A MONTANHA & O LEITOR

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através da beleza mágica, beleza imponente, da montanha (de perfil perfeito), o pintor quis entender o vulcão que ele trazia no peito. quis o pintor, feliz, fascinado, mesmerizado, tentando escrever a montanha & o mistério da sua lindeza (trinta e seis vezes e mais outras cem tentativas), compreender a força da lava que corria dentro de si. 
 
porém, as tentativas lhe foram inúteis, pois a montanha não quis revelar sua magia. e não o quis porque é da natureza da montanha a quietude, a imobilidade, o silêncio absoluto.
 
a montanha só sabe ser: sendo.
 
a montanha doa-se, a cada dia, do ar de cada dia, e abandona, como sem valia, toda e qualquer noite que atravesse. a montanha sabe acontecer, a montanha sabe simplesmente ser (atrás de cada fresta, atrás de cada lasca de rocha que a compõe), assim como o ato da visão: ato realizado pela percepção sensorial das radiações luminosas, ato que sabe realizar-se sem consentimento ou aval, ato que sabe produzir-se do: nada.
 
a montanha inerte, mágica na beleza & na grandeza, a nada atende. a montanha é indiferente, é distante, é alheia, a qualquer tipo de apelo. portanto, como entendê-la? como sabê-la?
 
indo mais além: há, em sua estrutura, algo a ser entendido ou sabido?
 
e o leitor, esta outra incógnita: quem pode conhecer o rosto daquele que mergulha, de si mesmo, em outras vidas?
 
(a própria mãe não reconheceria o filho-leitor, que, entregue às leituras, se torna diversovariadosortido, tantos os mundos lançados ao seu mundo.)
 
como saber o que significa o impacto das linhas na vida do leitor? como quantificar o choque, a perplexidade, o assombro, que lhe resta?
 
como auferir o que contém o olhar do leitor quando soerguido da leitura?
 
(o olhar aguçado de um leitor contravém, isto é, desobedece, desaceita, qualquer tipo de mundo que se anuncie já completo e acabado — como crianças que brincam sozinhas e descobrem, súbito, algo a esmo —. afinal, como aceitar um mundo já completo e acabado se as coisas que compõem o mundo estão em constante transformação? como obedecer um mundo completo e acabado se o meio ambiente vive constantes renovações, se nós & o entorno somos organismos eternamente inconclusos, organismos eternamente inacabados? e o leitor, espantado, maravilhado, feito criança que súbito descobre novidade, o leitor nunca é o mesmo, pois as linhas dum livro, tudo o que elas lhe dizem, refazem as linhas do seu rosto. com o recebido das linhas dum livro, há o amadurecimento do olhar do leitor, há a modificação dos seus traços.) 
 
(a montanha & o leitor: estruturas em permanente metamorfose, estruturas que nunca mais serão as mesmas.)
 
beijo grande em todos!
paulo sabino / paulinho. 
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(do livro: Coisas e anjos de Rilke. autor: Rainer Maria Rilke. tradução: Augusto de Campos. editora: Perspectiva.)
 
 
A MONTANHA
 
Trinta e seis vezes e mais outras cem
o pintor escreveu essa montanha,
devotado, sem êxito, à façanha
(trinta e seis vezes e mais outras cem)
 
de entender o vulcão que ele trazia,
feliz, mesmerizado, no seu peito,
mas a montanha de perfil perfeito
não lhe quis revelar sua magia:
 
doando-se do ar de cada dia,
mil vezes, cada noite cintilante
abandonando, como sem valia;
cada imagem imersa num instante,
em cada forma a forma transformada,
indiferente, distante, modesta —,
sabendo, como uma visão, do nada,
acontecer atrás de cada fresta. 
 
 
O LEITOR
 
Quem pode conhecer esse que o rosto
mergulha de si mesmo em outras vidas,
que só o folhear das páginas corridas
alguma vez atalha a contragosto?
 
A própria mãe já não veria o seu
filho nesse diverso ele que agora,
servo da sombra, lê. Presos à hora,
como sabermos quanto se perdeu
 
antes que ele soerga o olhar pesado
de tudo o que no livro se contém,
com olhos, que, doando, contravêm
o mundo já completo e acabado:
como crianças que brincam sozinhas
e súbito descobrem algo a esmo;
mas o rosto, refeito em suas linhas,
nunca mais será o mesmo.
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