O MENOS VENDIDO

senhores,

esta é uma oração pela ação:

que eu nunca fique parado, perguntando que horas são.

seja sempre a hora certa, seja sempre a hora propícia, de levantar & descer o braço, de estender a perna & dar um passo.

(um passo adiante, e você não está mais no mesmo lugar.)

quando tocar a música, que eu dance. que eu saiba dançar conforme a música, e dançar bem, e que eu saiba, se necessário, propor a contradança.

e, em caso de queda,

senhor de toda ação,

que eu me levante, para, de novo, cair.

esta aqui, senhores,

a oração da hora: que eu possa, sempre, enxergar o agora, o já, o presente, que se desembrulha aos olhos, com clareza.

esteja eu eterna-mente por dentro, nunca por fora. que me adore, sempre, o mais moderno dos modernos — afinal, a modernidade, o conceito “modernidade”, casa com o conceito de “atualidade”, com o conceito de tempo presente, tempo onde eu, sempre, desejo quedar & viver, viver & quedar.

e se o senhor, senhor da hora, a quem dedico esta oração, sair um instante, se o senhor, que é o senhor da hora, portanto: o senhor do tempo, se o senhor sair um momento, então valei-me, nossa sem-hora, isto é, valei-me tempo sem hora, valei-me o tempo nulo, o tempo que não é tempo: valei-me o silêncio dos ponteiros, definitivo.

assim sendo: valei-me todo & qualquer tempo, tempo constituído de tombos & de prumos, e também valei-me a nossa sem-hora, valei-me a hora sem hora.

deste modo, pensativo,

colher um tanto de mim,

recolhido, quieto, ensimesmado: amostra de alma examinada no laboratório do poema (poesia é corte, poesia é re-corte, é re-colhimento, isto é: poesia é re-colher, é colher novamente, é colher de novo, ou seja, é colher novo. poesia é colher seres novos dentro do ser, poesia é colher pedaços dos seres que vão se moldando no cerne do ser; portanto: amostra de alma), laboratório árduo, de muita labuta.

custa muito pra se fazer um poeta.

palavra por palavra, fonema por fonema, sílaba por sílaba.

para se fazer um poeta, muito tempo gasto, muito custo; muito tempo gasto, muito custo, a fim de que benefício?

um poeta faz-se com muito custo, sem saber o lucro.

o lucro em todos os sentidos: o lucro, o vil-metal (afinal, quem paga as contas, vai ao supermercado, compra sapato às crianças?); o lucro, o ganho com o próprio poema, o ganho com o que dizem os versos, o ganho com a poesia em si (afinal, que vantagem tem o poeta em fazer poemas?).

custa muito pra se fazer um poeta.

laboratório árduo, de muita labuta.

ofício áspero, pedregoso, na utilização das palavras.

poesia desloca o discurso; deslocando-o, reposiciona-o, dando-lhe sentidos vários.

poesia: dos gêneros existentes, é o menos lido.

por ser o menos lido, um livro de poesia: o menos vendido.

um livro de poesia, por ser o menos vendido, não compromete o poeta a obrigações mercadológicas; como poesia é o gênero menos lido, ninguém faz poesia ambicionando fortuna, ninguém faz poesia objetivando faturar muito dinheiro.

poeta: dos escritores, o menos vendido.

poeta: o menos vendido ao mercado, o menos vendido às leis mercadológicas, de marketing, às leis do comércio.

um poeta se faz com sacrifício.

(um poeta é uma afronta, é uma injúria, um insulto, à relação custo-benefício.)

é preciso recolhimento, quietude, para colher a flor do poema.

é preciso um pouco de solidão, de algumas horas de silêncio, para escrever o poema.

assim como é preciso um tanto de solidão & silêncio para ler o poema.

o ofício (de ler & escrever) exige concentração.

é uma meditação às avessas — concentrar-se com a cabeça cheia de imagens & alaridos, porém, recolhido em silêncio —.

arte poética: arte-matéria feita de vida, que é feita de prótons, elétrons & nêutrons.

arte poética: todos os gêneros & ao mesmo tempo: nenhum.

arte poética: há várias escolas, mas nenhuma ensina.

(atenção: as rimas ricas, as rimas aprendidas na academia, nos salões nobres de cursos, estão cada vez mais ricas, mais pomposas, mais cheias de si, enquanto as rimas pobres, coitadas, cada vez mais pobres, cada vez mais afastadas de suas irmãs abastadas, criadas & cultivadas em palácios de luxo.)

arte poética: por mais que se contem as sílabas dos versos, isto é, por mais que os versos estejam presos a formas fixas poéticas (o soneto, o rondó), todo verso é livre, todo verso quer alçar vôo, todo verso quer alucinar, todo verso quer fazer jus à sua natureza, isento de restrições, livre de amarras.

(que assim seja.)

beijo todos!
paulo sabino.
______________________________________________________________________

(do livro: O menos vendido. autor: Ricardo Silvestrin. editora: Nankin Editorial.) 

 

ORAÇÕES INSUBORDINADAS

 

1

Senhor, esta é uma oração
pela ação
que eu nunca fique parado
perguntando que horas são
seja sempre a hora certa
de levantar e descer o braço
estender a perna
e dar um passo
cruzar e correr pro abraço
quando tocar a música,
que eu dance
quando se deslocarem,
que eu lance,
Senhor de toda ação,
humildemente te louvo,
se eu cair que levante
pra cair de novo

 

2

Senhor, esta é a oração
da hora
que eu possa sempre
enxergar com clareza
o agora
esteja eternamente
por dentro
nunca por fora
que o mais moderno
dos modernos
diga sempre
que me adora
e se o Senhor
sair um instante
valei-me, Nossa Senhora

 

Colher um pouco de si mesmo,
em silêncio,
recolhido,
amostra de alma,
examinada
no laboratório
do poema.

 

O MENOS VENDIDO

Custa muito
pra se fazer um poeta.
Palavra por palavra,
fonema por fonema.
Às vezes passa um século
e nenhum fica pronto.
Enquanto isso,
quem paga as contas,
vai ao supermercado,
compra sapato pras crianças?
Ler seu poema não custa nada.
Um poeta se faz com sacrifício.
É uma afronta à relação custo-benefício.

 

É preciso
um pouco de solidão,
algumas horas de silêncio,
para escrever o poema.
Os que contam/ cantam sílabas
tamborilam os dedos,
balbuciam versos matemáticos,
olhando para o nada.
É preciso um pouco de solidão e silêncio
para ler o poema.

 

ARTE POÉTICA

A poesia se divide
em prótons, elétrons e nêutrons.
Ou não se divide com ninguém.
A poesia é do gênero feminino,
mas também masculino e neutro.
Há várias escolas,
em nenhuma se ensina.
Como na escola de samba,
só dança quem nasce sabendo.
As rimas ricas estão cada vez mais ricas
e as pobres cada vez mais pobres.
Só os poetas continuam na mesma.
Por mais que se contem sílabas,
todo verso é livre.

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