A RECEITA & A REGRA: UMA DESMEDIDA MEDIDA

(saramago: o ser mago das palavras)

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com pesos duvidosos, e duvidosos porque a medida dos pesos utilizados eu não sei dizer se é justa, se é correta, me sujeito, sujeito o meu sujeito, à balança até hoje recusada, balança cujos serviços até hoje não utilizei.
 
é tempo de saber o que mais vale: ponho, num prato raso, pois que num raso prato caibo, as matérias que me fizeram; coloco, num raso prato, todas as matérias que me compreendem:
 
os sonhos fugidiços, o desespero de prender ou de deixar solta, livre, a sombra que me vai medindo os dias, ponho na balança a vida, tão pouca, o ruim corpo, as traições naturais, as relutâncias, ponho na balança o que há de amor, a sua urgência, ponho na balança o gosto de passar entre as estrelas, gosto de ser entre seres, gosto de coisa entre coisas.
 
e concluo:
 
a certeza de ser, do ser, esta certeza do ser, de ser, só a teria se a poesia, mestra da minha vida, se a poesia, quem tanto me ensina, se a poesia viesse pesar-me.
 
diante de tal impossibilidade, o melhor é deixar de lado esta balança de pesos & medidas duvidosos & imprecisos e seguir a receita que muito me apetece, sem maiores preocupações:
 
tome-se um poeta não cansado, tome-se um poeta vigoroso em sua escrita, vigoroso na disposição das palavras em versos, tome-se uma nuvem de sonho & uma flor; três gotas de tristeza, um tom dourado, uma veia sangrando de pavor (e de amor); uma pitada da luz dum corpo desejado, e outra pitada se reforce: a de morte, que um amor de poeta assim requer: amor cheio de imagens & dramas existenciais (rs…).
 
junto à receita, uma regra pode jamais ser esquecida:
 
damo-nos tão pouco à vida… quando muito, damo-nos mais na cama, no sexo, ou na mesa pomos, isto é, ou cumprimos algumas obrigações domésticas/familiares. a regra, que pode jamais ser esquecida, pede muito mais:
 
há que nos darmos sem medida, como o sol, imagem rigorosa do que somos.
 
o sol: imagem rigorosa do que somos: tal & qual o astro-rei, nascemos para brilhar, nascemos para iluminar — “gente é pra brilhar, não pra morrer de fome” —, tal & qual o astro-rei nascemos para aquecer, para aquecer a vida, para aquecer o outro, meu irmão, nascemos para arder, nascemos para queimar.
 
afinal,
 
quem é quem é, coração? 
 
quem se dá, quem se recusa?
 
quem procura, quem alcança?
 
quem defende, quem acusa?
 
quem faz os nós, quem os desata?
 
quem duvida & acredita?
 
quem afirma, quem desdiz?
 
quem se arrepende, quem não?
 
quem é feliz, quem é infeliz?
 
quem é quem é, coração? adivinha!
 
(somos nós, coração: eu & você…) 
 
temos, nós & os nossos corações, que nos dar mais à existência.
 
e temos que nos dar mais à existência sem a pretensão de “medir”, de “aferir”, o amor. antes, o amor é quem mede, incorrupto juiz, ao qual não adianta subornos ou chantagens ou mentiras, uma vez que quem mede o amor é o próprio amor, na sua craveira desmedida, isto é, na sua desmedida medida, medida doida, maluca, avariada, medida que só ao amor cabe dizer & entender.
 
chamados (pelo amor) todos somos: no entanto, o amor só elege quantos de nós soubermos converter em chama vertical, em chama profunda, em chama que aquece, em chama que alimenta, em chama que ilumina, a hora consumida, isto é, em chama vertical (em chama profunda) a hora ida, a hora vivida; o amor só elege quantos de nós soubermos converter em mãos de dar, em mãos de doar, os dedos de reter, isto é, converter em mãos de dar os dedos de conter, os dedos de deter, os dedos de reprimir, os dedos de suster, os dedos de guardar, egoístas.
 
o amor é o avesso do egoísmo.
 
o amor não retém, o amor não prende; o amor entrega-se, o amor doa-se, o amor dá-se: o amor liberta.
 
(o amor melhora a existência.)
 
ouçam o mestre. ouçam as vozes dos versos de josé saramago, o ser mago das palavras.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poesia completa. autor: José Saramago. editora: Grupo Santillana / Alfaguara.)
 
 
 
BALANÇA
 
Com pesos duvidosos me sujeito
À balança até hoje recusada.
É tempo de saber o que mais vale:
Se julgar, assistir, ou ser julgado.
Ponho no prato raso quanto sou,
Matérias, outras não, que me fizeram,
O sonho fugidiço, o desespero
De prender violento ou descuidar
A sombra que me vai medindo os dias;
Ponho a vida tão pouca, o ruim corpo,
Traições naturais e relutâncias,
Ponho o que há de amor, a sua urgência,
O gosto de passar entre as estrelas,
A certeza de ser que só teria
Se viesses pesar-me, poesia.
 
 
 
RECEITA
 
Tome-se um poeta não cansado,
Uma nuvem de sonho e uma flor,
Três gotas de tristeza, um tom dourado,
Uma veia sangrando de pavor.
Quando a massa já ferve e se retorce
Deita-se a luz dum corpo de mulher,
Duma pitada de morte se reforce,
Que um amor de poeta assim requer.
 
 
 
REGRA
 
Tão pouco damos quando apenas muito
De nós na cama ou na mesa pomos:
Há que dar sem medida, como o sol,
Imagem rigorosa do que somos.
 
 
 
ADIVINHA
 
Quem se dá quem se recusa
Quem procura quem alcança
Quem defende quem acusa
Quem se gasta quem descansa
 
Quem faz nós quem os desata
Quem morre quem ressuscita
Quem dá a vida quem mata
Quem duvida e acredita
 
Quem afrima quem desdiz
Quem se arrepende quem não
Quem é feliz infeliz
Quem é quem é coração.
 
 
 
CRAVEIRA
 
Não deixa amor que o meçam, antes mede,
Incorrupto juiz que tudo afere
Na craveira da sua desmedida.
Chamados todos somos: só elege
Quantos de nós soubermos converter
Em chama vertical a hora consumida,
Em mãos de dar os dedos de reter.  
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4 Respostas

  1. Ótimo, Paulo. Com maestria, ele passa longe de afirmar peremptoriamentet se isto ou aquilo existe, mas sabe como isto ou aquilo o afeta – a poesia. E o amor, nas suas palavras, assim me afeta. Força mais poderosa do mundo, sem prazo de validade. Abs

  2. Adorei o seu texto, Edu!

    Saramago é um sábio, é muito danado de bom (rs).

    Abraço GRANDE!

  3. Paulinho,

    Amei! Bravo! Sempre um aprendizado vir aqui, sempre uma dádiva pronta para me impulsionar a escrever, mais e melhor!

    Adriano Nunes.

  4. Que MARAVILHA, meu poeta das Alagoas!

    Saber que este espaço lhe serve de estímulo à poesia é um GRANDE presente aos meus ouvidos! Somente esta razão já valeria a existência do “Prosa em poema”. 😉

    Beijo GIGANTE!

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