AFRODITES EM VERSOS & SUAS MARGENS DE MANOBRAS

a vocês,
 
uma seleção que traz duas poetas-afrodites (segundo o dicionário da mitologia grega e romana, da editora bertrand brasil, afrodite é a deusa do amor, identificada em roma com a velha divindade itálica vénus) e suas margens de manobras — as orlas, as beiradas de suas estratégias, de suas astúcias, de suas arte&manhas, nas linhas poéticas —.
 
margens: também as linhas (os versos) de tais artimanhas & ardis.
 
duas afrodites em versos, duas poetas que adoro e com obras onde encontro uma série de convergências.
 
a começar pela importância que as musas-afrodites-poetas dão ao movimento de “mergulho em si mesmo”, ao sentido de cair, de quedar-se em si.
 
num poema intitulado “queda”, afirma claudia roquette-pinto:
 
Corpo, precipício
em que desabalar-se
sem rédea, poço sem
resquício de água, férrea
determinação de escapar,
ileso, da queda inconclusa
 
tanto claudia roquette-pinto quanto paula cajaty mostram uma grande atenção ao conhecimento sensorial do corpo, sem racionalizações. a “queda em si” é o conhecimento, o entendimento corporal das sensações, onde há uma dispersão, há uma desatenção, e certa “confusão”, do pensamento, da razão.  
 
a delícia de mergulhar em si, mergulhar no outro, e, assim, mergulhar em tudo, mergulhar na existência.
 
(deixar-se levar pelas sensações à flor da pele, entendendo não pelo raciocínio, e sim pelos toques & retoques de corpo contra corpo.)
 
outra convergência é o destaque, nos textos, ao amor e às relações amorosas, com todas as suas nuances: as dores & delícias: o sexo, o toque, o desejo, o carinho, o amor natural, os desgastes, os afastamentos, os desentendimentos.
 
como a seleção aqui disposta é grande, poderia falar sobre algumas tantas peculiaridades e alguns tantos refinamentos nos textos das poetas. porém, esta apresentação sairia muito longa, e, portanto, um tanto despropositada (rs).
 
duas vozes eloqüentes, inteligentes, que cantam o amor.
 
e como dito: afrodites em versos e suas margens de manobras.
 
quedem-se!, caiam de boca & olhos nestes achados!
 
beijo carinhoso em todos,
paulo sabino / paulinho.  
_________________________________________________________________________
 
(do livro: Afrodite in verso. autora: Paula Cajaty. editora: 7Letras.)
 
 
EGOTRIP
 
ele já não me pertence
perdi o ritmo, sei do meu erro
me entreguei a Narciso.
 
tanto capricho destilado
queima a frio, fere a fogo
marca fundo, seca o amor.
 
nada mais resta para amar
quando nada mais falta para partir.
 
 
MERGULHO NO DESCONHECIDO
 
ela se deliciava nele
com a desconstrução dos seus dogmas
com o questionamento dos seus motivos
vendo estampado por trás do olho
o brilho e o encantamento
que a enchia de tudo
que a suspirava de vida
e dava vontade de se dar pelo mundo…
 
ela gostava do desafio da retórica
ao qual normalmente se foge
num ambiente de conquista
mas ele enfrentava
mantinha a impropriedade das perguntas
questionava seus motivos
dando ainda mais motivo
para ela mergulhar
sempre e ainda mais
nele
nela
em tudo.
 
 
PERDÃO
 
hoje, perdôo a tudo
as faltas de ontem
as noites clareadas de tristeza
o contido choro.
 
esqueço os ciúmes que tive
as lágrimas sem gosto
a solidão
a ausência das juras de amor.
 
hoje, a tudo perdôo
estás aqui, no meu afago
pagando tudo
hoje, só hoje…
 
 
ARTE FEMININA
 
a menina era arteira
sabia dar nó
armar laço
montar armadilha
só para pegar aquele passarinho.
 
aquele passarinho que visitava seu jardim.
 
é, a menina tinha um jardim encantado, ela disse…
cheio de flor, cheio de cheiro…
 
e o passarinho era arisco
vivia beijando as margaridas
e as marias-sem-vergonha
confundindo girassóis
ecantando seu amor-perfeito.
 
mas a menina queria a graça dele
pra ela
queria a liberdade dele
todo dia
mas a menina não sabia
só soube depois
quando já era tarde demais…
 
preso, na gaiola
ele parava de cantar
esquecia os amores de suas flores
perdia o brilho do olho
e desaprendia a voar.
 
 
PINTANDO CONTOS
 
os meus contos
sem conta
te conto baixinho
enquanto devagar
eu deixo você contar
minhas pintas.
 
os meus contos
tão longos
vão devagarinho
envolvendo, enrolando
entremeando encantos
atiçando corpos
te fazendo fita.
 
 
E SE…?
 
e se ela chamasse?
ele atenderia?
se ele aceitasse?
ela assustaria?
se ele beijasse?
ela devolveria?
se ela abraçasse?
ele se entregaria?
 
e se fosse bom?
apaixonariam?
e se fosse ruim?
esqueceriam?
e se fosse uma vez?
o desejo calaria?
e se a amizade morresse?
se arrependeriam?
 
 
ESCONDE-ESCONDE
 
somos adultos
mas ainda brincamos
de esconde-esconde
pique-pega
cabra-cega
falamos mudos
em códigos secretos
para que ninguém entenda
com tantos olhos
ouvidos
campainhas
telefones
fugimos dentro de casa
para dentro de nós mesmos.
 
 
BRINQUEDO DE MENINA
 
A menina incorrigível sumiu o dia todo, largou seu brin-
quedo, deixou o quarto nos fachos de sol que invadiam
suas cortinas de silêncio.
Foi passear no sol, brincar em castelos com a areia da praia,
se divertir com outras sereias do sol e princesas do mar.
Foi desafiar as ondas com seu biquíni de lacinho, lavar
a alma no sal, encher-se da luz do sol para brilhar, ainda
mais, na noite.
A rebeldia da menina queria a infinidade da areia, a leveza
do horizonte, só pra ela… Guardava a maresia no olho.
Contava para as preciosidades que ganhava das ondas,
do brinquedo novo que ganhou e que ficou lá no quarto
dela, solto no chão, iluminado na solidão.
Agora, no segredo de seus escuros, quer brincar de novo
com ele, quer encher o vazio do quarto com sua algazarra.
Mas o brinquedo nunca recusa a menina, ou não seria
tão seu. 
_________________________________________________________________________
 
(do livro: Margem de manobra. autora: Claudia Roquette-Pinto. editora: Aeroplano.)
 
 
SOB O TOQUE DA LUZ DO DIA
 
            Sob o toque da luz do dia, sob seus dedos papoulas
em sua primeira floração meu corpo inteiro se abre é o
amanhecer, após uma longa noite durante a qual ela anestesiou
cinco soldados — ondas que assomam, viajam, todos
para amputações esplêndidas, opalescentes, do centro
(dois tinham morrido). As papoulas parecem quentes, opiá-
ceas, uma mancha na encosta, disse ela, generosamente
distribuídas parecem sangue para minha delícia, por toda
a extensão da pele.
 
 
GRANADA
 
Na última noite
os corações se encontram primeiro.
Dentro do tecido e do peito
dispõem-se a acertar o passo
(código-morse toque-a-toque decifrado)
até que o jorro
ouro-vermelho sobe aos lábios,
dispara o beijo
em alta velocidade,
despenca ladeira abaixo,
acendendo os entrepostos no caminho.
Quando as palavras finalmente se apresentam
(ruídos, balbucios)
estremunhadas em meio ao motim,
sob impacto de granada (sua fala),
o sonho explode.
 
 
ROL
 
Na noite sem remédio,
no quarto cansado,
o casal repete a cena:
despe se enlaça
debruça molemente entre cobertas
sobre as partes encobertas
pelos retalhos puídos do dia.
Debruçam sem ruído,
sem sede,
atrás da coisa ausente
que não se perdeu de repente,
num estrondo
(rasga o uso diário,
meia esquecida
no armário, desgarrada
no rol da lavanderia).
Repete a coreografia
— pausa para reticências.
No último instante atenta
(antes que a onda do sonho,
em câmera lenta, recaia
sobre seu corpo)
ela relembra o convite das flores:
tontas de abelhas,
brotando feridas no tronco
do pé de fruta-pão.
 
 
…ENTRE PERNAS, ENTRE BRAÇOS
 
…entre pernas, entre braços, passes e recuos falsos, mais
embolados do que seria plausível, movimentos de improviso
surgem e se sustentam carregados no seu curso, dentro do rio
de energia (lúcido), mas mais ainda que isso, enovelados no
íntimo, distraídos de quem foram antes de entrar neste circuito
(ou círculo), os dois flutuam (caem) sem nunca deixarem
de estar dentro do corpo (corpo que mais uma vez se empresta
a esta descoberta), a superfície do corpo, sua densidade manifesta,
a solidez com que transporta as sensações silmutâneas 
das portas dos sentidos até o centro escuro, interrompe o
pensamento no ímpeto alternado que concentra e dispersa, pele
colada à pele, atenção colada à experiência, distribuindo a
inteligência em diferentes direções (estrelados), cada estímulo
alinhavado reverberando no plexo, côncavos, convexos, sem o
menor intervalo ou qualquer outra palavra de igual afastamento, 
a um passo da completa anulação até que eu e eu
explodem numa coleção de estilhaços, entre pernas, braços…
 
 
HOMEM: MODO DE ABRIR 
 
Com os lábios e com a língua
e qualquer palavra que sirva
para a imagem a ser descascada:
uva túrgida,
auto-suficiente,
súbita inclinando-se ao
verter do próprio sumo
se adequadamente envolta
pela boca
sábia que adivinha (conhece?)
a concentração de urgência e
doçura
dormindo, agora, ali.
 
 
CANÇÃO DE MOLLY BLOOM  (para A.)
 
“O coração dele batia como louco
e sim, eu disse sim”
ao mar carmesim enrodilhando
o meu corpo, às vezes como fogo
às vezes vertigem;
no abraço torto
um tronco atado ao outro
à beira do precipício,
prestes a cair.
Presteza, as nossas bocas
(até ali estrangeiras)
instruindo uma à outra
na mesma velocidade (de raio,
de alcatéia) dos corpos enquanto ensaiam
o reconhecimento
debaixo do tombo dos ventos e atravessados de luz.
E “como ele me beijou
contra a muralha mourisca”
(que ali não existia,
mas quase rima com a lemniscata
de ímã que então se riscava
à volta do meu, do seu coração)
“E sim eu disse sim eu
quero sim” (ainda que muda)
e depois do lampejo de silêncio
(eu estava certa)
a sua voz
toda aberta para mim.
 
 
O PRIMEIRO BEIJO
 
Íntimo do medo
(e não avesso a ele)
o rosto indecifrável sequer denuncia
a tropa de cavalaria
que lhe sacode o peito.
Enquanto as mãos,
na exposição do argumento,
tremem visivelmente,
ele permanece sereno, pousado
(gota de orvalho sobre a agulha do pinheiro)
no momento presente.
Daí o seu poder deriva:
de não querer domar a coisa viva,
mas cavalgá-la com graça
(o corpo não se opõe ao desejo).
Ele é dono do seu medo,
e o abraça.
 
 
KIT E PORT
 
Eles fazem amor na beira do abismo.
A areia o cascalho tisnam, esfolam,
rasgam o vestido e a pele, o cinto
aninhou-se em serpente inerte
ao lado do paletó amarfanhado,
o brinco rolou encosta abaixo,
as palmas das mãos lanharam e
passeiam sua aspereza pelo rosto,
cobrem de poeira o seio trêmulo,
exposto.
A cúpula a concha indecisa
que acima dos corpos se fecha
nada guarda: pálpebra dormente,
anestesiada sob o entardecer,
que fosforesce.
No momento em que a penetra
(apenas o zíper aberto)
centrípeto em seu ímpeto, ele fala.
Repete, enquanto arremete
o corpo contra o dela,
lanha arranha esfola ergue
sua tenda de palavras
sob o céu que não protege.
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