O FUNCIONÁRIO & A COISA / VIDA

(Dedos no computador, na rotina do ofício tedioso.)

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no escritório,

trabalhando burocracias,
 
o funcionário:
 
entre papéis & letras na rotina do ofício, entre papéis & letras na rotina das funções desempenhadas, na rotina dos ofícios (tipo de documento) a serem apreciados, o funcionário assiste à fossilização, isto é, o funcionário assiste à petrificação, dos seus dedos na mesa.
 
dedos petrificados, dedos paralisados, dedos inertes, dedos imóveis.
 
dedos mortos.
 
na rotina do ofício, morreu o tempo.
 
na rotina do ofício, justificam-se as mais absurdas, as mais estapafúrdias lendas, as lendas mais sem sentido, lendas de tédio & eternidade (lendas de tédio eterno): na rotina do ofício, as horas se despiram do suave segredo, do suave mistério, do suave encanto que nos surpreende, na rotina do ofício, as horas se despiram dos seus acontecimentos-imprevistos, as horas se despiram dos seus acasos.
 
na rotina do ofício, não há espaço para surpresas. a rotina do ofício é previsível, sem surpresas, sem maiores possibilidades; os mesmos sempre ofícios, as mesmas sempre funções.
 
já não há mais ponto, já não há mais lugar, para a conversa lírica dos atores (cada qual, no escritório, representando o seu papel dentro das devidas atribuições profissionais) no palco da vida funcionária.
 
as mãos gordas passeiam seus cachorros (decorativos) na mesa de plástico ou de verniz:
 
que pássaro se oculta nesta paisagem erma?
 
que vento, acaso tímido (bem ventinho), brincará nestas árvores rasteiras do escritório?
 
que horizonte, dentro da rotina do ofício (onde assiste o funcionário à fossilização dos seus dedos), que distância, devolverá o grito do funcionário, sua voz alta, a voz que berra os seus reais desejos? 
 
na rotina do ofício, o sempre mesmo tédio eterno das burocracias & dos processos possessos à espera da consideração de olhares silenciosos, à espera da consideração de olhares que não dizem nada, de olhares que: nada.
 
(flor nenhuma, ou flora, belezas que importam ao funcionário, belezas que, dependendo do olhar que se tenha, podem fazer uma grande diferença na existência, flor nenhuma — ou flora — considera, flor nenhuma — ou flora — atenta para, flor nenhuma — ou flora — leva em conta, a atonia — a fraqueza geral, a falta de tônus, de vigor — da máquina dinâmica, máquina ágil, máquina ligeira, máquina dinâmica a datilografar os processos possessos & os ofícios com seus despachos rotundos, despachos gordos, despachos corpulentos, à consideração de olhares silenciosos. flor nenhuma — ou flora — se importa com a agilidade da máquina dinâmica na rotina do ofício.)   
 
que imprevisto, que surpresa, que imponderável, rodeia o telefone utilizado na rotina do ofício do funcionário?
 
os dedos continuam a caça, os dedos permanecem à procura, procura sem acaso. os dedos continuam a caça pelo “imprevisto” numa rotina sem acaso…
 
e, assim, nesse estado, estado de procura pelo “imprevisto”, pelo “imponderável”, os dedos são cabos de tormenta, os dedos são “cabos” atormentados, os dedos são cabos de tormenta (inclusive na forma física — cabo: ponta ou porção do continente que avança mar adentro. os dedos são pontas ou porções do corpo-continente que avançam vida adentro), os dedos são adamastores (adamastor: gigante que representa as formas da natureza sob a forma de terríveis tempestades, ameaçando a ruína de quem tentasse dobrar o cabo da boa esperança, também conhecido como cabo das tormentas, localizado ao sul do continente africano, para ganhar o oceano índico, região, segundo a mitologia greco-romana, tida como de domínio do gigante), os dedos, que trabalham burocracias na rotina do ofício, são simples traços esferográficos em inúteis rubricas assinadas nos ofícios & processos possessos.
 
os dedos, na rotina massante & massacrante do ofício, são potros que se desligam do seu sereno mister, potros que se desligam da sua serena profissão, de garanhões amando nas pastagens.
 
os dedos são potros que se desconectam da sua função de amantes das pastagens da escrita — no caso, as folhas de papel em branco.
 
pálidos polvos plásticos: as mãos & seus dedos-tentáculos; plásticos, artificiais, polvos, porque falseados os dedos (do funcionário na rotina do ofício), artificiais, plásticos, os polvos, porque falsas as intenções dos dedos diante da rotina do ofício, pálidos polvos plásticos (os dedos) jogados nas cavernas da mesa, moluscos que se encolhem & se distendem para gestos vagos de angústia.
 
os dedos do funcionário se cansaram dos contatos de sempre. não querem mais (os dedos do funcionário) as suas mesmas tediosas funções profissionais de todo dia.
 
os dedos do funcionário já não desenham, por exemplo, plantas nas páginas desertas, nem cavalgam (os dedos do funcionário) no dorso das frases mais rebeldes; os dedos do funcionário (habituados à rotina do ofício) não mais montam nas costas das frases indomáveis, frases-cavalos selvagens, frases que dão coice, frases arredias, arrojadas.
 
conformados (os dedos do funcionário à rotina do ofício), apenas se trancam, sonolentos, nas grades dos chavões, nas grades das obviedades & mesmices de idéias, nas grades dos chavões que, neste ensejo, que, neste momento propício, nesta oportunidade, parto em mil pequenas partes de protestos, parto em mil pequenas partes de reclamações, em prol da estima & da consideração à vida que se perde com o estilo de vida do funcionário & sua tediosa rotina profissional, em prol da estima & da consideração à vida que se perde vendo o processo de fossilização dos dedos, dedos que, cada vez mais, servem cada vez menos.
 
em prol da estima & da consideração à vida que se perde com o estilo de vida do funcionário & sua tediosa rotina profissional: 
 
vida / coisa: coisa / vida: a vida & as coisas :
 
as coisas (da vida) não me falam de improviso. elas me falam a partir de re-apresentações: a pedra, o rio, o pássaro, a cor que toma a nuvem no final da tarde, as coisas primeiro se eternizam nos meus olhos. depois de eternizadas, as coisas se reinventam, as coisas se reapresentam, as coisas se revelam, serenas no seu verbo inusitado, serenas no seu discurso inesperado, discurso (das coisas) brotado da minha relação com a pedra, da minha relação com o o rio, da minha relação com o pássaro, da minha relação com a cor que toma a nuvem no final da tarde.
 
e cada qual (a pedra, o rio, o pássaro, a cor que toma a nuvem no final da tarde) me abrasa com seu lume, sopra nos meus ouvidos seu mistério, seu discurso de música & silêncio (as coisas & os seus sons, sons que nada esclarecem, que nada explicam, sons que apenas: sons).
 
por isso é que me perco & me desnudo como um apaixonado pelas coisas (coisas que me abrasam com seu lume, coisas que sopram nos meus ouvidos seus mistérios), desdobrado de mim em mil angústias, desmembrado de mim em mil desejos, desenrolado de mim em mil quereres, e pronto para o acaso, e pronto para o imponderável, e pronto para a surpresa, que descubro triturando, acaso que descubro moendo, como também triunfando(!), meu sonho contra o tempo, no desespero & alucinação de viver & amar.
 
(atenção à fossilização dos dedos!)
 
(mais estima & mais consideração à vida que se perde!)
 
beijo todos!
paulo sabino.  
____________________________________________________________
 
(do livro: Melhores poemas. autor: Gilberto Mendonça Teles. seleção: Luiz Busatto. editora: Global.)
 
 
 
O FUNCIONÁRIO
 
 
Entre papéis e letras
na rotina do ofício
(e telegrama), assisto
à fossilização
de meus dedos na mesa.
 
(Morreu o tempo aqui.
Aqui se justificam
as mais absurdas lendas
de eternidade e tédio:
as horas se despiram
do suave segredo
de seu encantamento,
e já não há mais ponto
para a conversa lírica
dos atores, no palco
da vida funcionária.)
 
As mãos passeiam gordas
seus cachorros na mesa
de plástico ou verniz.
Que pássaro se oculta
nesta paisagem erma?
que vento acaso tímido
brincará nestas árvores
rasteiras? que distância,
que horizonte sem éter
devolverá meu grito?
 
Uivam unhas-de-fome
nos processos possessos
de despachos rotundos
à consideração
de olhares silenciosos.
Mas flor alguma (ou flora)
considera a atonia
da máquina dinâmica.
(Que imprevisto rodeia
o telefone?)
 
Os dedos continuam
a caça sem acaso.
São cabos de tormenta,
adamastores, simples
traços esferográficos
em rubricas inúteis.
Potros que se desligam
de seu mister sereno
de garanhões enxutos
amando nas pastagens.
 
Pálidos polvos plásticos
nas cavernas da mesa,
moluscos que se encolhem
nas esponjas de nylon
e distendem molhados
gestos vagos de angústia.
 
Meus dedos se cansaram
dos contatos de sempre.
Já não desenham plantas
nas páginas desertas,
nem cavalgam no dorso
das frases mais rebeldes,
apenas, conformados,
se trancam sonolentos 
nas grades dos chavões
que, neste ensejo, parto
em mil pequenas partes
de protestos de estima
e consideração
à vida que se perde.
 
 
 
COISA / VIDA
 
 
As coisas não me falam de improviso:
a pedra, o rio, o pássaro, a cor
que toma a nuvem no final da tarde,
primeiro se eternizam nos meus olhos,
depois se reinventam, se revelam
serenas no seu verbo inusitado.
 
E cada qual me abrasa com seu lume,
sopra nos meus ouvidos seu mistério,
seu discurso de música e silêncio.
 
Por isso é que me perco e me desnudo
desdobrado de mim em mil angústias
e pronto para o acaso que descubro
              triturando meu sonho contra o tempo
              no desespero de viver e amar.
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2 Respostas

  1. Paulo, adorei o texto e muito bom mesmo, beijos, Celia Bueno

    • Maravilha, Celia!

      Volte sempre!

      Beijão!

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