MEMÓRIAS DE OUTRAS VIDAS

na hora da morte, dizem, passa tudo num filme.

contam também que um homem, que não guardava nomes, que um homem, que o aniversário da esposa quase esquecia, um homem, que trocava o ano do cheque, como quase não tinha memória, sem saída, à hora da sua morte inventou as memórias; sem saída, um homem — que quase não tinha memória — inventou as memórias de outras vidas.
 
as memórias de outras vidas:
 
da exímia matadora de galinhas;
do capanga-feitor entediado;
do cangaceiro que, fora do cangaço, é um fracasso;
do/da babalorixá que “recebe” um santo poeta;
do pescador que é fisgado tal & qual o que acaba por fisgar;
do boiadeiro mal agourado;
do ilhéu que vira semente;
do bobo da corte que ganha a realeza;
do poeta & os seus manuscritos;
do maquinista que vira aviador;
da vendedora de flores que engana a morte;
do soldado que, na guerra, sente falta do “sentido!” mais sem sentido que até então havia escutado.
 
deliciem-se com estas memórias de vidas dispostas na vida dos versos!
 
regalem-se com estas memórias-poemas!
 
beijo todos!
paulo sabino.
_________________________________________________________________________________________________________
 
(do livro: O menos vendido. autor: Ricardo Silvestrin. editora: Nankin Editorial.)
 
 
 
 
MEMÓRIAS DE OUTRAS VIDAS
 
 
 
1
 
Trançava as mãos
no pescoço da galinha 
até estalar.
Deixava o sangue escorrer,
limpava, esquartejava.
Perdera as contas
de quantas.
Era uma santa,
todos diziam.
Mas seu marido
morreu moço
com um laço na garganta.
 
 
 
2
 
Chibata no lombo
de nego do Congo.
Chibata na bunda
de nego quimbundo.
Sal grosso na afta
de nego da África.
 
Um dia, veio a abolição
e sem remédio pro seu tédio
matou os filhos, a mulher e o irmão.
 
 
 
3
 
No cangaço,
vivia dando cagaço,
arrebentando cabaço,
à força, no laço.
Era um macho de ferro,
de aço.
Olhava o impossível
e dizia faço.
 
Fora dali,
era um fracasso.
 
 
 
4
 
Galinha preta
na lua de prata.
Galinha crua
na encruzilhada.
Galinha cozida
na noite descida.
 
Trabalho pro bem
tem dente de alho.
Trabalho pro mal
cal, mel, sem barulho.
 
Pelo tom da receita,
o santo é poeta:
se o som é bom,
entra qualquer bagulho.
 
 
 
5
 
Puxava o peixe
e hesitava entre tirar o anzol
da boca triste
e o êxito de voltar antes do sol
com o troféu que era só seu.
Mas a boca do estômago
sempre falava mais alto.
 
À noite,
a mulher o fisgava
com uma língua de anzol.
E sua boca de peixe
dizia “não me deixe”.
 
 
 
6
 
Toca o boi
com a boca:
ê, boi!
Toda vida
pouca
tocando
até o juízo final
no matadouro.
Um dia
uma ave
de mau agouro
repetiu o refrão
com ele em coro:
ê, boi!
Morreu chifrado
por um touro.
 
 
 
7
 
Vento sul,
céu azul.
Vento norte,
chuva forte.
Vento leste
traz a peste.
 
Morava na ilha
desde que a enchente
levou sua mulher
e sua filha.
Sem gente atrás,
ao lado, à frente,
foi lá que um dia
virou semente.
 
 
 
8
 
Guizos.
Roupa xadrez.
Trocava comida
por meia dúzia
de risos.
No fim do mês,
pagava
o que fosse preciso.
E bebia o resto.
 
Até que o rei,
num lindo gesto,
criou o novo Reino
da Alegria.
E o bobo
entrou pra história
como o primeiro
rei que ria.
 
 
 
9
 
Contava sílabas
enquanto os outros
contavam dinheiro.
 
Tocava sua lira
enquanto os outros
tocavam a vida.
 
Séculos depois
acharam a sua obra
escrita pra nada.
 
E nos seus manuscritos
a vida dos outros
foi enfim decifrada.
 
 
 
10
 
Trilava o apito
e o trem
tilintava nos trilhos.
 
No vagão não se vaga.
Varava a madrugada
sem mudar a direção.
 
Quando se aponsetou,
comprou um avião.
 
 
 
11
 
Rosa azul,
celofane cor de rosa
pra melhorar
o humor do finado.
Ano após ano,
na porta do cemitério,
nem morta nem viva
juntando os trocados.
Numa noite veio a foice,
mas ela não se foi.
Vendera flores
ao pobre diabo.
 
 
 
12
 
Sentido!
O comandante exclamava,
mas ele ouvia uma pergunta:
sentido?
Já que ninguém respondia,
trezentos apoios por dia.
Até que veio a guerra,
e ele foi pagar apoio aos aliados.
Como nunca tinha sentido antes,
sentiu saudades
do comandante.
 
 
 
13
 
Na hora da morte,
ele sabia,
passa tudo num filme.
Mas é tarde demais
pra escrever.
Não guardava nomes,
quase esquecia
o aniversário da esposa,
trocava o ano no cheque.
Sem saída,
inventou as memórias
de outras vidas.
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4 Respostas

  1. Vamos dividir isso na quarta! Forte abraço

    • Ô, maravilha, Edu!

      Vamos, vamos, sim!

      Valeu a lembrança (rs)!

      Beijo IMENSO!

  2. Ficou ótimo seu texto resumo dos alteregos do Ricardo. E o poema é uma delícia, não só para comer, mas para degustar também. Leva-nos a léguas e léguas daqui, em um fascinante instante.

    • Maravilha, Edu!

      Também adoro esta seleção!

      Beijo GRANDE!

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