VER VIVER ESCREVER, ANTES QUE O SOL SE PONHA

a grande verdade:
 
as experiências passam e não somos capazes de retê-las, bordado que se faz e se desfaz, e se faz e se desfaz, e se faz e se desfaz, e assim sucessivamente, incessantemente, no tecido existencial.
 
as vivências vão perdendo-se num poço escuro da memória, uma vez que as agulhas do tempo não bordam os acontecimentos pretéritos no pano da existência. o que bordam as agulhas do tempo não é retido na urdidura, na trama, nas linhas, da vida.
 
portanto, um pacto: viver, e ver, na vida, tudo o que tiver que ser vivido e visto.
 
portanto, viver e ver de um tudo; ver e viver o conflito dos antônimos, isto é, ver e viver os paradoxos, as contradições, e as dores.
 
(não seria, antes, essa harmonia redonda de que se gabam os geômetras, os especializados em geometria, os versados em formas-objetos e espaços, sintoma — fruto — exatamente do que é conflituoso?)
 
(haverá alguma “ordem atônita”, alguma “ordem desordenadamente organizada”, que nos dê a medida do homem?)
 
sei que vivo e vejo.
 
deu-me deus dois olhos nômades com que vejo o que me ronda: um traz o abismo, o que é profundo, à tona. o outro, o que os biombos escondem.
 
o olho: vê.
 
e a mão: escreve.
 
a mão que escreve é aquela que, além de répobra, além de malvada, de detestada, e amiúde analfabeta (mão que, no fundo, não entende de escrever), sofre de exageros e excessos por/para: nada.
 
(a mão que escreve é aquela que compôs versos, odes, elegias, aos quais ninguém deu crédito nem ouvidos.)
 
ver, viver, escrever…
 
ver, viver, escrever, tudo tudo tudo: antes que o sol se ponha de vez. antes que se ponha o ponto final definitivo, aquele que encerra, que impede, a continuidade de qualquer discurso, de qualquer trama, de qualquer linha.
 
(pois súbito colhemos a morte, flor cediça, dentro da vida.)
 
beijo bom em todos!
paulo sabino / paulinho.  
__________________________________________________________
 
(do livro: Poesia reunida. autor: Ivan Junqueira. editora: A Girafa.)
 
 
TALVEZ O VENTO SAIBA
 
Talvez o vento saiba dos meus passos,
das sendas que os meus pés já não abordam,
das ondas cujas cristas não transbordam
senão o sal que escorre dos meus braços.
As sereias que ouvi não mais acordam
à cálida pressão dos meus abraços,
e o que a infância teceu entre sargaços
as agulhas do tempo já não bordam.
Só vejo sobre a areia vagos traços
de tudo o que meus olhos mal recordam
e os dentes, por inúteis, não concordam
sequer em mastigar como bagaços.
Talvez se lembre o vento desses laços
que a dura mão de Deus fez em pedaços.

 

 
PACTO
 
Terei parte com o demônio
ou será que apenas sonho
o que os outros, além do sono,
jamais enxergam na sombra?
 
Seria um acordo anônimo
com o mal, o horror, o assombro?
Seria o quê? Não suponho,
mas o sinto em meus neurônios.
 
Essa harmonia redonda
de que se gabam os geômetras
não seria antes sintoma
do conflito entre os antônimos?
 
Não haverá na hecatombe
algo de lúdico e hedônico,
uma ordem que, por atônita,
nos dê a medida do homem?
 
Deu-me Deus dois olhos nômades
com que vejo o que me ronda:
um traz o pélago à tona;
outro, o que escondem os biombos.
 
 
A MÃO QUE ESCREVE
 
A mão que escreve é aquela
que não pôde, inepta,
agarrar o que lhe era
devido nesta gleba:
glória, insígnias, troféus
e algo enfim que soubesse
àquilo a que, incrédulos,
chamamos vida eterna.
 
A mão que escreve é aquela
cujas linhas, babélicas,
descumpriram o périplo
que lhes previa a esfera
de um trismegístico Hermes,
e que, por dolo e inércia,
deixou rolar a pérola
que arrancara do pélago.
 
A mão que escreve é aquela
que foi, além de réproba
e amiúde analfabeta,
muitas vezes canhestra:
enfiou por ínvias vielas,
urdiu frases sem nexo,
bateu-se em tolos duelos
e excedeu-se, sem rédeas.
 
A mão que escreve é aquela
que compôs alguns versos,
odes, canções de gesta
e elegias sem metro,
às quais ninguém deu crédito
nem ouvidos. Aquela
que ergueu um brinde aos féretros
de uma insepulta Grécia.
 
 
ANTES QUE O SOL SE PONHA
 
Antes que o sol se ponha e seja tarde,
e o azul crepuscular me deite a garra,
e eu, nu, retorne à terra sem fanfarra
ou mortalha que o corpo me resguarde;
antes que murche a pétala na jarra,
e eu cale, para sempre, sem alarde,
e tudo o que me coube, por covarde,
não mais recorde a relva que se agarra
às últimas raízes da existência;
antes que eu cerre os olhos e adormeça,
e em minhas próprias células esqueça
as chamas que me arderam na consciência;
antes que a luz regresse e que amanheça,
e eu a mim mesmo já não me conheça.
 
 
EPITÁFIO
 
De tua história, nada;
ou tudo, se quiseres:
entre uma e outra data,
a fábula de seres
nunca o tangível, mas
o pássaro, o maralto
(o passo, não: o salto
em vão, fora do espaço),
o amor, vale dizer:
sua forma álgida e rara,
avessa à coisa amada
— e, súbito, colher
a morte, flor cediça,
dentro da vida.
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