CAVALO-DE-MIM: EU PRÓPRIO, O MEU ORIXÁ

dentro do percurso realizado por um búzio, entre as mãos de quem o atira e a mesa onde é atirado, não se pode esquecer ou negar o tanto de acaso que a sua queda abriga.
 
isto é: até a adivinhação do destino não pode ser inteiramente confiável, porque a queda do búzio não abole o acaso, porque o búzio à mesa arremessado, durante a sua queda e o seu balançar, pode posicionar-se, por um capricho da sorte, em lugar indevido, mentindo, assim, sobre a sorte de alguma vida.
 
portanto, entre as mãos e a mesa, a caída de um búzio não abole o acaso. 
 
e eu:
 
eu sou este búzio caindo.
 
caindo, caindo, caindo, e, deste modo, um búzio quedando-se em si.
 
quedar em si, cair em si: o mergulho — fundo — no eu.
 
por isso afirmo: dentro em mim mesmo caí, dentro em mim mesmo desci, e, desta maneira, baixei do lugar de onde vim.
 
eu mesmo: um tanto dono da minha sorte, um tanto senhor do meu destino. 
 
eu mesmo: o meu próprio orixá.
eu mesmo: o meu próprio cavalo.
 
eu mesmo: o meu próprio orixá & o meu próprio cavalo.
 
eu mesmo: cavalo-de-mim.
 
(cavalo-do-santo: as filhas e os filhos dos terreiros de candomblé & umbanda, iniciados na religião, são os instrumentos de que os orixás se utilizam para as suas manifestações no plano terreno. daí o nome, cavalo-do-santo.)
 
dono da minha sorte, senhor do meu destino, baixando em mim, sempre!
 
assim sendo,
 
vida & verso, verso & vida: universos que se tocam, que se roçam, que se encostam, que comungam.
 
a arte poética também é fruto do que na vida frutifica.
 
(os versos vêm do que está no poeta. e no poeta está a marca do que a existência lhe tatua.)
 
(os versos o poeta os faz do que lhe chega, os versos o poeta faz do que lhe vem.) 
 
em partes, repito: (apenas) em partes, trago a carne aberta em poesia, e meu dia-a-dia, versejo em metro e rima.
 
eis a síntese dos versos. eis a síntese da (minha) vida.
 
beijo GRANDE em todos,
o preto,
paulo sabino / paulinho.
_____________________________________________________________
 
(do livro: Aquém das retinas. autor: Mauricio Matos. editora: 7Letras.)
 
 
ENTRE AS MÃOS E A MESA
 
entre as mãos e a mesa
a caída de um búzio
jamais abolirá o acaso
 
eu sou este búzio caindo
 
 
ARTE POÉTICA
 
baixei do lugar de onde vim
e dentro em mim mesmo desci
sem longe nem perto ou aqui
sem rumo princípio nem fim
 
eu mesmo cavalo-de-mim
 
 
SÍNTESE
 
Verseja a síntese dos versos, ou da vida,
que, por lonjura, ou precisão, ou demasia,
em partes trago a carne aberta em poesia,
escontra a alma, procurada e prometida.
 
Em metro e rima versejei meu dia a dia,
e agora em versos trago a carne transcorrida
longinquamente, para a morte a ser cumprida,
pela alma adentro, sem profeta ou profecia.
 
A sucessão do que acontece aquém-de-mim
é o tempo vindo longamente, de onde vim,
a arremessar-me, vida acima, corpo aquém.
 
De um longo dentro os versos vêm, e sem ter fim,
segundo o tempo, os versos vão, que além-de-mim,
longinquamente, os versos faço do que vem. 
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