A LINGUAGEM (CLARA) DO POETA: O SEU DILEMA VITAL

o dilema vital do poeta:
 
ter o sangue aventureiro, isto é, gostar de aventuras, gostar de aventurar-se, e ter um amor (imenso) à terra que o sonho lhe deu.
 
o dilema vital do poeta:
 
o gosto pelas aventuras e o gosto pela terra que estimula aventuras.
 
há, no poeta, tanto a vontade de partir, de navegar rotas diversas, quanto o desejo de fincar os pés na terra que desperta sua vontade de partir.
 
preso ao ideal que projeta, aprisionado ao ideal que sonha, o poeta vive as suas fantasias em terra firme, na solidão da praia derradeira.
 
o gosto do poeta de lutar contra o imprevisto, o combate do poeta ao que é imprevisível, o combate ao “elemento surpresa” da vida, fez com que o bardo se movimentasse, fez com que o bardo andasse, percorresse caminhos, o gosto de lutar contra o imprevisto fez-lhe todo de vento, elemento cujo estado fundamental é o movimento, é a andança.
 
o poeta, portanto, percorre veredas, no entanto, com os seus pés fincados em terra firme.
 
o bardo estende os olhos ao mar e pensa ter chumbos nos pés, e também pensa ter o mar, e tudo imenso:
 
com chumbos nos pés, com chumbos que fundamentam os pés do poeta em terra firme, o que lhe resta é sonhar, o que lhe resta é delirar, como um refém, um refém dos seus sonhos & delírios.
 
o que resta ao poeta é ser refém, ou seja, o que sobra ao poeta é estar aprisionado aos seus sonhos, aos seus devaneios de aventuras além-mar, e ao seu desespero bom, causado pelo dilema.
 
vivendo o seu dilema, o poeta sabe que não será ele mesmo o tempo todo, o poeta sabe que, dele, outro nascerá, e esse outro, com o passar do tempo, também trará à luz um outro “outro”, e assim sucessivamente.
 
vivendo o seu dilema, o poeta sabe do seu processo de transformação na trajetória dos seus passos indecisos.
 
naturalmente, a indecisão ante determinados caminhos & possibilidades causa medo.
 
em geral, todos nós temos medo do que não podemos controlar, temos medo do que não podemos domar, temos medo do lado imprevisível da vida, e lutamos contra ele.
 
quando isso acontecer, lutar, lutar contra o medo, e lutar sonhando.
 
lutar sonhando, lutar amando.
 
contar com amores durante a jornada.
 
contar com amores, contar com marias (maria cheia de graça, maria cheia de vida), e contar com a linguagem.
 
por entre as palavras o poeta caminha com seguridade. diante da página deserta, nas suas retinas:
 
sonhos de coisas claras, de coisas lúcidas.
 
nas retinas do poeta:
 
a construção do poema, sua arquitetura de vento & delírio, sua carne onírica, sua alma inventiva.
 
na estrutura da língua, a linguagem do poeta fala o seu segredo, a linguagem do poeta desata o próprio poeta, os dedos a dedurar, com clareza, através de imagens limpas, o ser do poeta.
 
no cio, no tesão, na vontade, no desejo, do ofício de escrever, buscar a linguagem na sua usura, buscar a linguagem no pouco que, ao escrever, o poeta consegue dela extirpar, e obter, da linguagem, sua nudez segura, absoluta canção, voz perene & inicial, primordial, primeira.
 
pois, assim, a vida do poeta será o seu bem precioso, e, fiel ao seu destino, com o mesmo ideal de um cavaleiro-andante, o poeta, todo feliz, leva-a como um diamante inimitado
& por demais valioso.
 
tenta o poeta sentir a vida, tenta o poeta compreendê-la um pouco, sem, no entanto, buscar-lhe a luz de seus inúmeros segredos. afinal, o poeta sabe que a vida nada pode dizer, o poeta sabe que a resposta está além dos deuses.
 
a vida tem a sua dimensão difícil, uma dimensão mais árdua, e também uma dimensão inexplicável, dimensão de mar que se lança, e lança suas espumas, contra rochedos, duros, ásperos, serenos.
 
todavia, ao poeta não incomoda essa dimensão. ele sabe que assim o é, que assim o foi, e que assim será.
 
sigamos.
 
beijo todos!
paulo sabino.
______________________________________________________________________________________________________________
 
(do livro: Melhores poemas. seleção: Luiz Busatto. autor: Gilberto Mendonça Teles. editora: Global.)
 
 
 
DILEMA
 
Tenho o sangue da gente aventureira
e o amor à terra que me deu o sonho.
Mas me encontro parado na fronteira,
sem saber se recuo, ou se a transponho.
Aprisionado pelo ideal que sonho
na solidão da praia derradeira,
risco na areia o poema que suponho
ficará na memória a vida inteira.
 
O gosto de lutar contra o imprevisto
fez-me todo de vento e não resisto
ao desespero bom de ir mais além.
Estendo os olhos para o mar, e penso:
“— Tenho chumbo nos pés e o mar e imenso:
só me resta sonhar como um refém.”
 
 
 
O OUTRO
 
Já não serei eu mesmo, serei outro
quando me virem segurando as horas
e desenhando pássaros barrocos
nas pétalas das conchas e das rosas.
Se, deslumbrado pela luz da aurora,
eu caminhar sem rumo, como um louco,
sabei que levo estrelas na memória
e me contemplo velho, sendo moço.
Diante dos homens gritarei comícios
e arrastarei por onde for o bando
que me seguir os passos indecisos.
E quando a noite vier rolando o medo,
eu dormirei nas pedras como um santo
e sonharei nas ruas como um bêbado.
 
 
 
MARIA
 
Maria, há tanta Maria
cantando na minha vida.
Maria cheia de graça,
Maria cheia de vida.
 
Andei mundo, rodei terra,
cruzei os mares que havia
e, em cada canto da terra,
o amor eu tive, Maria.
 
Na vida que Deus me deu,
deu-me tudo o que eu queria:
deu-me esperança e me deu
o amor que eu sempre amaria.
 
Eis por que sempre há Maria
mariando na minha vida.
Maria cheia de graça,
Maria cheia de vida.
 
 
 
LINGUAGEM
 
Eu caminho seguro entre palavras
e páginas desertas. Nas retinas:
sonhos de coisas claras e a lição
de outras coisas que invento
para o só testemunho
de minha construção
imaginária
de pedra
                        sobre
                                    pedra
                                                   e cimento
                                                                            e silêncio.
 
Da sintaxe invisível a certeza
e o desdobrar tão limpo das imagens
na vereda serena que dói fundo
no olhar preciso e vago consumindo
seu faro de palavras.
                                                   Na estrutura
da língua se desgasta o meu segredo,
se desgastam meus dedos, a mais pura
moeda que circula desprezível
no cio deste oficio de buscar-te
na usura de ti,
                                 nudez segura,
absoluta canção
                                      e voz perene,
inicial.
 
 
 
VIDA
 
A vida, tenho-a como um bem precioso
que alguém depôs em minhas mãos, confiante
em que eu pudesse amá-la até o instante
de meu supremo e derradeiro gozo.
 
E, fiel ao meu destino, mas sem pouso,
com o mesmo ideal de um cavaleiro-andante,
levo-a, todo feliz, como um diamante
inimitado e por demais valioso.
 
Tento senti-la e compreendê-la um pouco
sem, no entanto, buscar-lhe, como um louco,
a luz de seus inúmeros segredos.
 
Que a mim não me incomoda coisa alguma
que ela pareça um mar lançando espuma
contra a serenidade dos rochedos.
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