EM ALGUMA PARTE ALGUMA: PENSANDO O UNIVERSO

uma pedra existe “em si”, e não: “para si”, como nós.

ora, uma pedra é uma pedra: matéria densa, sem qualquer luz. não pensa.

ela é somente sua materialidade de coisa: não ousa, isto é, não se arrisca, não se atreve, não se expõe, isto é, não determina, não delibera, não realiza.

uma pedra é desprovida de razão.

o homem, diferentemente, existe “para si”. pois que o homem está, a todo momento, pensando-se, pensando sobre o mundo à sua volta, e pensando suas atitudes no mundo à sua volta.

o homem é agente. ele age, delibera, a todo instante.

para existir no mundo, o homem precisa interpretá-lo, na tentativa de compreendê-lo & absorvê-lo “para si”.

(o homem vive “para si”.)

o homem é uma aflição que repousa num corpo que ele, de certo modo, nega.

posto que esse corpo — esse corpo morre & se apaga.

no entanto, o homem tenta livrar-se do fim, tenta livrar-se do ponto final, tenta livrar-se da nossa sem-hora; tenta, o homem, livrar-se da morte, da porta onde se entra para nunca mais sair.

o homem tenta livrar-se da morte e se inventa: inventa-se perpétuo, dá continuidade a si no tempo sem ponteiros; transforma-se em eterno, em imorredouro. crê numa vida após o seu fim.

uma pedra, matéria densa sem qualquer luz, é uma pedra, não pensa.

assim como o universo.

todo o universo é treva. todo o universo é inalcançável vastidão escura, vastidão vazia, é espaço & breu.

como pode desejar o homem saber tanto do universo?

ouço dizer que a galáxia demora 250 milhões de anos para fazer um giro completo em torno do seu eixo.

também ouço dizer: o homem existe há pouco mais de 100 mil anos.

agora pensem: a galáxia demora 250 milhões de anos para fazer um giro completo em torno do seu eixo, e a humanidade existe há pouco mais de 100 mil.

ínfimo que somos, existindo há tão pouco tempo, é como se o giro da galáxia jamais se completasse, é como se ela não girasse(!). e ela, a galáxia, gira(!). pergunto-me novamente: como pode o homem desejar saber tanto sobre o universo?

temos que dar o braço a torcer: o mundo é uma GRANDE incógnita.

melhor: o mundo, não. o mundo é, no fundo, sem fundo. o mundo é, no fundo, um exterior de coisas.

a única incógnita é haver quem pense na incógnita (rs).

o cosmo é um vastíssimo silêncio de bilhões & bilhões de séculos.

nenhum ruído.

as estrelas são imensas explosões mudas. um desatino! a matéria estelar é silêncio & energia.

o som é da Terra.

só aqui, neste planeta, pode-se escutar o límpido gorjeio de um passarinho, pequenino cantor em meio a praças & ruas.

no cosmo, nenhum ruído. vastíssimo silêncio.

então, quando já não for possível encontrar-me em nenhum ponto da cidade, ou do planeta, quando a nossa sem-hora, quando o tempo sem ponteiros, já tiver me valido, ao ver uma nesga de céu sobre o corpo azul do mar (de copacabana ou ipanema), pense que estou sorrindo naquela nesga azul celeste, pouco antes de dissipar-me para sempre. não lhe custará nada imaginar, caro leitor.

e ponto final.

beijo todos!
paulo sabino.
__________________________________________________________________________

(do livro: Em alguma parte alguma. autor: Ferreira Gullar. editora: José Olympio.) 

 

UMA PEDRA É UMA PEDRA

uma pedra
(diz
o filósofo, existe
em si,
não para si
como nós)

uma pedra
é uma pedra
matéria densa
sem qualquer luz
não pensa

ela é somente sua
materialidade
de cousa:
não ousa

enquanto o homem é uma
aflição
que repousa
num corpo
que ele
de certo modo
nega
pois que esse corpo morre
e se apaga

e assim
o homem tenta
livrar-se do fim
que o atormenta

e se inventa

 

UNIVERSO

O que vi do universo
até hoje foi pouco
mas, se penso em quanto meço,
posso dizer que foi muito.

Sei, de ler, que o universo
é de tais dimensões
que a própria luz só o atravessa
depois de bilhões e bilhões

de anos, e que nele há
multidões de galáxias e sóis
que talvez já morreram, antes
de chegar sua luz até nós.

Deste modo, é correto dizer
que o céu que ora espio é passado
e que até pode ser que
o universo que vejo já se tenha acabado.

Mas, de fato, não vejo
a não ser nas revistas
de astronomia: o lampejo
espantoso de infinitas

constelações a brilhar
num abismo espectral e difuso
de gases e poeira estelar
que me deixa confuso.

E assim, assustado e mudo,
bem menor que um ínfimo
grão de poeira, contudo,
sou capaz de apreender, no meu íntimo,

essas incontáveis galáxias,
esses espaços sem fim,
essa treva e explosões de lava.
Como tudo isso cabe em mim?

O fato é que qualquer vasta nuvem
prenhe de sóis já mortos ou futuros
não possui consciência, esse obscuro
fenômeno surgido aqui na Via Láctea,

ou melhor, na Terra, e talvez
somente nela, não se sabe por que,
mas que permite ao cosmos perceber-se
a si mesmo, e ter olhos pra se ver.

Olhos que são os nossos,
lentes minúsculas mas sensíveis
que captam a luz das nebulosas
vinda de espaço e tempo inconcebíveis.

É o que dizem, pois tudo
o que vejo é, à noite, apenas o brilhar
de distantes luzes no escuro.
São estrelas? planetas do sistema solar?

Somos algo recente e raro
no universo, como rara
é também a própria luz
dos sóis deste sol que nos aclara.

Todo o universo é treva.
Inalcançável vastidão escura
dentro da qual os sóis, as explosões
de gás e luz são exceções.

O universo na sua vastidão vazia
é espaço e treva, é matéria fria
em que não há o mínimo sinal
de vida ou consciência; o que é mental

nele, ao que se sabe, está em nós,
no mínimo do mínimo do existente
e o que também na treva luze é nossa voz
inaudível no espantoso vão silente.

Vi pouco do universo: afora a asa
de luz e pó da via Láctea, o que conheço
são as manhãs que invadem minha casa

 

O TEMPO CÓSMICO

ente minúsculo
num braço da galáxia,
ouço dizer
que ela demora 250 milhões de anos
para fazer
um giro
completo
em torno de seu eixo

e penso:
o homem existe há pouco mais
de 100 mil anos
é como se o giro da galáxia
jamais se completasse

é como se ela não girasse

e o que diria esta mosca
— que na toalha da mesa
pousa agora —
cuja existência talvez dure
pouco mais que uma hora?

 

O SOM

o som é da Terra
não há nenhuma música das esferas
como pensou Aristóteles

música barulho
o trepidar cristalino
da água
sob as folhas
é coisa terrestre

o cosmo é um vastíssimo silêncio
de bilhões e bilhões de séculos

nenhum ruído
as estrelas são imensas explosões mudas
um desatino

a matéria estelar
(a explodir)
é silêncio
e energia

Para outros ouvidos talvez
poderia ser o universo
um insuportável barulho;
não para os nossos
terrenos

Viver na Terra é ouvir
entre outras vozes
o marulho
do mar salgado e azul
ouvir a ventania a rasgar-se nos galhos
antes do temporal

só aqui
neste planeta é que
se pode escutar teu límpido gorjeio,
passarinho,
pequenino cantor
da praça do Lido.

 

UM POUCO ANTES

Quando já não for possível encontrar-me
em nenhum ponto da cidade
ou do planeta
pensa
ao veres no horizonte
sobre o mar de Copacabana
uma nesga azul de céu
pensa que resta alguma coisa de mim
por aqui
Não te custará nada imaginar
que estou sorrindo ainda naquela nesga
azul celeste
pouco antes de dissipar-me para sempre

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