AMANTE DA ALGAZARRA, MASCARADO AVANÇO

 
(paulo sabino: um andarilho que avança, mascarado)
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ela desinfla “o mal-estar na civilização”, sobre o qual o médico & psicanalista sigmund freud já discorreu (freud, inclusive, possui um livro homônimo — “o mal-estar na civilização”).
 
ela desinfla todo & qualquer mal-estar.
 
ela prescinde, isto é, ela renuncia, ela despreza, a felicidade dos bem postos na vida, ela prescinde da felicidade dos que alcançam postos altos na vida, a felicidade dos “bem sucedidos”.
 
quanto mais o tédio vital, o tédio de vida, preside, tanto mais eu & ela nos fundimos, eu & ela amalgAmados, e extáticos, crentes da seita dos dervixes, religiosos mulçumanos, andarilhos, que fazem votos de pobreza, humildade & castidade.
 
(peregrino atônito até a morte!)
 
bem & mal & boca & mel & esta voz que deus me deu: nada é igual a ela & eu.
 
e, ela, que papel cumpre?
 
respondo: ela imprime animação descomunal na falange, isto é, ela imprime animação descomunal na legião, imprime animação descomunal na quantidade inumerável das minhas máscaras, das máscaras com as quais me disponho a ser por ela olhado, a ser por ela observado.
 
portanto,
 
não sou eu quem dou coices ferradurados no ar (coices com ferraduras, ferraduras demoradas no ar). é ela, é esta estranha criatura que fez, de mim, o seu encosto.
 
é ela!!!
 
todo mundo sabe: sou uma lisa flor de pessoa, sem espinhos ou asperezas.
 
é ela, é esta amante da balbúrdia (que cavalga encostada ao meu sóbrio ombro) quem dá coices ferradurados no ar.
 
ela: esta estranha criatura se apossou do estojo (caixa que reúne diversos objetos & apetrechos destinados a um uso determinado) da minha figura, desta figura que todos olham, que todos observam, e dela, da minha figura, expeliu o seu estofo, a sua fibra, expeliu aquilo que a forra, aquilo que a reveste (que reveste a estranha criatura).
 
quem corre aberta, desabrochada, sem ceder a concha do ouvido a ninguém que discorde dela, é ela, é esta selvagem sombra acavalada que faz versos como quem morde:
 
é ela, a musa maior, sempre afiada, feito fé cega — faca amolada.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: O mel do melhor. autor: Waly Salomão. editora: Rocco.) 
 
 
 
MASCARADO AVANÇO
 
Ela desinfla o mal-estar
na civilização.
Ela prescinde da felicidade
dos bem postos na vida.
Quanto mais na lida diária
o Tedium Vitae preside
tanto mais
eu e ela nos fundimos extáticos,
crentes da seita dos dervixes girantes.
Eu, com ansiosa solicitude,
agarro qualquer bóia
— destroço seja ou jóia —
e comando o lupanar do lumpesinato da ilusão.
E, ela, que papel cumpre?
Ela imprime descomunal animação
                                                                                    à falange
das minhas máscaras.
 
 
 
AMANTE DA ALGAZARRA
 
Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto.
É ela! ! !
Todo mundo sabe, sou uma lisa flor de pessoa,
Sem espinho de roseira nem áspera lixa de folha de figueira.
 
Esta amante da balbúrdia cavalga encostada ao meu sóbrio ombro
Vixe! ! !
Enquanto caminho a pé, pedestre — peregrino atônito até a morte.
Sem motivo nenhum de pranto ou angústia rouca ou desalento:
Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto
E se apossou do estojo de minha figura e dela expeliu o estofo.
 
Quem corre desabrida
Sem ceder a concha do ouvido
A ninguém que dela discorde
É esta
Selvagem sombra acavalada que faz versos como quem morde.
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4 Respostas

  1. …e quando Ela chega desalinha tudo, deixa tudo fora de lugar, feito ventania galopa por nossos dias feito besta a não mais parar.

    Paulo gosto de tuas leituras sobre tão bons poemas.

    Beijos e boa semana.

    Carmen.

    • Que maravilha, Carmen querida, poder compartilhar os poemas & os achados com pessoas como você, pessoas que são galopadas pela Musa.

      Salve!!

      Beijão!!

  2. Boa Paulo… é impressionante a relação carnal, no segundo poema, do poeta com o seu alterego. Abs,

    • Com Waly a poesia se trata de vísceras, de ser arrancada do fundo da carne.

      Acho bonito o que você escreveu, Edu. Acho bem apropriado.

      Abraço GRANDE!

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