PALAVRAS PLENAS

prezados,

há algum tempo, venho pensando numa publicação de poesias do poeta desta seleção.

de repente, percebi que, apesar de sempre referir-me a ele e de mostrar a sua importância na minha vida, os seus poemas não pousavam nesta página há algum tempo.

portanto, para, aos poucos, encerrar o ano de 2010 do “prosa em poema” em grande estilo, a hora de publicar as linhas que seguem não poderia ser melhor.

e não poderia ser melhor mesmo: pois somente neste momento, DOIS poemas novos, recém-lançados, não incluídos em nenhum dos livros do autor ou em suplementos & revistas literários, poderiam ser publicados aqui.

poemas que foram cedidos a publicação num dos volumes da coleção “ciranda da poesia”, sobre a qual trato aqui:

https://prosaempoema.wordpress.com/2010/12/22/aviso-aos-navegantes-colecao-ciranda-da-poesia/
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o tempo é como um rio.

o tempo parece feito de matéria líquida: escorre por entre as mãos, e braços, pernas, rosto.

não se consegue ter governo do tempo, não se pode ter o tempo sob domínio, não há maneira de tê-lo nas mãos. o tempo não é retido. nós quem somos. por ele (rs).

o que resta, então?

resta afogarmo-nos com o amado — seja este uma pessoa, uma obra de arte, uma sua realização — na volúpia líquida do segundo.

procurar aplicar, neste universo vão, as palavras e as coisas plenas, procurar aplicá-las (as palavras plenas) no poema, procurar aplicá-las (as coisas plenas) na vida.

procurar vazar os olhos dos arúspices (sacerdotes da roma antiga que prediziam o futuro pelo exame das entranhas das vítimas sacrificadas), tornando rasos — rasteiros — seus templos devolutos, templos desocupados, vazios, e designando, assim, as palavras & coisas plenas. enxergar com os próprios olhos, entre lucidez & delírios, plenamente.

só com elas, isto é, apenas com elas, como também: sozinho com elas, solitário com elas, com as palavras & coisas plenas, é que se consegue, sempre recôndito & radiante, ditar, dizer & decorar (decorar porque se “grava”, decorar porque “marca”, decorar porque se “enfeita”), falar (e quando falar, falar com o “falo”, falar com gosto de sêmen, falar com gosto de prazer) o caos arreganhado — este mundo aberto às nossas vistas — a receber-nos, incontinentes.

das palavras plenas, a sabedoria de que a natureza de algumas é o ar, a sabedoria de que algumas palavras nasceram apenas para voar: são aladas.

palavras que, por serem aladas, se lembradas depois de soltas, seriam traídas. traídas porque seria injusto com elas, visto a sua natureza, aérea, natureza que não lhes permite pouso, natureza que lhes garante o trajeto da errância. esqueçamo-las & deixemo-las em seu mundo:

como quando palavras-promessas, ditas ao pé do ouvido por amantes entrelaçados na cama, palavras-promessas que, no fundo, não desejam a sua realização, a sua concretude, desejam apenas o sonho, desejam apenas o direito de existirem como palavras-promessas, aladas.

palavras claramente nascidas para o vôo, palavras nitidamente áleas, transparentes na sua existência.

transparentes como as transparências encontradas na praia, em verão no qual as ondas rolam redondas & lisas, e os olhos, ante tanta claridade, e os olhos, gulosos, engolem aos goles fartos as luzes azul & verde que se lhes apresentam, causando grande inveja à língua, aos lábios e à goela, inveja porque não é a língua, nem os lábios, nem a goela, que devoram tais transparências, mas o olhar.

ainda assim, ainda que imersos em zonas de claridade & luz, somos, em algumas ocasiões, arrastados a paisagens mais áridas: areias sem águas, ou zonas infestadas de feras, ou pântanos sombrios, ou friagens cíticas, ou mares coagulados.

algumas vezes, arrastados a terra monstruosa & trágica, onde nada é certo, onde nada é claro, onde nada é transparente, qual a paisagem avistada na praia, em pleno verão.

portanto, entre as vivências de transluzentes & de opacas paisagens, que saibamos gozar a existência, que possamos aproveitá-la.

que os deuses, ao menos, façam felizes & maduros os que comigo caminham, e um ou dois dos meus futuros versos.

que os deuses façam sempre plenas as minhas palavras.

que os deuses continuem a fazer plenas as palavras do meu QUERIDO & GRANDE, do meu “poetósofo” de marca maior, antonio cicero.

que os deuses nos façam, a mim, ao cicero, herdeiros das superfícies e das profundezas existenciais.

(isto aqui é para você, cicero. por tudo.)

beijo grande nos senhores!
um outro, especial, em você, bonitão!
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Guardar. autor: Antonio Cicero. editora: Record.)

 

SEGUNDO A TRADIÇÃO

O grande bem não nos é nunca dado
e foste já furtado do segundo:
O resto é afogar-te com o amado
na líquida volúpia de um segundo.

 

TRANSPARÊNCIAS   a Roberto Correia Lima

Venho da praia de um verão em que as ondas rolam
redondas e lisas sobre o mar sem formar espuma
e olhos gulosos engolem glaucas e mornas transparências
goles de luz azul e verde
fazendo inveja à língua aos lábios e à goela

Por que me arrastas por areias sem águas
ou zonas infestadas de feras
ou paludes sombrios
ou friagens cíticas
ou mares coagulados

Por que me queres nessa terra monstruosa e trágica
onde erram poetas e mitógrafos
e nada é certo nada claro

 

FALAR E DIZER   a Waly Salomão

Não é possível que portentos não tenham ocorrido
Ou visões ominosas e graves profecias
Quando nasci.
Então nasce o chamado
Herdeiro das superfícies e das profundezas então
Desponta o sol
E não estremunha aterrado o mundo?
Assim à idade da razão
Vazei os olhos cegos dos arúspices e,
Fazendo rasos seus templos devolutos,
Desde então eu designo no universo vão
As coisas e as palavras plenas.

Com elas
Recôndito e radiante ao sopro dos tempos
Falo e digo
Dito e decoro
O caos arreganhado a receber-me incontinente.

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(do livro: Ciranda da poesia — Antonio Cicero. autor: Alberto Pucheu. organização: Italo Moriconi. editora: EdUERJ.)


PALAVRAS ALADAS

Os juramentos que nos juramos
entrelaçados naquela cama
seriam traídos, se lembrados
hoje. Eram palavras aladas
e faladas não para ficar
mas, encantadas, voar. Faziam
parte das carícias que por lá
sopramos: brisas afrodisíacas
ao pé do ouvido, jamais contratos.
Esqueçamo-las, pois, dentre os atos
da língua, houve outros mais convincentes
e ardentes sobre os lençóis. Que esses,
nas futuras noites, em vislumbres
de lembrança ainda nos deslumbrem.

 

BALANÇO

A infância não foi uma manhã de sol:
demorou vários séculos; e era pífia,
em geral, a companhia. Foi melhor,
em parte, a adolescência, pela delícia
do pressentimento da felicidade
na malícia, na molícia, na poesia,
no orgasmo; e pelos livros e amizades.
Um dia, apaixonado, encarei a minha
morte: e eis que ela não sustentou o olhar
e se esvaiu. Desde então é a morte alheia
que me abate. Tarde aprendi a gozar
a juventude, e já me ronda a suspeita
de que jamais serei plenamente adulto:
antes de sê-lo, serei velho. Que ao menos
os deuses façam felizes e maduros
Marcelo e um ou dois dos meus futuros versos.

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9 Respostas

  1. Gosto do seu blogue, que sigo fiel e diarioamente e gosto muito dos poemas de António Cícero(cujo vlogue também sigo diariamente(). Bom Natal a ambos! E venha o seu blogue!

    • amelia,

      saiba que é sempre um PRAZER tê-la neste espaço!

      ÓTIMAS festas!

      beijo GRANDE!

  2. Paulinho,

    é sempre um grande prazer e um grande luxo me encontrar no seu blog.

    Beijo,
    Antonio Cicero

    • meu amor,

      é sempre um alento contar com o auxílio luxuoso das suas palavras, aos meus olhos, sempre plenas, cheias de luz.

      beijo ENORME!

  3. Paulinho,

    Imensos prazer e alegria, tê-los plenos – mais que estrelas!

    Aproveito e desejo-lhe FELIZ NATAL!!! PAZ E LUZ!!!

    Adriano Nunes.

    • meu poeta LINDO das alagoas,

      é um luxo também contar com o auxílio do seu talento e da nossa amizade.

      que BOM!

      uma CALOROSA & BONITA noite de natal!

      amor & respeito fundos!

      GRANDE beijo!

  4. entre,O novo blog de contos ,fabulas historias…seg. 27.12.10 estreia o novo conto 7 dias da semana
    palavrasdosdeuses.@blogspot.com

  5. Olá, Paulo. Alguns filósofos afirmam que o cotidiano mais que um contínuo repetir-se (o que, de certa forma, ele também é) pode surpreender desde que saibamos, à moda de Drumond, limpar os cantos tristes e repisar as estradas pedregosas com outras perspectivas. Existem maneiras de facilitar essa tarefa… Seu blogue, os “livros nos quais viajo”, as brincadeiras com meu filho e sua lógica especial da infância, são espécie de “ferramentas” de (re)começo. Eu que, apenas suporto o Natal e as festas cristãs e não acredito em ano novo, descobri, por exemplo, lendo seus posts a “amar um presépio” e também me emocionei com o seu “poetósofo” (agora ele é meu também), sobretudo o poema dedicado a W. Salomão… Aqueles versos são muito, muito bons!
    Um grande beijo e muita inquietude para abalar a mesmice cotidiana e incitá-lo a publicar mais e mais textos inspiradores!

    Valéria.
    Valéria

  6. valéria,

    que lindas as suas palavras!

    fiquei felicíssimo ao lê-las!

    MUITO BOM contar com suas inteligência & sensibilidade!

    beijo ENORME!

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