HOMENAGEM AO WALY

se, por um lado,
 
aprecio e admiro joão cabral de melo neto por ele ser um arquiteto cerebral dos versos,
 
por outro,
 
admiro e aprecio os versos que seguem abaixo exatamente pelas faltas de economia e secura. o poeta responsável por eles é o que chamaria de: poeta-enxurrada.
 
seus versos são verdadeiros “jorros” de idéias e imagens que se articulam num dizer indisciplinado e torrencial, caudaloso. o comedimento, decididamente, não é o seu forte. e eu o acho delicioso por isso.
 
waly salomão é uma metralhadora poética. sua verborragia lírica é o grande barato.
 
com ela, o bardo alcança os mais altos efeitos imagéticos, e, com isso, os mais altos efeitos de significados, de idéias, que podem sugerir as linhas.
 
tenho verdadeira loucura pelo waly por esta capacidade: a de ser um manancial de idéias & conexões & constatações & achados, a de ser um furacão do verbo a serviço do desconcerto que aguça a perspicácia.
 
dentro da profusão do linguajar, waly salomão promove o encontro & o convívio harmônico, convívio de bem-querer, entre a academia & as ruas: a fala dos dicionários & a fala das bocas, atreladas, atadas, numa junção ímpar, bela & esperta.
 
alguns o dizem “excêntrico”; outros, “maluco”; outros ainda, “lunático”.
 
“lunático”? nããão, decididamente.
 
waly salomão: the sailormoon, o navegante da lua, o marinheiro deste satélite que parece “uma imensa aspirina / boaindo nua no céu” (da canção da gema, música de caetano veloso e letra de waly salomão), o timoneiro luarento em busca dos deuses & dos tesouros & dos reinos perdidos por entre as palavras.
 
abaixo, a minha singela homenagem a um dos tantos capitães da minha barca literária.
 
ao poeta-pedrada, ao poeta-porrada (“porrada”, tal & qual o lsd blue sky), ao poeta rico em fluência, esbanjador, nada econômico, fica a minha “doce” homenagem e o meu entendimento de que:
 
durante o resto do tempo que me é concedido viver, e na hora H da morte, esteja estampada, na minha face, a legenda: o que amas de verdade permanece, o resto é escória.
 
nada de cortejar a morte nem de perambular pelos cemitérios nem de brindar o luar patético com caveiras repletas de vinho tinto seco, como um poeta gótico e obsoleto.
 
antes, sereno e cabeça dura, insistente, mirar de frente a caveira e as tropas de vermes, sempre em prontidão, sempre em estado de alerta, e gargalhar da irrealidade da morte.
 
gozar gozar & gozar a exuberância órfica das coisas, isto é, gozar gozar & gozar a existência: por sobre a terra, por sob o céu.
 
estejamos preocupados, sempre, em viver o AGORA, em viver o que temos HOJE, que é o PRESENTE. e que este seja, sempre, a atualidade do que é: belo.  
 
e o resto (os compromissos abarrotados de chateações, os seminários sem sêmen nem humor trocadilhescos), deixemos ao resto!
 
embarquem nesta viagem!
 
beijo carinhoso em todos,
o preto,
paulo sabino / paulinho.
____________________________________________________
 
(do livro: Lábia. autor: Waly Salomão. editora: Rocco.) 
 
 
POST-MORTEM
 
Um cavalo-marinho mergulha em seus círculos de corais
mas em sua mente só releva a atualidade do belo.
O passado pode estar abarrotado de chateações
mas daqui pra frente ótimas fotos e melhores filmes
e amor e gravidez no bojo do macho
e horas infindas deitado nas areias
especulando nuvens
que se esgarçam ao sabor e ao deslize das figuras.
Um gosto permanecer aqui extasiado
e sem querer comparecer a nenhum vernissage
cansado dos artistas
que dão a seus quadros a última demão de verniz
e permanecer lasso das exposições e dos museus a visitar
e do dernier cri
esquecer os pacotes de encomendas à Amazon Books
e fugir dos seminários sem sêmen nem humor trocadilhescos.
Quase morrer é assim:
uma cada vez mais crescente ojeriza com a “vidinha literária”
de par com a imorredoura memória de certas linhas,
por exemplo,
que durante o resto de tempo que me é concedido viver
e na hora H da morte,
estampada na minha face esteja a legenda:
O que amas de verdade permanece, o resto é escória.
Sonhar com Provenças e Venezas e Florenças.
Rever Piero della Francesca
e a Essaouira de meu amigo Garbil, o boxeador.
E a vista de Delft de Vermeer.
A Barcelona do poeta-clochard-palhaço Joan Brossa.
A cena de New York, minha e de todos e de Ashbery
e de Frank O’Hara e de ninguém.
 
Sobem fiapos da infância de um tabaréu:
ora eu era
uma piaba nadando por entre bancos de areia do Rio das Contas
ora eu era
um acari das locas do Gongogi — rio cheio de baronesas.
Idade do ouro fluvial, plástica, flamante.
Fogueira gigante das noites de São João. Fogos-de-bengala.
Eu sozinho menino e o Amadis de Gaula
e os outros todos principais cavaleiros
e as outras todas principais damas
que povoavam as varandas, os pastos, o curral, a balsa, a chácara,
as pedras, os capins e as matas da Coroa Azul raro Balito.
Convive-se com uma criatura sem imaginar de que reino
                                                                                                   provém.
 
Zelar pelo deus Treme-Terra que meu coração devolveu.
Não cortejar a morte.
Não perambular pelos cemitérios
nem brindar o luar patético
com caveiras repletas de vinho tinto seco
como um Byron-Castro Alves gótico e obsoleto.
Sereno e cabeça dura — testa ruda
mirar de frente a caveira
e as tropas de vermes de prontidão
(como observo vermes dentro de um pêssego)
mas por enquanto gargalhar da irrealidade da morte.
Gozar, gozar e gozar
a exuberância órfica das coisas
em riba da terra
debaixo
do
céu.
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2 Respostas

  1. Paulo Sabino,
    De Waly conheci apenas “Tarifa de Embarque” e, na época, garoto demais, não pude apreciar sua orgia lingüística, embora tenha gostado do livro. Meus sinceros parabéns pelo seu panegírico ao poeta. Serviu para me alertar o quanto estou perdendo por ter ignorado o Waly até agora.
    Abraço
    Rafael

    • rafael,

      o bom da poesia (e da vida também) é que sempre estamos em tempo de conhecer.

      por isso, aproveite a sua curiosidade que foi incitada e conheça mais a obra do waly. vale a pena.

      abraço grande!

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