VIA DE MÃO DUPLA: O LEITOR & O POEMA

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Um leitor médio lê um poema. Ao findar a leitura dos versos, na mente do leitor, idéias soltas, versos, a princípio, desconexos. O leitor médio, angustiado, embaralhado nos seus pensamentos, sentencia: “não entendi as linhas, este poema é ruim, não presta”. 
 
João Cabral de Mello Neto dizia que poesia precisa de conhecimento de causa.
 
A poesia trabalha com linguagem, em sua máxima potência.
 
Ora, se o instrumento de trabalho do poeta é a linguagem, um bom poeta precisa, se deseja um trabalho consistente & consciente, debruçar-se no estudo da linguagem, das suas possibilidades, da sua construção, das suas causas & dos seus efeitos. Isso demanda tempo, demanda muita elocubração. Nenhum grande poeta escapa. Basta ler as cartas trocadas entre João Cabral de Mello Neto, Carlos Drummond de Andrade & Manuel Bandeira, reunidas numa obra de Flora Süssekind, sobre a importância de instrumentalizar-se. Isso acaba por trazer um rigor & uma exigência acima da média, acima do uso comum da linguagem. 

E o que dizer da poesia concreta? De Augusto & Haroldo de Campos, de Décio Pignatari?

 Então se o leitor médio não “alcança” as obras poéticas concretas dos poetas aqui citados, se o leitor médio não as “penetra”, significa dizer que as obras desses poetas são “ruins”, que as obras desses poetas “não prestam”? 
 
Se o leitor médio não “alcança” um poema do Drummond, ou do João Cabral, ou do Caetano, ou do Waly Salomão, ou do Augusto de Campos, ou do Décio Pignatari, ou do Nelson Ascher, ou do Marcelo Diniz, ou do Francisco Bosco, ou da Claudia Roquette-Pinto, ou do Adriano Nunes, o poema deixa de ser bom?
 
E por que não um “esforcinho” do leitor médio em instrumentalizar-se para alcançar a obra? Será que a questão reside no poema ou em quem o lê?

O leitor deve tomar cuidado. Eu, por exemplo, se não “alcanço”, se não “penetro”, um poema, passo um bom tempo debruçado sobre ele, e muitas vezes, muitas & muitas & muitas vezes, as belezas & a sagacidade dos versos só se desnudam, aos meus olhos, depois de muitos exercícios & estudos & apreensões, dias afora, noites adentro.

 Senão, como assim? Quer trabalhar poesia, isto é: ler poesia, e não quer ter trabalho?
 
Não há como. Ler poesia é trabalhoso.
 
Afinal, nem todo mundo é gênio; na verdade, a imensa maioria não é. Não somos gênios nem pessoas dotadas de capacidades especiais, e justamente por isso, como leitores, devemos fazer a nossa parte.
 
Se recomendo a leitura de Rilke, João Cabral, Augusto de Campos, Drummond, Pessoa, caro leitor? Recomendo sempre, considero salutar, suponho de grande relevância. Leia, caro leitor, leia. Mas leia sabendo que não é fácil e que, muitas vezes, precisamos de instrumentos — outros livros, artigos de especialistas, outros autores — para “alcançar”, para “penetrar”, determinadas obras.
 
A captação, a apreensão, de algumas obras nos são mais imediatas; de outras, não. E eu não vejo problema que assim o seja.
 
Não absorvo poesia pelos poros. Desde sempre, desde que leio poesia, e isso tem bastante tempo, é muita humildade para reconhecer que não sou gênio de forma alguma e que preciso estudar MUITO, perder noites & mais noites para “alcançar” determinados textos poéticos.
 
Dedicação extrema: eis o caminho para o bom entendimento de leituras/poemas mais densos, mais árduos.
 
Se sabemos que a poesia trabalha a linguagem na sua máxima potência, e que isso demanda um trabalho árduo do poeta para com a linguagem, nada mais natural que a apreensão do leitor se dê com o trabalho também árduo da leitura. Assim como o bom poeta, o bom leitor deve estudar a linguagem & a poesia.
 
É uma via de mão dupla: o poeta & o leitor precisam de conhecimento rico para ambos trabalharem, em suas esferas, o poema.
 
Um bom poema precisa de um bom leitor. É uma via de mão dupla.
 
Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(autor do poema: Adriano Nunes. autor da nota: Adriano Nunes**.)
 
 
 BOCAGE AO FIM 
 
-ALMA
 
-ove -aro -ermo
-enso -aio -ece
-ares -eias -eio
 
-iso -inha -aças
-ença -ensa -ando
-assos -itos -aços
 
-usta -ana -orte
-ava -anos -oube
-ados -ero -osos

-ira -ano -undo
-ama -ento -ulta
-ina -ores -uto

-iva -oza -eça
-ia -iste -ecem
-enas -onho -echa

-eixa -agem -enta
-ajem -eras -ende
-adas -inos -eres

-anto -eja -oso
-umes -ade -osas
-ena -una -ora

-eia -ada -ido
-ela -eno -iro
-ino -uro -igo

-elo -eito -ossas
-ite -oma -oiro
-oiros ante -osto

-alam -evos -ua
-oras -erna -ume
-ofre –ente -ude

-ARTE

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**Quando Bocage encontrava-se doente, perto da morte, ele escreveu muitos sonetos. Recentemente, estudei toda a sua obra e verifiquei que em seus últimos sonetos as rimas finais eram as que lhes apresento aqui em um poema que fiz. Espero que meu poema (deu um trabalho imenso!) traga-lhes luz! Coincidentemente, as terminações -ARTE e -ALMA eram rimas em finais de versos!

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(comentário de Paulo Sabino após a leitura do poema Bocage ao fim, de Adriano Nunes
 
Que LINDO! As possibilidades que as terminações nos dão são um grande barato! Fiquei HORAS (rs) olhando, lendo, vendo como formar as palavras, as possibilidades, enfim, VIAJEI (rs rs)!
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4 Respostas

  1. Meu querido – ( no caso aqui, meus queridos!),

    A poesia concreta é a prova que o poeta dá sobre a ampla função da linguagem. Poema concreto dá aos olhos o prazer absoluto da palavra!
    Dificílimo criar um poema concreto. Mestres, como os que você citou, foram magistrais na criação de seus edifícios de palavras. Mas a poesia concreta não é para todos, assim como Van Gogh não é para todos, Björk não é para todos, Gaudí não é para todos! Mas eis que surge aí a grande beleza da arte: Provocar nossos sentidos, estimular!

    O poeta e meu amigo Adriano Nunes, concentra em seus versos, além da extraordinária capacidade de criação, a admiração pela palavra!é evidente o amor que ele tem pela língua e suas possibilidades. Ou, como disse o querido Manuel de Barros, o deslimite da palavra! Palavra tem capacidades próprias, força, energia, pode ser imoral e transformadora, deve transgredir, agregar, desagregar… O poema concreto nos dá tal imoralidade e nos provoca para a transformação de nossos sentidos visuais e lingüísticos.
    Absolutamente todas as suas colocações Paulinho, são pertinentes e extremamente importantes, não só aqui, nas considerações feitas sobre a poesia concreta e a poesia de Adriano, mas também quando diz: Vamos comer poesia, provar poesia, respirar poesia! Você sabe dar a palavra dimensão de sentidos e entende perfeitamente que palavra não tem qualquer impedimento sensorial.

    Muito bom o post!
    Na poesia de Adriano a palavra é a grande estrela!

    beijos aos dois.

    • Betina, minha doçura,

      Diante de palavras tão bem colocadas, tão bem postas, eu nem tenho o que dizer… apenas concordo com tudo em gênero, número & grau. 🙂

      E espero, sempre, contar com você, assim como conto com o adriano, nesta jornada incrível que é a poesia!

      Beijo, mon amour!
      Apareça, venha me visitar, a sua presença faz um bem danado ao “PEmP”! 🙂

  2. Paulinho,

    Belo e útil texto sobre aprender a ler a poesia.
    Você tem razão: a poesia não vem “mastigada”, é preciso a aprender a admirá-la, muitas vezes.

    Beijos,
    Loren

    • Loren, querida,

      que bom tê-la aqui!

      Pois é, florzinha, poesia não vem mastigada, às vezes é de difícil digestão (rs)…

      Beijoca!
      Volte sempre! 😉

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