O TUBO

mais uma vez,

o paisagista dos versos,

com suas texturas cromático-poéticas,

pinta, com a sua caneta-pincel, o cenário do seu poema épico que, assim como a “divina comédia”, do poeta italiano dante alighieri, é dividido em três partes: inferno, purgatório & paraíso.

porém, diferentemente do épico italiano, paraíso, purgatório & inferno estão circunscritos num mesmo espaço, como se entubados, como se estivessem dentro de um tubo.

paraíso, purgatório & inferno, todos numa mesma dimensão.

outra diferença é que a “divina comédia” inicia no inferno, passa pelo purgatório, e finda no paraíso, com final favorável às personagens.

o épico poema que aqui segue inicia no paraíso, que chega a assustar (rs), passa pelo purgatório, e acaba no inferno (rs). as paisagens & histórias debuxadas nos versos se referem à cidade do rio de janeiro.

no fim das contas, o poema desenha, ao leitor, paraíso & inferno, inferno & paraíso: tudo junto & misturado. sim sim, o inferno, onde terminam as linhas, é ainda mais sombrio & triste que o paraíso, porém, no paraíso, como se pode já perceber, respingam as tintas mais obscuras, as tintas utilizadas no inferno — a paisagem de ambas as partes é a mesma, assim como as personagens —.

o purgatório, que também pode ser chamado purificatório, acaba por ser o lugar de questionamentos, constatações & revelações, e muito bem localizado: o purgatório se passa nas paineiras, caminho em meio à floresta, com quedas d’água e mirantes com suas belas vistas da cidade. uma delícia o lugar — o caminho das paineiras, área do parque florestal da tijuca —.

no purgatório, uma das personagens expõe, segundo a própria, de forma sumaríssima (rs), muy sucinta (como os senhores perceberão), uma coisa dita pela outra personagem, qualquer coisa a ver com presença & metafísica. é justamente no purgatório que o paisagista dos versos, carlito azevedo, expõe toda a sua verve pictória de modo magistral: descrevendo paisagens, passagens de cena, para, mais à frente, redesenhá-las, imprimindo efeitos de continuidade & ao mesmo tempo efeitos de realce aos demais versos que engendram a trama, aos demais versos que formulam o drama. tudo isso com grandes humor & perspicácia.

as personagens & paisagens do inferno & do paraíso, debuxadas pelo pintor dos versos carlito azevedo, são as mesmas. inferno & paraíso, paraíso & inferno: na paisagem do rio de janeiro, estes dois lugares contrastantes caminham juntos.

(rio, 40 graus: cidade maravilha, purgatório da beleza & do caos. tudo no turbilhão. tudo no mesmo caldeirão. tudo no tubo.)

o poeta-pintor carlito azevedo colore uma trama poética cercada de nuances, colore um drama poético onde cabem: o humor, o gracejo, a ironia, como também o triste, o cinzento, o aborrecido, e o decrépito, o indigente, o degradante, e ainda o romance, o carinho, o cuidado, a atenção, mais o que é de cunho existencialista, o que é de cunho filosófico.

(tudo no mesmo caldeirão. tudo no turbilhão. tudo no tubo.)

deliciem-se com toda a descrição em queda lírico-vertiginosa, com os versos dispostos na forma de um tubo, de um tubo onde se encontram todas as paisagens — paraíso, purgatório, inferno —, na forma de um tubo que se formou de um buraco no meio das nuvens, e que trouxe o sol brilhando com os seus cem sóis, um tubo que desce e que, de baixo, no fundo do abismo, a cidade, o torvelinho, o renque de palmeiras, uma rua irreconhecível.

céu & terra, terra & céu: um tubo.

paraíso & inferno, inferno & paraíso: no tubo.

beijo todos!
paulo sabino.
___________________________________________________________________________

 

(do livro: Monodrama. autor: Carlito Azevedo. editora: 7Letras.)

 

O TUBO


PARTE 1
: PARAÍSO

 

Foi quando a luz
voltou e vimos
o rosto da jovem
que se picava junto
à mureta do Aterro,
a camiseta salpicada,
a seringa suja.
“Nenhum poema
é mais difícil
do que sua época”,
você disse
em meu ouvido
sem que eu soubesse
se era a ela que se
referia ou se ao livro
que passava das mãos
para o bolso
da jaqueta.
Distinguimos
lá longe
a Ilha Rasa,
calçamos
os tênis
e seguimos
sem atropelo
sentido enseada.

 

PARTE 2: PURGATÓRIO

(nas Paineiras)

eu disse: você
podia por favor
responder mais uma
vez àquela minha questão?
eu disse: vamos aproveitar
esse sol frio, belo,
que furou as nuvens,
essa boa caminhada
até o estacionamento,
e conversar mais um
pouco sobre aquilo?
eu entendi bem
o que você disse
mas depois acabei
me distraindo, me
distraí com alguma
coisa, não sei bem
o quê, talvez
a coragem daquelas
mulheres sob a
queda da água
tão fria que explodia
rochedo abaixo
ou o que gritavam
aquelas mulheres sob
a queda da água
tão fria que explodia
rochedo abaixo,
talvez os lagartos
que, assustados,
disparavam espavoridos
rochedo acima,
espessura a dentro.
eu disse: os lagartos
mudavam de cor.
o fato é que eu
queria que por
favor você me
repetisse aquilo
que me disse.
será que você poderia
repeti-lo? eu disse:
às vezes
eu sonho com
um grande acidente.
e eu às vezes sonho
com átomos se reunindo
para gerar aquilo
que podemos chamar de
o grande acidente,
the big one,
com que cada um
cedo ou tarde
vai ter que se
enfrentar e ver.
eu disse: e é sempre
como um país
se dando conta
de que entrou
em guerra, um dia
um país se dá conta
de que a guerra
de que todos falam é
a sua guerra, o
país é o seu
país, e o que chamam
de a guerra é a
sua vida. eu disse:
por exemplo,
abra os olhos e veja:
num zeptossegundo
não há mais lagartos
agora, nem rochedo
agora, ou queda
d’água tão fria
agora, ou mulheres
gritando agora
as coisas mais
singulares
e irrepresentáveis,
e tudo se passa
em uma espécie
de videostream ou
“uma lacuna na
vida ou na linguagem
por onde penetram
nossos antagonistas”.
eu disse: viu?
é exatamente assim
que ocorre
em meus sonhados
acidentes

.

eu que me lembro
que você falou
qualquer coisa que
tinha a ver com
presença e metafísica.
eu disse:
ah, ali está o carro
o 4×4 vermelho
bem debaixo
daquelas árvores,
debaixo daquela chuva
de pétalas amarelas,
roxas, desmanteladas.
outro dia qualquer
antes de sua volta
aprenderei o nome
de todas essas árvores
sobre as quais
você me pediu
informações que
eu não estava
tampouco
apto a fornecer,
está bem?
me ocorreu agora
lhe perguntar se você
seguiu em frente
com os escritos?
você gostava muito
dos escritos,
de escrever,
como dizíamos,
e você tinha umas
ideias verdadeiramente
luminosas sobre isso.
você não vai me
levar a mal e vai
me fazer esse favor,
de repetir o que
respondeu à minha
questão, não é?
vai significar
muito para mim, sabia?
bem, talvez
você não se lembre
afinal tudo era meio
interrompido
pelas risadas que a
gente dava e pelo
espanto que a gente
sentia ao ver que
nuvens enormes,
as mais gigantescas
da temporada e, de fato,
da cor de chumbo,
e nem que eu repetisse
isso mil vezes
daria uma ideia de como
eram da cor da cor do chumbo
aquelas nuvens
que cobriam completamente
a paisagem que a gente
tinha feito tanto esforço,
tinha caminhado tanto
tempo para ver,
para achar uma localização
mais alta possível
para ver e acabou
não dando certo
ou melhor,
tudo deu certo se
como você disse
o nosso plano secreto,
secreto até para
nós mesmos,
era procurar
o melhor mirante
das Paineiras para ver
as nuvens mais colossais
e cor do chumbo
e cor da cor do chumbo
da temporada cobrindo
o céu e a paisagem, não é?
o que não seria
de modo algum
desprezível
do ponto de vista
do místico que dizia
fumar para pôr
um pouco de névoa
entre ele e o mundo.
eu disse: eu preciso
lhe dizer o que gravei
como sendo o que
aproximadamente
você disse,
mas é claro que
não vai ser o
que realmente você
disse, é apenas
uma adaptação
e que por isso
mesmo só pode existir
embaciando a
informação original,
só se dará como pálida
sombra da coisa
em si brilhante e luminosa:
o seu objeto singular.
e se lhe repito essas
palavras não é para que
você pense que eu
por um instante sequer
imaginei que você
fosse capaz de dizer
uma coisa óbvia,
por favor, não lhe passe
algo do gênero
pela cabeça,
é apenas para que
você saiba do que
estou falando e me
recorde e explique,
devolvendo ao tópico
toda a complexidade
que
a contragosto
lhe subtraí

.

eu me lembro que você
mexeu um pouco esse
seu cabelo tão bonito
e eu me lembro
que ele fez um som
ou
nem era um som
e sim algo que deve
proceder do micromundo
das vibrações sonoras,
e eu fiquei arrepiado,
me arrepiei, a nuca
inteira, de imediato, e
depois você também
espantou uma abelha
acintosa que bordejava
a sua latinha e então
você disse qualquer
coisa assim:
“como não tenho
mais questão alguma
com a metafísica, eu
não fico esperando por
alguma presença para
experimentar o que
experimento, experimento
todos os dias.”
acho que se então
acabei me distraindo,
me destraí, foi
porque algum tempo
depois — você lembra?
tínhamos dado no
máximo uns vinte
passos sobre o morro —
se abriu um buraco
no meio das nuvens,
um tubo ou coisa assim,
que trouxe até nós,
de cima:
o sol, brilhando
com os seus cem sóis,
e de baixo:
o fundo do abismo,
a cidade,
o torvelinho,
o renque de palmeiras
de alguma rua
irreconhecível
ao menos para mim,
mas que eu gostaria
de ficar olhando por
um longo, indeterminado
tempo de uma tarde
de verão, e por um segundo
fez todo o sentido do mundo
o nosso absurdo ir e vir
por entre atletas,
gramíneas,
quedas d’água e
cães malabaristas,
foi mesmo como se
de repente se rompessem
as cordas podres da
percepção, mas só
porque junto com a
visão daquele sol
e daquele deslumbrante
mundo inferior
com trânsito pesado
e renque de palmeiras
vinha a melodia
pigarreada das
nossas vozes dizendo
o que diziam e como,
e os rumores de tudo ali:
os atletas, os lagartos,
as quedas d’água, os
cães malabaristas e
tudo o que então
poderia
num zeptossegundo
ter sua escala
de grandeza modificada
e sua existência posta
em dúvida num acidente
colossal

.

eu disse:
acho que você tinha
que pensar bem
naquilo dos escritos,
eu gostei dos seus
escritos desde sempre,
você sabia?
eu sinceramente não
sei como você conseguiu
chegar de modo tão rápido
e definitivo a algo
que para mim permanece
indefinível e
inesgotável
fonte de sobressaltos.
o que você escrevia
tinha a capacidade
de produzir de imediato
com tão poucas palavras
algo que estabelecia
uma completa relação
entre consciências
desencantadas
que me deixava
absolutamente encantado.

eu disse:
claro que vão deixar
você escrever por lá,
tem cabimento uma dúvida
dessas? ei
para que tipo de lugar
você pensa que está
sendo levada?

.

oxalá eu não tenha
também mais questões
com a metafísica e
a presença, como
você bem disse
e meu caso se resuma
ao fato de que
simplesmente sou
uma pessoa do silêncio,
de sua equipe,
ou melhor,
o silêncio é meu
equipamento.
eu disse:
o silêncio
é meu equipamento.
mas me diga (eu disse)
não era uma coisa assim,
que partia dessa base
que expus de forma
sumaríssima, mas
que em sua voz e
expressão sabia
logo desdobrar
um rol de consequências
inesperadas, desfolhar
um jorro de pertinências
agudas, corrosivas,
como as pétalas da
sick rose,
fazer um giro
desregrado
potente e incisivo,
até magnificar-se
em uma formulação
a um só tempo
límpida e biunívoca?

 

PARTE 3: INFERNO

povres fameletes
povres hospitaulx
povres gens

F.VILLON

 

Você a reconheceu
como sendo a menina
coreana da Central
de Fotocópias do Catete
aquela com
camiseta salpicada
presilhas fluo
mureta
e hipodérmica pendente
do braço
e me abraçou e
me olhou com um olhar
que me atravessava
e ia atingir
atrás de mim
bem lá na frente
no bazar futuro dos dias
no meio das bugigangas
espelhadas, espalhadas
um outro crepúsculo cinza
uma outra noite chuvosa
e sem luz
em que veríamos
o inferno refletido
nos olhos de um
vira-lata que cruzava
as pistas do aterro
varado pelos
feixes dos faróis
(relâmpagos de
nenhum céu)

dos 4×4
a toda velocidade.

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2 Respostas

  1. Paulinho,

    Adorei! Bravo!

    Adriano Nunes

    • meu poeta das alagoas,

      GANHEI o dia (rs)!

      que BOM saber!

      beijo GRANDE!

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