VIDA, PAIXÃO E PRAGA DE RB

abaixo,

 
em versos,
 
vida, paixão & praga de rb.
 
abaixo,
 
vida, paixão & praga do poeta régis bonvicino:
 
o poeta, ensimesmado, pergunta-se:
 
para que fazer poesia?
 
para que fazer poesia se o que alcança o poeta é o efeito pouco, se o que consegue o bardo é o efeito pobre?
 
para que a poesia se o poeta é tão-somente um epígono? sim, um epígono, um mero imitador de um grande artista criador ou de um célebre pensador, mostrando-se, até certo ponto, “inocente”, e inútil.
 
o poeta considera-se um “dilutor” — aquilo que se diluiu, tornando-se menos consistente, tornando-se mais “aguado” —, com todas as letras.
 
o poeta também é um dilutor, é inconsistente, quando formula os seus versos, é um dilutor com todas as letras que compõem as palavras que, por sua vez, compõem os versos seus, dilutos (dissolvidos, “aguados”, inconsistentes).
 
o poeta: simples caixinha de eco, um menino de recados (alheios).
 
em vez de “ácido”, em vez de “viajante” como o “lsd”, o poeta destina-se, segundo ele próprio, à água com açúcar, destina-se a “placebo”, destina-se a um “ácido malhado”, “ácido” sem “lsd”. em vez de ácido, no sentido de mordaz, cruel, corrosivo, o que o poeta traça em suas linhas destina-se à expressão “água com açúcar”, isto é, destina-se à bobagem, destina-se à desimportância.
 
portanto, por que a poesia? por que a necessidade de?
 
por quê, se a língua de fogo do poeta, que incendeia & queima & ilumina, é de palha, língua de fogo que não dura, língua de fogo momentânea, passageira?
 
língua que não fala nem cala: falso alarma.
 
então, por que poesia? por que a necessidade de poesia se o poeta se vê como personagem de bijouteria, e não como personagem de valor?, se o poeta se enxerga como palavra já usada, palavra já velha conhecida?, se o poeta se olha como mera, como banal, como trivial, praga (como a tradução da tradução mal acabada)?
 
porque o poeta, filho de um self made man, isto é, filho de um homem que se virou sozinho na vida, filho de um homem vivo, porque ainda não está morto, vivo porque um homem esperto, sagaz, e de uma mulher delicada como alva flor, e tão sensível que se matou, o poeta, único filho do casal, fez da antipoesia de si, ou seja, o poeta fez de tudo o que, nele, não é poesia, o seu exílio, o poeta fez de tudo o que não é poesia o seu lugar distante, o seu porto longínquo, afastado.
 
sendo assim, a poesia tornou-se o seu modo de comunicar-se com o mundo, a poesia tornou-se o elo do poeta com o seu entorno, a poesia é a sua maneira de buscar aproximação com o que o cerca.
 
com a poesia, o poeta se aproxima, o poeta deixa o ostracismo, e se pronuncia:
 
em sua cabeça, a palavra “CARNE”, louca de pedra, fora de órbita, apresenta-se “NACRE”; as letras que formam a palavra (C-A-R-N-E), nesta ordem — “NACRE” —, parecem embaralhadas.
 
porém, de fato, a palavra “CARNE” está “louca de pedra”: pois que a sua forma “fora de órbita”, “NACRE”, é um modo de se referir ao que se chama “nácar”, amplamente conhecido como “madrepérola”, substância calcária que constitui a camada mais interna de uma concha, substância dura feito pedra.
 
o poeta & a sua cabeça na lua: com a cabeça na lua porque o poeta “viaja” nas suas idéias, porque o poeta “viaja” com as suas divagações; com a cabeça na lua também porque a palavra “CARNE”, louca de pedra, fora de órbita, com suas letras embaralhadas, na cabeça do poeta deseja-se “NACRE”, ou seja, na cabeça do poeta a palavra “carne” deseja-se “madrepérola”, carne branca concreta, dura, como a lua, satélite cuja alvura é sempre comparada à alvura do “nacre”, à alvura da “madrepérola”.
 
louca “de pedra”, “fora de órbita”: a palavra “CARNE” deseja-se “NACRE”.
 
continua o poeta. com a poesia, deixa o seu exílio e se pronuncia:
 
pássaro sem asa,
corpo sem cor,
palavra sem pala (sem dica, sem alguma história que a revele, ou que a vele),
primeiro amor sem rima,
música sem musa (sem inspiração),
cinema sem cena,
diário sem dia,
vocabulário sem boca:
 
fica difícil imaginar a existência dessas coisas (pássaro, corpo, palavra, primeiro amor, música, cinema, diário, vocabulário) sem as características citadas, sem as características que acompanham essas coisas, sem as características que dizem respeito a essas coisas (asa, cor, pala, rima, musa, cena, dia, boca).
 
percebam que, também estruturalmente, as coisas não podem existir sem as características acima listadas: a palavra “p – á – s – s – a – r – o”, se não possuir, em si, se não possuir, na sua estrutura, a palavra “a – s – a”, ela não pode existir; a palavra “c – o – r – p – o”, se não possuir, na sua estrutura, a palavra “c – o – r”, não pode existir; as palavras “p – r – i – m – e – i – r – o   a – m – o – r”, juntas, se não possuírem a palavra “r – i – m – a” dentro delas, deixam de existir.
 
desse modo, as coisas relacionadas acima (pássaro, corpo, palavra, primeiro amor, música, cinema, diário, vocabulário), sem as suas respectivas características (asa, cor, pala, rima, musa, cena, dia, boca), não podem existir tanto na realidade mundana como na realidade estrutural (e semântica). 
 
segue o poeta, aproximando-se, com os versos da sua poesia, do mundo que o circunda:
 
um ornato, um jeito de gato; uma bomba de átomo, uma flor de cacto; um vinho tinto cabernet franc, um ready made de marcel duchamp. uma lista de coisas belas & significativas, tão belas & tão significativas quanto a poesia.
 
coisas belas & significativas: como, por exemplo, a lua cheia, que, por seu destaque no imaginário coletivo, desperta curiosidade & fascínio.
 
a lua cheia: cartão-postal do sideral, hotel granito do infinito, velho umbigo do “nihil” antigo (do “nada”, do “vazio” que é a existência mundo afora, galáxias adentro), porto aéreo de novos mistérios.
 
a lua cheia: também tratada como a sucata do universo, tanto em “prosa”, tanto nas conversas & nos desafios políticos sobre que país conquista a lua, como em “verso” — vide o célebre poema “lunes en détresse” (“lua em miséria”, “lua miserável”), do poeta francês jules laforgue —.
 
avança o poeta, dialogando com o seu tempo, dialogando com a vida que o circunda, relevando, por exemplo, o fio de esperança existente entre as figuras de marketing, onde ainda fulgura a palavra “álacre”. 
 
“álacre”: “alegre”, “vivo”, “animado”, “esperto”. se desmembrada (“á / lacre”), a palavra pode desdobrar-se e ser lida como “há lacre”.
 
lacre há entre as figuras/produtos que fulguram no marketing. 
 
lacre: preparado resinoso usado para fechar ou selar, garantindo a inviolabilidade daquilo que o recebe. 
 
o “fio de esperança”: o “lacre” dos produtos vendidos pelo marketing.
 
o “fio de esperança”: o “lacre”, que geralmente é um fio, é uma lâmina, que prende, que oculta, que esconde, a criação (o produto) que vai dentro.
 
atentem às tantas belezas reveladas no diálogo-poesia de régis bonvicino!  
 
beijo todos!
paulo sabino. 
___________________________________________________________________________
 
(do livro: Primeiro tempo. autor: Régis Bonvicino. editora: Perspectiva.)
 
 
 
VIDA, PAIXÃO E PRAGA DE RB
 
 
1
 
o papel nu
a cabeça na lua
a palavra
carne
louca de pedra
fora de órbita
NACRE
 
 
 
2
 
meu pai            um self made man
                                                        vivo
 
minha mãe                          alva flôr
matou-se                         de suicídio 
 
eu            único filho                      fiz
da         antipoesia                de mim 
                                    
                                              meu exílio
 
 
 
3
 
pássaro sem asa
corpo sem cor
palavra sem pala
primeiro amor sem rima
música sem musa
cinema sem cena
diário sem dia
vocabulário sem boca
néctar sem etc
 
 
 
4
 
um ornato
um jeito de gato
 
uma bomba de átomo
uma flor de cacto
 
um batom vermelho
um olhar de espelho
 
uma foto em alto contraste
uma lâmpada de 1000 quilowatts
 
um vinho tinto cabernet franc
um ready made de marchel duchamp
 
 
 
6
 
mini litania
da lua cheia
 
cartão postal
do sideral
 
hotel de granito
do infinito
 
velho umbigo
do nihil antigo
 
go go girl
dos idílios do céu
 
última hóstia
de nossa história
 
porto aéreo
de novos mistérios
 
“lunes en détresse”
EUA ou URSS?
 
em prosa e verso
sucata do universo
 
 
 
7
 
para que
fazer poesia?
 
se em mim
 
diabo
de rabo entre as pernas
que arromba
portas abertas
 
se em mim
 
fio e pavio
do óbvio
 
epígono sim
“inocente” inútil
 
dilutor
 
com todas as letras
 
caixinha de eco
menino de recados
 
robô abobado
 
malhador
de pó refinado
 
em vez de ácido
água com açúcar
em vez de cabelo
peruca
 
língua de fogo
de palha
que não fala nem cala
falso alarma
 
por que
a necessidade?
 
por que
poesia?
 
se sou
 
personagem de bijouteria
palavra de segunda mão
tradução da tradução da tra
 
“no soy nada
nunca seré nada
no puedo
querer ser nada”
 
mera praga
 
 
 
FIO DE ESPERANÇA
 
                       para haroldo de campos
 
 
entre
 
figuras
 
de marketing
 
fulgura
 
ainda
 
a palavra
 
álacre
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