LIMERICKS EPIGRAMAS & EPITÁFIO

abaixo,
 
seleção de limericks (forma poética amplamente utilizada na inglaterra do século 19, de 5 versos, cujo esquema rímico é aabba, com temas de tendência humorístico-mordaz) & epigramas (composição poética breve, em prosa ou verso, que expressa um pensamento de forma satírica) — com direito a um epitáfio (tipo de epigrama gravado em lápides ou monumentos funerários) —, do sofisticadíssimo poeta nelson ascher.
 
dentro do balaio poético, cheio de humor, há também algumas variações, criadas por ascher, sobre um tema do epigramatista paladas, oriundo da cidade de alexandria, no egito, que viveu no século 4 d.c. e que se dedicou a versar, em muitos dos seus epigramas, a transição da cultura grega para o mundo cristão. todavia, o tema eleito por nelson ascher não tem a ver com a transição da cultura grega à cultura cristã, mas sim com a visão que paladas possui, ou finge possuir, sobre a mulher.
 
limericks & epigramas & um epitáfio, todos divertidos, inteligentes, muito sagazes, limericks & epigramas & um epitáfio cheios de sacadas rápidas & espertas, que nos fazem ver, de forma clara & direta (sem espaço a elucubrações), como a poesia é cheia de malícias, de ardis, como a poesia é cheia de segundas intenções, de palavras que se desdobram em significados múltiplos. 
 
atentem às astúcias das linhas, ao seu humor ácido, e divirtam-se com elas!
 
(a seleção é para trazer leveza, suavidade.)
 
beijo todos!
paulo sabino.
____________________________________________________________
 
(do livro: Parte alguma. autor: Nelson Ascher. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
Havia um surfista em Recife
que usava só pranchas de grife.
   Tubarões, todavia,
   devoraram-no um dia
pensando tratar-se de um bife.
 
 
 
Havia uma moça paulista
que, como queria ser vista,
   desfilava sem nada
   mas jamais, pois gripada,
foi capa em nenhuma revista.
 
 
 
Havia um monarca na Grécia
que a todos fez uma promessa:
   ser-lhe-ia bem-vinda
   qualquer crítica ainda
que o autor não prezasse a cabeça.
 
 
 
Havia um rapaz tão abjeto
que, em Praga, deitara-se e, inquieto,
   acordou de manhã
   do seu sono pensando:
“Eu sinto-me pior que um inseto”.
 
 
 
Proibida de fazer amor outrora,
a mulher, livre (graças à vitória
feminista) daquele pesadelo,
pode hoje livremente não fazê-lo.
 
 
 
(Variações sobre um tema
de Paladas de Alexandria)
 
Pasa gyné cholos estin: echei d’agathas du(o) horas,
Tén mian en thalamo, tén mian en thanato
 
1)
Mulher só não chateia
àquele que consiga
manter a boca cheia
de carne ou de formiga.
 
 
2)
Mulher é o fim — menos na noite
de núpcias e depois da autópsia.
 
 
3)
Mulher na horizontal só não resulta
em caos se é puta ou quando está sepulta.
 
 
4)
Mulheres são um pé no saco, exceto aquelas
que abram as pernas ou que batam as canelas.
 
 
 
Quem serve a canibais aceita o risco
de que garçons lhes sirvam de petisco.
 
 
 
A alma humana é falaz, mas não despista
ninguém — salvo quem tem psicanalista.
 
 
 
Até cegos, que vêm da treva e à treva
regressam, vêem, sem experiência prévia,
que deste mundo aqui nada se eleva.
 
 
 
Aqui jaz Nelson Ascher consumido
pelo amor-próprio não correspondido.
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