CARNAVAL

carnaval:
 
um lado, insólito, um lado, incomum, inusitado, original: no carnaval, pessoas se fantasiam das mais variadas coisas, e dão asas a algumas das suas fantasias, outro lado, químico: muitos aditivos compõem os olhares & cenários da festa: ácido, êxtase, lança, álcool.
 
carnaval:
 
um lado, lírico, um lado, poético, inspirador (lembrar que a ele, ao carnaval, o poeta manuel bandeira dedicou um livro seu), outro lado, histórico (festa popular amplamente estudada, com fatos & enredos documentados sobre sua história. exemplo: a grande volta da vizinha faladeira, escola de samba carioca muito antiga. o fato é que a história desta é feita de lenda, e que a lenda acabou como história — história deliciosa).
 
carnaval:
 
um lado, físico, um lado, material, lado-matéria, um lado-peso, corporal, de corpos & fantasias & adereços, outro lado, extático — de corpos & delícias sensoriais, de beijos, de sarros, de flertes, de corpos entregues à música, entregues ao samba, entregues à nota errada.
 
a nota errada: pois que errar nada mais é do que caminhar, pois que errar nada mais é do que seguir a ressoar.
 
e o sambnista de valor segue nascendo o seu samba: mais simples, mais alegre, mais bonito, nasce, então, um samba na madrugada, rompendo do infinito, como a noite.
 
e, logo, muita gente ali por perto percebe, em sua letra, o céu sempre enluarado, mesmo com o céu encoberto que se avista a olhos nus. toda a gente percebe que no céu da música a lua brilha muito, e além, muito além, do céu nublado que é avistado a olhos nus.
 
deste jeito, o que o samba faz brilhar não é a lua no céu da música. o que o samba faz brilhar  é a gente que o escuta, extática, fazendo a noite (sem lua) mais bonita. 
 
carnaval:
 
um lado, crítico, lado de avaliação, lado de apreciação, lado que pensa criticamente a festa, outro lado, mágico, lúdico, lírico, poético.
 
o carnaval é como um transe lógico, é como um transe coerente, transe sensato, arrazoado, pois que a tônica do carnaval é o “alegrar-se inúmeros” por quatro dias, é o benfazejo, ilimitado, por quatro dias. assim como indagou o compositor & cantor djavan num de seus versos, indago eu: ademais, quem não quer ser feliz?
 
o carnaval é como um transe lógico, e a quarta-feira, o seu reflexo trágico: a quarta-feira de “cinzas”, quarta-feira de “tudo acabado”. o que era doce, acabou-se. o fim da fantasia. o fim da festa.
 
súmula do carnaval:
 
transe lógico que torna, que transforma, braços & pernas (com seus ossos, com seus músculos) em pernas & braços sem dono & sem sentido, em desatino, braços & pernas ensandecidos. em cada gesto, o extravasar contido. isto é: todo gesto abunda, todo gesto transborda, todo gesto é excesso — e dançar e cantar e dançar.
 
mas pensem também na bela imagem criada a partir da contradição que “extravasar contido” abriga.
 
aproveitem a folia momesca!
 
beijo todos!
paulo sabino.
_____________________________________________________________________________________________________
 
(do livro: Aquém das retinas. autor: Mauricio Matos. editora: 7Letras.)
 
 
 
CARNAVAL
 
um lado insólito outro lado químico
um lado místico outro lado ácido
um lado atômico outro lado esfíngico
um lado físico outro lado extático
 
um lado lírico outro lado histórico
um lado crítico outro lado mágico
o carnaval é como um transe lógico
e a quarta-feira o seu reflexo trágico
 
tíbias cérebros crânios rádios e úmeros
braços pernas sem dono e sem sentido
por quatro dias no alegrar-se inúmeros
em cada gesto o extravasar contido
 
 
 
SANTO CRISTO, DÉCADA DE 1930    aos carnavais de Joãozinho Trinta
 
seguem-se estrofes-testemunho de mim mesmo
para contar em versos brancos e tercetos
a grande volta da Vizinha Faladeira.
 
eu terminava a faculdade, e o carnaval,
paixão de infância, conduzia-me à pesquisa
do que ninguém teria ao certo como fato,
 
e consultando um velho livro descobri
que relegada ao esquecimento estava escrita
a breve história de uma escola muito antiga:
 
a campeã do carnaval de trinta e sete,
em trinta e nove veio a ser eliminada
em conseqüência de um enredo alternativo.
 
dizia o livro que a escola, em represália,
faria então desfile ainda mais bonito
para por trás dos julgadores desfilar.
 
segui pesquisa, e nos jornais de outrora agora
li no silêncio que os malandros portuários
falaram tanto que a história então se fez.
 
entrevistando quem do tempo inda era vivo,
eu descobri que o livro fez da lenda história
e que era a história, como lenda, mais bonita.
 
era mais rica que as outras, pois contava
com os subsídios de fortunas sem registro:
contrabandistas, prostitutas, deputados,
 
que contrataram os cenógrafos Garrido
para fazer o carnaval de Santo Cristo
maior que os outros, mais bonito, mais pensado.
 
mas só depois de dar a volta júri afora
foi que a Vizinha, conduzida por malandros,
gravou na história um fato nunca repetido.
 
por não dizer que a lenda é mais que o fato em si,
encerro agora meu relato-fantasia
dos que fizeram mais bonito o carnaval.
 
termino aqui pois falha ou finda o versejar:
quem mais quiser saber procure-me e direi
o quanto sei, que ainda há muito por contar.
 
 
 
A NOTA ERRADA
 
A nota mais aguda, em tom menor,
de um samba, que atravessa a madrugada,
ressoa, qual se fosse a nota errada,
num êxtase de seu executor.
 
Mas logo há de voltar, recompassada,
nos dedos do sambista de valor,
a música difícil de compor,
a letra simplesmente complicada.
 
Depois da execução, estala os dedos,
perscruta a imensidão dos seus segredos
e segue a ressoar… a nota errada.
 
Mais simples, mais alegre, mais bonito,
rompendo, como a noite, do infinito,
um samba nasce então na madrugada…
 
E logo muita gente, ali por perto,
percebe um samba novo e bem versado,
que diz coisas de um céu enluarado,
enquanto o céu parece inda encoberto.
 
E a gente, ouvindo o samba dedilhado,
percebe em sua letra que, por certo,
a lua brilha sempre, num concerto,
além, mas muito além, do céu nublado.
 
E os olhos, que o sambista traz fechados,
procuram, nos seus próprios dedilhados,
a lua, além das nuvens, infinita…
 
Contudo, abrindo os olhos, vê que brilha
a gente, ouvindo as notas que dedilha…
E o samba faz a noite mais bonita…
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2 Respostas

  1. Descobri por acasao seu blog enquanto procurava uma letra do Leo Cavalcanti… Eu não sei quem é vc, nem de onde vc tirou essas belas palavras… Mas lendo me lembrei de uma noite dessas na pedra do sal… Seu poema fez meu coração bater de alegria… Obrigada!

  2. que maravilha, gabriela! bom saber que o poema a fez feliz!

    agora que você descobriu o “prosa em poema”, por favor, faça-me uma visita sempre que puder, sempre que quiser!

    eu sou um tanto do que aqui escrevo. e as palavras, estas vêm de um trabalho conjunto de coração (emoção) & razão (o raciocínio para com o desencadeamento das linhas). aposto sempre nesta dobradinha: coração & razão.

    só escrevo sobre o que me emociona, e utilizo o cérebro para transformar o que me emociona em palavras. basicamente é assim que acontece.

    um beijo!

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