RASCUNHO DE VIDA: CAMINHO PARA O LIXO

 
(Morador de rua: pessoa de carne & osso, assim como eu, assim como você)
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fedendo a cigarro & a mim mesmo,
 
cheiro ruim exalado dos maus tempos em que vivemos,
 
cruzo uma avenida larga & áspera ao anoitecer:
 
sirenes, carros, vozes abafadas.
 
numa rua transversal, o cadáver de um cachorro atropelado.
 
tempos de correria, tempos de pressa, tempos de desimportância, tempos de atropelamento.
 
rodas metálicas passam em ritmo lento, fedendo a esgotos & a mim mesmo, que também exalo o esgoto, esgoto em que piso, esgoto sobre o qual montamos as nossas vidas repletas de desejos mesquinhos.
 
eu mesmo fedendo a esgotos, fedendo a um pouco de fogo do isqueiro, eu mesmo fedendo como aquela maçã podre, eu mesmo fedendo, exalando, a música estúpida destes tempos, a música burra das vontades superficiais, a cantilena dos sonhos descartáveis, música que vibra seus acordes dissonantes todas as vezes que saio da segurança da minha casa ou ao ligar a TV em determinados programas (coisa que não faço).
 
o lixo recolhido exala um cheiro nítido na calçada (cheiro de podridão, cheiro dos tempos que fedem à música estúpida), cheiro na calçada que também fede a sapatos, fede a ratos, ao suor (frio) dos neóns, a cadeiras, a notícias inúteis (sem importância no seu conteúdo) & a mim mesmo, caminhante a gravar seus passos nas calçadas & avenidas, caminhante fedendo seu cheiro sob a lua & junto a narinas (de outros caminhantes) entupidas de gás carbônico.
 
o som do motor do ônibus, com seu rugido rascante & sua contribuição de fumaça poluente, fedendo as mesmas camisas, velhas & surradas, e fedendo a mim mesmo, passageiro que sou das lotações que me transportam por ruas, ladeiras & avenidas, o som do motor do ônibus fedendo a esquinas por onde passa, esquinas que exalam cheiros que fedem a expectativas (tudo fede frente a fatos funestos) que, no entanto, acabam na próxima linha (seja da vida, seja do poema).
 
expectativas que acabam, postas fora, feito lixo.
 
lixo: aquilo que não se considera útil ou propício:
 
plásticos voando baixo, cacos de uma garrafa (pétalas cortantes sobre o asfalto).
 
balde na lixeira: lixo.
 
lixo: os sacos jogados na esquina, os sacos ao lado da cabine telefônica, restos de comida & cigarros no canteiro (feito para árvore), sem a árvore, lixo consentido por toda parte desta cidade que fede, lixo sob o viaduto que, agora, sob o viaduto, se confunde com mendigos.
 
mendigos: pessoas, seres humanos, gente de carne & osso, assim como eu, assim como você.
 
mendigos: pessoas moradoras de rua, marginalizadas, discriminadas & confundidas com lixo (por muitos) mesmo quando não sob o viaduto, mesmo quando às claras, à luz do dia.
 
os mendigos são odiados por muitos porque fedem as calçadas & porque, ainda que perceptivelmente humanos, ainda que perceptivelmente de carne & osso (assim como eu, assim como você), são confundidos com lixo.
 
num dia, um mendigo encontrado morto. morto a pauladas.
 
não há palavras que denomine a ação contínua de bater: pauladas.
 
não há palavras para pauladas.
 
quando a violência fala mais alto, toda & qualquer palavra se cala. a possibilidade de diálogo é encerrada.
 
pauladas: não há palavras.
 
não há palavras para dizer: morto a pauladas.
 
matar a pauladas um mendigo (uma pessoa, um ser humano, gente de carne & osso, assim como eu, assim como você) & seus utensílios, aniquilar a pauladas um mendigo & sua sacola, seu cobertor, sua calçada…
 
morto a pauladas.
 
àqueles que se locupletam com o caso, àqueles que se enchem de um prazer que beira o sadismo quando comentam o caso sem pistas, não compreendem que não há palavras para:
 
morto a pauladas.
 
ao falar a paulada, cala-se a palavra.
 
(pancadas não deixam espaço à troca de palavras.)
 
mendigo morto a pauladas na madrugada.
 
de manhã, poça de sangue, feridas na cabeça, e no rosto não há palavras: no rosto, as marcas dos golpes a porrete.
 
mendigo morto a pauladas: não tem conversa, não. afinal, pancadas não deixam espaço à troca de palavras.
 
mendigo morto a pauladas: não tem conversa, não. sem muito papo: a devida punição aos verdugos!
 
mais respeito à vida! menos valor à música estúpida destes tempos, menos valor aos desejos descartáveis, menos valor aos sonhos mesquinhos! mais valor à delicadeza! mais valor à cooperação mútua!
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Até agora: poemas reunidos. autor: Régis Bonvicino. editora: Imprensa Oficial.)
 
 
 
CAMINHO DE HAMSTER
 
 
Fedendo a cigarro e a mim mesmo
cruzo uma avenida
ao anoitecer
sirenes, carros
 
vozes abafadas
avenida larga e áspera
numa rua transversal
o cadáver de um cachorro
 
atropelado
rodas metálicas em ritmo lento
fedendo a esgotos e a mim mesmo
a um pouco de fogo, do isqueiro
 
fedendo como aquela maçã podre
fedendo a música estúpida
desses tempos
e a mim mesmo
 
o lixo recolhido exala
um cheiro nítido na calçada
fedendo a sapatos e a mim mesmo
a ratos, ao suor dos neóns
 
a cadeiras e a mim mesmo
a notícias inúteis e a mim mesmo
fedendo sob a lua
narinas entupidas de gás carbônico
 
o som do motor do ônibus
fedendo as mesmas camisas
fedendo a miopia e a mim mesmo
fedendo a esquinas
 
exalando cheiros
fedendo a expectativas
que no entanto acabam
na próxima linha
 
 
 
O LIXO
 
 
Plásticos voando baixo
cacos de uma garrafa
pétalas
sobre o asfalto
 
aquilo
que não mais
se considera útil
ou propício
 
há um balde
naquela lixeira
está nos sacos
jogados na esquina
 
caixas de madeira
está nos sacos
ao lado da cabine
telefônica
 
o lixo está contido
em outro saco
restos de comida e cigarros
no canteiro, sem a árvore,
 
lixo consentido
agora sob o viaduto
onde se confunde
com mendigos
 
 
 
RASCUNHO
 
 
Pauladas não há palavras
morto a pauladas não há palavras
para dizer morto
a pauladas
 
matar a pauladas
um mendigo e seus utensílios
sacola, cobertor e calçada
morto a pauladas
 
a lua em quarto minguante
verga
nuvens ásperas encarneiradas
enquanto isso aqueles que
 
se locupletam com o caso
sem pistas
não há palavras
morto a pauladas
 
a corda no pescoço?
de manhã —
poça de sangue —
feridas na cabeça
 
e no rosto
não há palavras
morto a pauladas
não tem conversa não
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4 Respostas

  1. grande, Paulo! sempre gostei do trabalho do Régis. um abraço.
    romério

    • Um abraço, Romério-poeta-querido!

      Que GRATA surpresa a sua visita!

      Volte SEMPRE!

  2. Mt legal as prosas e os poemas.

    • Que bom, Ana Gabriela!

      Espero que você retorne para mais visitas, a casa é nossa!

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