PASSAGEM DA NOITE

 
(Passagem da noite & a aurora dos novos tempos)
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alta noite já se ia.
 
ninguém na estrada andava.
 
no caminho que ninguém caminha, alta noite já se ia.
 
e eu sinto que é noite, não porque a sombra (da noite) descesse por sobre o dia, mas porque, dentro de mim, porque, no fundo de mim, o grito, o alarido da vida, se calou, aquietou-se.
 
(bem me importa a face negra da noite, bem me leva para dentro dela a face negra da noite, e bem me importa a face negra da noite porque a face negra da noite também possui a sua importância dentro de mim, mas não são essas as razões que me fazem sentir que é noite.)
 
sinto que é noite porque, em mim, fez-se desânimo.
 
sinto que nós somos noite.
 
de fato, à noite, o organismo entende o acontecimento: à noite, o metabolismo aquieta-se, torna-se mais lento, desacelera.
 
palpitamos no escuro (o músculo oco a pulsar, sinalizando alguma vida apesar da inércia em que mergulhamos) e, assim, em noite nos dissolvemos.
 
sinto que é noite no vento, noite nas águas, noite na pedra. tudo um escuro. nada à vista.
 
a noite encobre tudo & tudo se dissolve no seu véu.
 
portanto, se a noite encobre tudo & tudo se dissolve no seu véu, de que adianta uma lâmpada? de que adianta uma única luz acesa na imensa escuridão? de que adianta uma voz, uma única voz, em meio ao silêncio noturno?
 
ainda que haja a lâmpada acesa, ainda que haja a minha voz, de nada adiantam porque é noite no meu amigo, no submarino, na roça grande. é noite em toda parte circundante.
 
vejam bem: não é morte (palpitamos no escuro), não é dor (não há sofrimento lúcido), nem paz (não há contentamento lúcido). é apenas noite, é justamente a noite, é perfeitamente a noite.
 
mas salve, olhar de alegria!
 
salve, dia que surge!
 
os corpos, que antes palpitavam no escuro, saltam do sono; o mundo, às claras, se recompõe.
 
que alegria a bicicleta que passeia!
 
existir: seja como for, a fraterna entrega do pão.
 
amar: seja como for: mesmo nas canções, a entrega do coração.
 
(na vida, existir & amar com a entrega do pão, com a entrega do coração.)
 
saltar do sono, recompor-se, e, de novo, andar: as distâncias, as cores, os cheiros, os sabores: posse das ruas; de novo, dono das paisagens que vão passando ao me ver passar (os dois lados da janela…); de novo, senhor dos caminhos que sigo percorrendo.
 
tudo que à noite perdemos se nos confia outra vez, tudo que à noite perdemos volta a ser nosso com a luz do dia.
 
obrigado, coisas fiéis, coisas que sempre retornam minhas!
 
saber que ainda há praias, florestas, sinos, palavras; saber que a terra prossegue o seu giro; saber que o tempo não murchou, que não nos diluímos, que estamos aí.
 
chupar o gosto do dia!
 
clara manhã: obrigado!
 
o essencial é viver!
 
(existir: seja como for, a entrega fraterna do pão.)
 
(existir: amar, com a entrega do coração. amar sempre, mesmo nas canções.)
 
um feliz & próspero ano que se inicia!
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: A rosa do povo. autor: Carlos Drummond de Andrade. editora: Record.)
 
 
 
PASSAGEM DA NOITE
 
 
É noite. Sinto que é noite 
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.
 
Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!
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4 Respostas

  1. Já algum dia lhe disse como gostava de receber diariamente os seus escritos?está nos meus favoritos…Bom ano para si e para os seus!

    • Já me disse, sim, Amélia querida, e isso, vindo de você, me é motivo de grandes alegria & orgulho.

      Que bom contar com você neste espaço!

      Um EXCELENTE 2012 para você, querida!

      Beijo GRANDE!

  2. Canção da Alta Noite

    Alta noite, lua quieta,
    muros frios, praia rasa.

    Andar, andar que um poeta
    não necessita de casa.

    Acaba-se a última porta.
    O resto é o chão do abandono.

    Um poeta, na noite morta,
    não necessita de sono.

    Andar… Perder o seu passo
    na noite, também perdida.

    Um poeta, à mercê do espaço,
    nem necessita de vida.

    Andar… – enquanto consente
    Deus que seja a noite andada.

    Porque o poeta, indiferente,
    andar por andar – somente.
    Não necessita de nada.

    Canção de Alta Noite, Cecília Meireles, em Vaga Música, Antologia Poética – Nova Fronteira.

    Um beijo Paulo, boa semana.

    • Que lindíssimo poema, Carmen querida!

      Obrigadíssimo por pousá-lo aqui.

      Beijo GRANDE!

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