VIRGEM

Farol da ilha de Porer (Croácia)

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INOCENTES DO LEBLON   (Carlos Drummond de Andrade)

 

Os inocentes do Leblon
não viram o navio entrar.
Trouxe bailarinas?
trouxe imigrantes?
trouxe um grama de rádio?
Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram, 
mas a areia é quente, e há um óleo suave
que eles passam nas costas, e esquecem.

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praia de ipanema. posto 9. horário de verão. 19h10.

caminhando na areia, há poucos dias, tendo, às costas, as pedras do arpoador, à frente, os morros dois irmãos & a favela do vidigal, atrás dos dois irmãos, a pedra da gávea, à direita, na beira-mar, o hotel marina, e tendo o sol, já caído atrás das montanhas, pintando o céu azul em tons de alaranjado, este verso brotou na minha garganta, ganhando a minha voz, que o repetiu alto, numa espontaneidade genuína:

“as coisas não precisam de você”.

logo em seguida, o seguinte:

“quem disse que eu tinha que precisar?”

as luzes brilham no vidigal & não precisam de você.

as luzes das casas, das ruas, cintilam no morro do vidigal, compondo o cenário, lindas, e não precisam de você para brilhar, não precisam de você para cintilar.

não precisam de você, não precisam de ninguém, não precisam de nada.

os (morros) dois irmãos, e sua beleza, e sua imponência frente à paisagem, também não precisam de você para serem belos & imponentes.

o hotel marina, à beira-mar, aceso por volta das 19h10 do horário de verão carioca, quando acende, não é por nós dois nem lembra o nosso amor.

os inocentes do leblon, a que se refere drummond no poema citado, os inocentes do leblon, ignorantes imersos em suas pequenas questões, imersos no óleo suave que passam nas costas, para relaxamento, quando dispostos na areia quente & fofa, os inocentes do leblon, que não vêem nada, que não vêem o navio entrar nem tampouco saberiam que tipo de carga o navio carrega, que , na verdade, não se interessariam em ver ou saber da entrada do navio, os inocentes do leblon, que esquecem tudo que não esteja ao alcance do seu umbigo & dos seus interesses, estes não sabem de você, nem vão querer saber.

as coisas não precisam de você, não precisam de ninguém, não precisam de nada.

as coisas, no mundo, existem independentes de mim, independentes de vocês, independentes de nós.

e isso, no fundo, é bom. isso, no fundo, é o melhor, pois significa que, para ser feliz, para estar bem, para admirar o belo que me cerca, não dependo de nada nem de ninguém.

dependo de mim.

a vida gosta de quem gosta da vida.

as belezas estão no mundo, dispostas, disponíveis, a quem quiser sorvê-las, a quem souber aproveitá-las.

(os dois irmãos, as luzes no vidigal, o hotel marina aceso na orla, as luzes alaranjadas do pôr do sol, as gaivotas & fragatas que partem na direção das pedras, e mais o que houver.)

a constatação de que o bem-estar, a felicidade, dependem apenas de nós, dependem de bancarmos as nossas escolhas, doam a quem doer, em prol do nosso bem-estar, em prol da nossa felicidade, em prol das coisas que verdadeiramente nos fazem bem.

virgem: virgo: o sexto signo do zodíaco, relativo aos que nascem entre 23 de agosto & 22 de setembro.

virgem: o que é puro, intocado. desconhecido. o que não foi usado. o que é isento. o que é:

livre.

(as coisas não precisam de você, não precisam de ninguém, não precisam de nada.)

a constatação de que dependemos apenas de nós, seres solitários que somos, ainda que tenhamos o sentimento do mundo, no percurso de buscar & lutar por aquilo que nos encanta os olhos, espelhos da alma.

e o meu farol, o farol desta ilha que sou (território-império em meio a um mar de possibilidades), o farol da ilha só gira agora por outros olhos & armadilhas:

o farol da ilha procura, agora, outros olhos & armadilhas…

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Guardar. autor: Antonio Cicero. editora: Record.)

 

 

VIRGEM

 

As coisas não precisam de você:
Quem disse que eu tinha que precisar?
As luzes brilham no Vidigal
E não precisam de você;
Os dois irmãos
Também não.
O Hotel Marina quando acende
Não é por nós dois
Nem lembra o nosso amor.
Os inocentes do Leblon,
Esses nem sabem de você
Nem vão querer saber
E o farol da ilha só gira agora
Por outros olhos e armadilhas:
O farol da ilha procura agora
Outros olhos e armadilhas.

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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Virgem. artista & intérprete: Marina Lima. canção: Virgem. Letra: Antonio Cicero. Música: Marina Lima. gravadora: Universal Music.)

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7 Respostas

  1. meus dois poetas e uma canção instigante. que belo post!

    • Arthur, querido,

      Que bom tê-lo aqui!

      CDA & Cicero: sofisticação PURA!

      Beijo GRANDE em você!

  2. Paulo,

    Que bom que trouxeste exatamente o poema que esperava ler. Os poemas. Como mineiro, conterrâneo de Murilo Mendes e Rubem Braga, do estado de Drrummond e Otto Lara, do perfil discreto que aconselha mais ouvir do que falar, aos vir para o Rio de Janeiro aos 13 anos senti o centro gravitacional de uma maioria (não posso generalizar) no umbigo. E como escrevo e leio, sinto e aponto o “caminho do pânico” para certas manifestações (sem generalizar) “performáticas” que são confundidas com poesia no Rio de Janeiro. Não basta iventar em um dia uma gracinha, passar um óleo nas costas e bater tambor para chamar de arte. E vou contnuar dizendo o que penso, não há mal algum em estar equivocado. Mas meu paradigma, não canso de repetir. Poesia é lapidar a pedra, como diria JCMNeto. É processo doloroso, exaustivo, ao mesmo tempo divertido, imprevisível. E a realidade assim me afeta. São anos de Rede Globo capitaneando a produção cultural. Mas, sei que outrora, dos grandes cronistas de jornais, intelectuais e dramaturgos, eu admirava mais a arte carioca. Para o exemplo do que chamo centro gravitacional no umbigo guardo até hoje a piadinha que faziam na faculdade comigo. Para os cariocas imitarem o sotaque de mineiro, falavam como nordestino: “bichinho, não se aperreie, e que tais”. A alienação só englobava uns 3 mil quilômetros de ignorância. E quando vejo Alexandre Britto e os gaúchos, os paulistas, os nordestinos, imploro: vamos divulgar e aprender com o Brasil. Taí o desabafo que sempre quis fazer. Tudo, graças a você. Obrigadíssimo. Eduardo Ribeiro Toledo

  3. Cheio de erros pela pressa atual. Mas digo Rubem Fonseca. Nem vou reler o restante para não encontrar mais furos rsrsrs….

    • Edu,

      Comungamos de uma mesma visão: o centro é TUDO. O centro não está no Rio, nem em Minas, nem no Rio Grande do Sul e nem na Bahia.

      Tudo é centro porque tudo o que é bom, tudo o que é grande, importa & significa.

      Gosto desta misturada desenfreada: gaúchos, mineiros, baianos, cariocas, tudo num mesmo balaio poético. O “PEmP” propõe-se a isso: propõe-se a belezas sem importar-se com procedências.

      Beijo GRANDE!

  4. Eii Paulo seu blog eh mto interessante tô fuçando tdo por aqui….
    Parabens pelo trabalho…
    Obrigada pelo convite…
    Um gde abraço procê visse?
    Nancy Moisés
    Poetas em grupo do lua em Poemas (Facebook)

    http://www.poetisadasminasgerais.50webs.com

    • Nancy, querida,

      Que coisa boa a sua chegada a este espaço!

      A casa está sempre aberta a pessoas que queiram compartilhar conhecimentos & estrelas.

      Beijo GRANDE!

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