PROCURA DA POESIA

não,
 
não aos versos sobre acontecimentos.
 
diante da poesia, a vida é um sol estático. um sol parado. um sol que não aquece nem ilumina.
 
o que se pensa ou sente, isso ainda não é poesia.
 
poesia é mais do que um relato. poesia não é biografia.
 
à sua companhia, esquecer a memória. pois o que se dissipou, o que partiu, o que se foi, não era poesia. ela não se dissipa, ela não se parte. ela fica, pés fincados em sua forma definitiva e concentrada no espaço.
 
poesia não é biografia. os versos não dizem acontecimentos. os versos não são acontecimentos.
 
(o poeta é um fingidor. finge tão completamente…)
 
matéria da poesia: palavra.
 
assim sendo: penetrar surdamente no reino das palavras. nesse reino estão os poemas que esperam ser escritos. estão quietos, paralisados, mudos: em estado de dicionário.
 
chegar perto, bem perto, mais perto, e contemplar as palavras. cada uma tem mil faces secretas sob a feca neutra, sob a face impassível, e cada palavra, sem interesse por qualquer resposta que lhe chegue, indaga (a quem a aprecia): “trouxe a chave?”
 
a fim de acessá-las, penetrá-las, abri-las às tantas possibilidades & alternativas que abrigam, ter, sempre em mãos, a chave adequada para cada uma delas. (atenção redobrada.)
 
as palavras não nos têm zelo. somos nós quem zelamos por elas. necessitamos procurá-las, catá-las, achá-las, apreendê-las, compreendê-las, retê-las. elas, em estado de dicionário, paradas, estáticas, destilam, com sua imobilidade, o seu mais genuíno desprezo.
 
(palavra: o meu vício maior.
palavra: a razão do ser da poesia.)
 
um beijo afetuoso em todos,
paulo sabino / paulinho.
_______________________________________________________________________ 
 
(do livro: Antologia Poética. autor & organizador: Carlos Drummond de Andrade. editora: Record.)
 
 
PROCURA DA POESIA
 
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efu-
                                                                                                             [são lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
 
Não cantes tua cidade, deixe-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das
                                                                                                               [casas.
Não é música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas junto
                                                                                            [à linha de espuma.
 
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
 
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas muzarcas e abusões, vossos esqueletos de família
desapareceram na curva do tempo, é algo imprestável.
 
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
 
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
 
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
 
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
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4 Respostas

  1. Paulinho .. meu amigo .. que saudades ..

    adorei esse, os poemas que se revelam por ai, por si … contando os dias pra festa junina e encontrar voces para os dias de alegreia !!

    abraços

    • antonio, queridíssimo!,

      que BOM encontrá-lo por aqui! que BOM receber sua visita!

      também estou na maior expectativa para a festa junina! são sempre festas maravilhosas, encontros memoráveis, tenha certeza de que nos divertiremos MUITO!

      “ngatuoca” (nome da casa do gonçalves, que significa “a casa do bem”, “a casa da harmonia”), aqui vamos nós!

      até lá, meu querido!
      beijo GRANDE!

  2. Achei muito util trechos de poemas,principalmente p quem estpera o vestibular

  3. que bom, rafaela!

    espero que o “prosa em poema” possa ser útil antes e depois do vestibular. 😉

    valeu a visita!

    volte quando quiser!

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