DO OFÍCIO

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o combustível da escrita,
 
aquilo que a alimenta,
 
aquilo que a impulsiona,
 
aquilo que a estimula:
 
o entusiasmo, a angústia, a inquietação, o medo, o prazer, a tentativa de auto-conhecimento, e até o tédio (a falta do que fazer também leva à construção de textos).
 
porém, sobretudo, o (talvez) maior combustível da escrita é o desejo: desejo de dizer algo, desejo de expor algo, desejo de compartilhar algo.
 
se os sentimentos aqui descritos são o combustível da escrita, isto é, se os sentimentos aqui descritos são a matéria que se queima para a produção da energia da escrita, a mente (parte que nos possibilita pensar) continua sendo o motor da escrita, isto é, a mente continua sendo o que move a escrita, mente atormentada (e estimulada) pelo tempo, esse ser assombrado por si mesmo (afinal, o “tempo”, com o passar do tempo, devora a si mesmo continuando a ser o mesmo) & assombrado pelo mundo (afinal, o tempo é preenchido, o tempo é inteiramente ocupado, pelas coisas mundanas, coisas que, por preenchê-lo, são como uma espécie de sombra que o recobre), mundo que, conforme o vento (vento-brisa, vento a favor, ou vento-ventania, vento contra), deleita & dispersa o tempo. 
 
o grande combustível da escrita: o desejo: desejo de dizer algo, desejo de expor algo, desejo de compartilhar algo.
 
e o poeta é o cara que se esmera, a vida inteira!, em malabares de palavras, o poeta é o cara que se esmera em manobras arrojadas, corajosas, manobras ousadas, com as palavras, deslocando-as do seu sentido ordinário, sentido comum, e, num instante tonto, uma frase solta ao avesso vira verso, ecoando assim, de modo ocasional, de maneira imprevisível, a melodia rara de cantiga boa.
 
ser poeta é jamais perder o estado de perplexidade com o mundo, com a gente. pois é neste estado, de puro espanto, de puro pasmo, que se dá a poesia. 
 
um poema traz espanto, susto, maravilha, pelas idéias & sentimentos que geram os jogos de palavras dispostos nos versos.  
 
ser poeta é nunca esquecer o suspiro alheio, suspiro que não o nosso, porém suspiro que, mesmo não sendo o nosso, nos espanta, nos assusta, nos maravilha: espumas flutuantes (castro alves), estrela da vida inteira (manuel bandeira), claro enigma (carlos drummond de andrade): suspiros poéticos alheios que nos inspiram & nos instigam a escrever mais & mais. 
 
escrever mais & mais, mais & mais & mais & mais, até, quem sabe, a possibilidade de um livro.
 
no dia em que eu publicar um livro, de que matéria serão suas páginas? serão páginas de carne (muy líricas, muy pessoais)? serão as páginas de carne para que o verso seja desenhado pelo rastro do verme?… 
 
que arte, que artefato será usado para confeccioná-lo, o livro que eu, um dia, porventura, publicar?
 
independente do artefato utilizado à confecção do livro que eu, um dia, porventura, publicar (letras de salitre em páginas de pedra, ou página de esmeralda com letras em urânio, ou a pele do sexo bordada no pano), a superfície do texto é toda traçada no meu crânio, porrada por porrada, ano por ano (com os embates & vivências vidafora, e com o aprimoramento — duro, árduo —do exercício da escrita), até brotar, crescer, florescer, a flor-poema & suas pétalas-estrofes.
 
a superfície do texto é toda traçada no meu crânio, porrada por porrada, ano por ano, até brotar, crescer, florescer: gerar gerânio.
 
o poema: um santo remédio às azias existenciais.
 
um poema por dia (pelo menos!), como um comprimido, homeopatia, medicamento de dupla profilaxia: utilizo para cura, uso para minha melhora, e é a saudade — seja do que for — que o poema também remedia.
 
poema: a minha pílula do bem-estar.
 
poema: dose pequena de alegria.
 
(salve a minha vida na sua!)
 
beijo todos!
paulo sabino. 
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(do livro: Olho nu. autor: Dado Amaral. editora: Mundo das Idéias.)
 
 
 
é entusiasmo, é angústia
é inquietação, é medo
é prazer, é tentativa
de auto-conhecimento
é até o tédio, visitante raro
e é sobretudo desejo, talvez,
o combustível da escrita.
 
o motor continua sendo
essa mente atormentada pelo tempo
esse ser assombrado por si mesmo e pelo mundo
que o deleita e dispersa, conforme o vento
 
 
 
poeta é o cara que se esmera a vida inteira em malabares de palavras
e num instante tonto uma frase solta ao avesso vira verso e no acaso
por acaso ecoa a melodia rara de cantiga boa                     ser poeta é
jamais perder o estado de perplexidade com o mundo com a gente
é nunca esquecer o susto do suspiro alheio            suspiros poéticos
e saudades espumas flutuantes estrela da vida inteira claro enigma:
poeta é pipa solta em dia de ventania
 
 
 
no dia em que eu publicar um livro
de que matéria serão suas páginas,
de carne?
para que o verso seja desenhado
pelo rastro do verme?
que arte, que artefato será usado
para confeccioná-lo,
o livro que eu um dia porventura
publicar?
letras de salitre em páginas de pedra,
fezes de gaivota nos rochedos do oceano,
pele do sexo bordada no pano,
página de esmeralda, letras em urânio
a superfície do texto traçada toda
no meu crânio, porrada por porrada,
ano por ano,
até brotar crescer florescer
gerar
gerânio.
 
 
 
Um poema por dia
é boa medida
um poema por noite
a cada madrugada
quando o mundo silencia
e meus clamores soam mais
e mais ainda se você não está
se você não está presente
ou se encontra inacessível
 
Um poema por dia
como um comprimido
homeopatia, medicamento
de dupla profilaxia:
utilizo para cura
e a saudade remedia;
depois te ministro, poema
dose pequena de alegria
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2 Respostas

  1. Lindo de se ler,… bom demais!!!

    • Bom saber, Roberta!

      Beijo grande!

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