POESIA: O DELÍRIO DO VERBO

poesia é  voar “fora da asa”, é voar absurdamente, é voar um vôo de delírio.

as coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis. elas, as coisas, desejam ser olhadas de azul — desejam ser olhadas diferentemente, por ângulos inopinados, por lentes inventivas, por vistas delirantes.

poesia é voar fora da asa, dando asas à imaginação alucinada.

há de se buscar a alucinação no começo do verbo: lá quando criança, quando na infância, fase apta a inventividades.

no descomeço, isto é, no “não-começo”, ou seja, antes do começo — numa alusão à criação do mundo —, era o verbo (a palavra do criador). nada mais existia, a não ser o verbo dando voz às façanhas mundanas.

só depois de tudo aprontado, tudo aqui disposto, só depois de nomeadas as façanhas mundanas, veio o delírio do verbo.

e o delírio do verbo estava lá no começo de tudo (logo depois do descomeço, logo após a nomeação das coisas), quando começamos a nos dar conta do entorno que nos cerca, deste mundo ao qual pertencemos:

quando crianças, quando na infância, fase apta a inventividades.

por exemplo:

a criança pode dizer: eu escuto a cor dos passarinhos. 

a criança não sabe que o verbo escutar não funciona para cor, mas para o som.

o verbo tem a sua função alterada, e a partir da alteração, delira.

em poesia, o verbo tem que pegar delírio. se não, não acontece.

(o grande serviço que o desconhecimento, que o não-saber, pode prestar: um estado de início, primordial, um estado de infância, de desconhecimentos que acendem luzes.)

as coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis, medianas.

tipo:

uma criança observa o rio que fazia uma volta por detrás da sua casa. a imagem que tinha era a de um vidro mole que fazia uma volta atrás da sua casa, era a de uma cobra de vidro que fazia sua curva & que seguia seu rumo, macio corpo vítreo-sinuoso.

um dia, um homem disse à criança que a volta que o rio fazia por detrás da sua casa se chama “enseada”. à criança, ficou o fato de que, então, o rio, não mais a imagem duma cobra de vidro mole a serpear pelo quintal da sua casa. aquilo passou a ser uma “enseada”.

e o nome, “enseada”, certamente empobreceu a imagem delirante, a imagem em condições infantis…

(com esta pobreza, a poesia não pode interagir.)

em poesia, há de haver o delírio do nome, a alucinação do verbo, sempre!

lembrem-se: as coisas devem ser vistas não por olhares razoáveis, e sim por olhares excêntricos, por olhares alucinados, em delírio.

vamos comer poesia, pelo bem da alma!

beijo bom em vocês!
paulo sabino.  
___________________________________________________________________________

(do livro: O livro das ignorãças. autor: Manoel de Barros. editora: Record.)

VII

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele
delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer
nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio.

XIII

As coisas não querem mais ser vistas por pessoas
razoáveis:
Elas desejam ser olhadas de azul —
Que nem uma criança que você olha de ave.

XIV

Poesia é voar fora da asa.

XIX

O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a
imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás
de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta que o
rio faz por trás de sua casa se chama enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que
fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.

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4 Respostas

  1. Há algum tempo não lia o Manoel! Boa escolha para o Blog, Paulo. O autor que afirma “não ter habilidade pra clarezas”, inverte (ou só capta a inversão (i) real?) entre universo humano e universo dos objetos, das coisas. Utiliza do recurso do exagero de adjetivos sem ser, contudo, exemplo de literatura comum e histriônica. Quando leio algo e penso: eu deveria ter escrito isso, tamanha a empatia com um texto, fico extasiada. A frase, a seguir suscitou em mim justamente esse sentimento estético tão raro.
    “(…) as coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis. elas, as coisas, desejam ser olhadas de azul — desejam ser olhadas diferentemente, por ângulos inopinados, por lentes inventivas, por vistas delirantes”
    Quem somos nós, o que são as coisas! Quem se põe a serviço de quem no mundo dos homens-objeto e das coisas humanas? Sejamos irrazoáveis, então… Tornemo-nos sujeitos das coisas e, talvez, possamos simplesmente nos identificar como humanos.

  2. valéria,

    que lindas as suas palavras!

    que maravilha contar com você por aqui!

    como já lhe disse algumas boas vezes, e não canso de repetir, porque me é motivo de muita alegria: ter uma profissional do magistério, que considero das mais lindas profissões existentes, acompanhando o “prosa em poema” é uma grande honra!

    bom deMAIS!

    beijo GRANDE!

  3. Não sei por quel endo esse poema do Manoel de Barros lembrei de “Cajuína” do Caetano Veloso.

    • delícia!! 🙂

      que bom vê-la aqui!!

      venha SEMPRE, viu?

      beijim!!

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