LUNA PARQUE: CHAMA NÃO VISÍVEL & SALADA COM MOLHO

julgou-se que, ali, logo ali, era uma espécie de “luna parque”, que é um parque de diversões, com suas barraquinhas de tiro ao alvo e de arremesso, roda-gigante, trem-fantasma, e tantas outras coisas típicas do local.
 
julgou-se que, aquilo, era um luna parque e que, dele, saía-se como se entrava: nada de irreversível acontecia durante a estada.
 
mas não.
 
quando se percebe, já lá dentro está, mesmo sem saber que lá dentro entrou, e, quando se deseja sair, a saída é: proibida. vetada. obstruída. quem lá vai não volta nunca mais.
 
(viagem com apenas a tarifa de embarque.)
 
pode bater um desespero imaginar-se vivendo, o resto da vida, dentro desse tipo de luna parque: paúra pânico pavor.
 
depois habitua-se a fazer, nesse parque, das tripas, coração. acostuma-se, nesse parque, ao convívio com a dor. no princípio dói muito, fere, machuca viver nas suas dependências.
 
mais tarde, percebe-se que no luna parque, apresentado como um parque de diversões, porém um parque de diversões tristes, pode-se não ser triste. percebe-se que, mesmo um sítio lúgubre, mesmo um lugar doloroso, pode-se ser feliz, pode-se cavar o bem-estar nesse terreno destinado, ao que tudo consta, à recreação. 
 
sai muito caro não ser triste, a conta é alta. mas poder, pode-se, sim.
 
é fogo!…
 
e, com o fogo, como já dizem os antigos, com o fogo não se brinca. porque o fogo queima arde machuca.
 
(o fogo é feito de naturezas diversas.)
 
se, com o fogo que exala fumo, isto é, se, com o fogo que solta fumaça, não devemos brincar, com o fogo que arde sem se ver a recomendação é para que se brinque ainda menos (rs).
 
pois que o fogo que arde sem se ver é um fogo que queima muito, e como queima muito, custa mais a apagar do que o fogo com fumaça. 
 
portanto, atenção ao brincarem com esse tipo de chama!…
 
é uma chama excêntrica… a mesma força motriz que a levanta & a faz viver intensa pode, perfeitamente, extingui-la.
 
assim como quando se come uma salada com molho saboroso (imagine-se o molho como a “força motriz” da salada): no início, a salada é deliciosa por causa do molho. tudo o que mais se quer, tudo o que mais se deseja, é comer a salada COM o molho. o molho é o que dá graça ao prato. passado um tempo, pode-se perceber, pode-se concluir, que é mil vezes melhor comer os vegetais sem o molho do que com o molho.
 
o molho impede que se comam os vegetais com o gosto que possuem os vegetais. o molho impede, o molho embarreira, o sabor do que realmente se come. o molho passa a ser dispensável.
 
(o amor e seus reveses, e seus infortúnios, e seus imprevistos…)
 
abaixo, três exuberantes poemas de uma poeta portuguesa por quem sou apaixonado: adília lopes. o último da trinca é um dos mais espertos poemas que li nos últimos tempos. adoro a construção de imagens, a sagacidade da narrativa, os trocadilhos, as intenções. tudo, nos versos, é muito. estejam atentos a eles.
 
beijo grande em todos,
paulo sabino / paulinho.
___________________________________________________________________ 
 
(do livro: Antologia. autora: Adília Lopes. editoras: 7Letras / Cosac & Naify.)
 
 
O LUNA PARQUE
 
Eu julgava que aquilo era
um Luna Parque
saía-se como se entrava
e não acontecia nada irreversível durante
é o que é um Luna Parque
quando se é adolescente
mas não
quando dei por mim
já lá estava dentro
e não me lembrava
de ter entrado
quando disse agora quero-me
ir embora
riram-se ah minha rica
deste Luna Parque não se sai
quem cá vem não volta
não se volta atrás
então comecei a pensar
que ia passar o resto dos meus dias
no Luna Parque
acabas por aprender vais ver
a fazer das tripas coração
habituas-te vais ver
nos primeiros tempos dói
dá vontade de vomitar
depois percebe-se que
no Luna Parque que é
um sítio triste
pode não se ser triste
sai muito caro
mas poder pode-se
 
 
COM O FOGO
 
Com o fogo não se brinca
porque o fogo queima
com o fogo que arde sem se ver
ainda se deve brincar menos
do que com o fogo com fumo
porque o fogo que arde sem se ver
é um fogo que queima
muito
e como queima muito
custa mais
a apagar
do que o fogo com fumo
 
 
A SALADA COM MOLHO COR-DE-ROSA
 
 
1
Conheci a Magda na praia
na praia é uma metáfora obscena
que como as outras metáforas obscenas
pode ser usada quer como eufemismo
quer como insulto
conheço por experiência própria
os dois usos da expressão
na praia
 
2
Eu gosto de me fazer passar
por uma rapariga ordinária
a Magda era mesmo ordinária
a princípio era isto o que mais
me atraía nela depois foi isto
o que sobretudo me desgostou dela
 
3
As minhas relações com a Magda
de deliciosas passaram a promíscuas
aconteceu-me
o que me tinha acontecido
quando comi salada com molho cor-de-rosa
ao princípio
a salada era deliciosa por causa do molho
depois comecei a perceber
que era mil vezes melhor
estar a comer os vegetais
sem molho do que com molho
o molho impedia-me de comer os vegetais
com gosto
desgostava-me da vida
 
4
Vivia com a Magda
num quarto de duas camas
quando eu chegava ao quarto
a Magda estava deitada na minha cama
numa posição de Maja desnuda
mas vestida
o que ainda era pior
outras vezes encontrava-a
sentada na minha cadeira
a folhear os meus livros
e a chupar os dedos
 
5
A Magda era uma intrusa
depois de ter sido um ser envoûtant
quer como intrusa
quer como ser envoûtant
ela era para mim
uma fonte de perturbação
 
6
Eu não era casta
não porque me entregasse
com a Magda
(que era aliás uma praticante profissional do safismo)
a um prazer que alguns dizem vicioso
(só lhe toquei uma vez
sem querer
e pedi-lhe automaticamente desculpa)
mas porque com a Magda
não tinha prazer nenhum
 
7
(Acho que o prazer é casto
o que não é casto
é o simulacro do prazer
ou a renúncia ao prazer
tanto o simulacro
como a renúncia)
 
8
Um dia voltei ao quarto
e a Magda tinha desaparecido
sem deixar marcas
custou-me não encontrar
o chiqueiro próprio da Magda
os meus cigarros fumados
o meu cinzeiro cheio de beatas
sujas de bâton
(que me faziam lembrar
dentes cuspidos após uma briga)
o Las Moradas
antes do Calculus I
na minha estante
quando eu me habituei
a pôr esses livros por ordem inversa
 
9
O que me custou
foi tudo ter acabado
como tinha começado
como se nada se tivesse passado
durante
ora o que se passou durante
ainda hoje me incomoda
e portanto deve ter acontecido
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