte recomecei a trabalhar.
 
Qual a sua função no Estadão?
 
— Sou copidesque, isto é, reescrevo o que os outros escrevem.
 
Marques Rebelo me disse uma vez que reescrever era mais simples que escrever. Quanto a mim, Gullar, eu discordo, pois minhas frases já vêm prontas. Em você, como se processa o ato criador? Você reescreve?
 
— Não, só me sento para escrever quando sinto que a coisa está praticamente pronta dentro de mim. Depois que escrevo, faço, como você, eventualmente, algumas emendas, mas é só.
 
Gullar, vou lhe fazer uma pergunta muito difícil que eu mesma não saberia como responder. É o seguinte: como nasce, em você, o poema, a palavra escrita?
 
— Em mim o poema quase sempre é provocado por um choque emocional qualquer. Por exemplo, quando escrevi o poema sobre o Vietnã, a coisa se deu do seguinte modo: eu acordei, comecei a ler o jornal com suas tremendas notícias sobre a guerra. À porta de minha casa havia uma feira. Quando vi aquelas pessoas se dirigindo para as suas casas, com as cestas carregadas de verduras e frutas, deu-se o choque. Eu pensei: se fosse no Vietnã aquela senhora poderia encontrar a sua casa em chamas. Eu próprio havia marcado para sair de férias, um mês depois. Pensei: num país em guerra deve ser impossível planejar a vida, marcar férias, ir ao cinema, tudo pode ser desfeito de um momento para o outro. É a insegurança total. O choque emocional já por si provoca as palavras, eu em geral não me preocupo em escolhê-las, elas jorram.
 
Glauber Rocha disse que o Poema sujo é o ponto culminante do concretismo. Qual é a sua opinião? 
 
— O Poema sujo não tem nada a ver com o concretismo. Eu mesmo nunca fiz concretismo, já que meus poemas, naquela época, destoavam da concepção ortodoxa dos paulistas que lançaram o movimento. As coisas que escrevia, então, davam continuidade à minha própria experiência, onde já havia a utilização dos elementos visuais. O Poema sujo incorpora toda a minha experiência formal e, no aspecto gráfico, se liga ao neoconcretismo. Conversando posteriormente com Glauber, soube que ele nessa frase, usando a expressão concretismo, incluía a poesia neoconcreta.
 
Sua poesia passou por sucessivas etapas, verdadeiras rupturas com as fases anteriores, e há quem diga que seu último poema rompe com tudo o que você fez antes. Como explica isso?
 
— As rupturas são aparentes, ou melhor, de superfície. Sempre fiz literatura como um modo de entender a vida e a mim mesmo. A vida muda, eu mudo, as formas de expressão refletem essas mudanças. O Poema sujo rompe com certa rigidez, a que a própria prática de escrever vai submetendo o escritor, este poema é mais livre, é sobretudo um reencontro comigo mesmo.
 
O Poema sujo é um poema de exílio?
 
Não somente. Acredito que a condição de exilado penetra todo o poema e deve ter sido uma de suas motivações. Mas creio que o poema vai além disso — ele é uma tentativa de dizer tudo como se depois dele eu fosse morrer. O que ele significa exatamente, eu não sei.
 
Você está escrevendo atualmente algum poema?
 
— Não. Em 1975 escrevi um curto poema sobre a arquitetura de Oscar Niemeyer. Mas é praticamente inédito pois só foi publicado uma vez numa revista especializada de arquitetura.
 
Ah, se você soubesse de cor esse poema desconhecido, nós, que gostamos tanto de você e de Oscar, ficaríamos muito contentes…
 
— Sei de cor, chama-se “Lições de arquitetura”:
 
No ombro do planeta (em Caracas)
Oscar depositou para sempre uma ave uma flor
ele não faz de pedra nossas casas
faz de asas.
No coração de Argel sofrida
fez aterrisar uma tarde uma nave estelar
e linda
como ainda há de ser a vida
(Com seu traço futuro Oscar nos ensina que o
sonho é popular)
Nos ensina a sonhar
mesmo se lidamos com matéria dura
o ferro o cimento a fome
da humana arquitetura
Nos ensina a viver
no que ele transfigura
no açúcar da pedra
no sonho do ovo
na argila da aurora
na pluma da neve
na alvura do novo
Oscar nos ensina
que a beleza é leve.
 
 
É uma beleza, Gullar, digna de Oscar. E o que é que você gostaria de ter escrito e não escreveu?
 
— Um poema capaz de abarcar toda a história sofrida e obscura da gente brasileira.
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4 Respostas

  1. Caro Paulo Sabino,
    Estou escrevendo uma monografia sobre o Ferreira Gullar, e esta entrevista cedida à Clarice veio em boa hora, sobretudo o trecho a que se refere o momento de inspiração de “Por Você Por Mim”. Por favor, você poderia me informar o número da página em que se encontra o referido trecho, bem como a cidade em que foi impresso o livro de entrevistas? Grato desde já.
    Rafael

    • Caro Rafael,

      Fico feliz sabendo que a entrevista o ajudou no trabalho de monografia.

      O referido trecho se encontra nas páginas 53 e 54. O livro foi impresso na cidade do Rio de Janeiro.

      Abraço & boa sorte!

  2. Paulo,
    Muito obrigado. Me ajudou muito.
    Já estive em seu blog antes, tem muita coisa bacana.
    Meus sinceros parabéns.
    Rafael

    • Que bom saber, Rafael!

      Muitíssimo obrigado!

      Por favor, me faça as suas visitas.

      Abraço GRANDE!

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