CLAUSTROS

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triste.
 
e acaba por ser a realidade de muitos de nós.
 
difícil demais.
 
levar uma existência inteira entre claustros, levar toda uma vida entre ambientes de espaço (bem) limitado, saindo de um (do domicílio, por exemplo) para, quase imediatamente, encerrar-se em outro (nas trevas da estação subterrânea do metrô, por exemplo) que, no fim das contas, desemboca num terceiro (no elevador do trabalho, por exemplo), onde damos adeus ao belo dia azul & temos que nos “contentar” com uma brecha de céu no fim do trajeto.
 
nesse ínterim de entradas & saídas de claustros, o pensamento viaja, perdido entre o desânimo para com a vida, o medo de acidentes (um descarrilhar de trilhos), a tristeza por imaginar uma morte prematura & por delirar com catacumbas (túmulos, pessoas mortas após um entrechoque de vagões na linha metroviária).
 
o pensamento, perdido, viaja por entre o desânimo para com a vida, como álvares na taverna (o escritor brasileiro do século XIX, álvares de azevedo, escreveu a obra noite na taverna, com personagens descrentes na vida & no amor, reunidos, como revela o título, em uma espécie de bar — que é um tipo de claustro —, onde contam histórias sanguinárias envolvendo crimes de paixão, mortes por amor, finais trágicos).  
 
sair do túnel (claustro abaixo) para entrar no elevador (claustro acima): de um lado a outro, de uma ponta a outra, seja mais perto da terra, seja mais perto do céu, os claustros existem & persistem.
 
além de lutar pelo fim das circunstâncias apresentadas no poema, enquanto tais circunstâncias não são banidas, buscar caminhos que possibilitem vivências que não sejam opressoras, vivências que amenizem os efeitos ásperos dos árduos dias de trabalho.
 
(a poesia é uma experiência de êxito na minha vida, é uma das minhas boas vivências, uma das portas de saída dos tantos claustros que nos cercam & cerceiam.)
 
e vamos que vamos.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Em trânsito. autor: Alberto Martins. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
WORKING DAY
 
 
dar adeus
a este dia azul
se embrenhar
nas trevas do metrô
 
morrer
quem sabe
num descarrilhar de trilhos
no entrechoque dos vagões
 
lá fora as estações deslizam
Consolação
Paraíso
Liberdade
 
enquanto meu pensamento se perde em catacumbas
como Álvares na taverna
 
no fim do trajeto
uma brecha de céu:
saio do túnel
para entrar no elevador
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2 Respostas

  1. Lindo texto que mostra, de forma poética, a tristeza do ser humano numa Sociedade de Controle da qual estamos inseridos.
    Meus sinceros parabéns!!
    Um abraço!!!

    • Obrigado pelas palavras, Marcelo!

      Beijo GRANDE!

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