UM POUCO DE SILÊNCIO

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nesta trepidante cultura nossa, da agitação e do barulho, gostar de sossego é uma excentricidade.

sob a pressão do ter de parecer, ter de participar, ter de adquirir, ter de qualquer coisa, assumimos uma infinidade de obrigações.

é indispensável, em tempos modernos, circular, estar enturmado. quem não corre com a manada, quem não se apressa com a multidão inquieta, praticamente nem existe. se não se cuidar, botam numa jaula: um animal estranho.

ficar sossegado é perigoso. porque sossegar significa recolher-se em algum lugar (ou em casa, ou dentro de si mesmo), ação que propicia um contato mais fundo com quem — ou o que — somos, ato que ameaça quem leva um susto cada vez que examina sua alma.

ficar sossegado: recolher-se (ou em casa, ou dentro de si): ouvir a voz do silêncio.

o silêncio nos assusta por retumbar, por ressoar, no vazio (no oco, no desabitado, no desértico, no árido) dentro de nós. quando em silêncio, quando nada se move nem faz barulho, notamos as frestas, as fendas, por onde nos espiam coisas incômodas & mal resolvidas, ou enxergamos outro ângulo de nós mesmos.

em silêncio, um contato mais fundo com quem — ou o que — somos: “quem é esse que afinal sou eu? quais seus desejos & medos, seus projetos & sonhos?”

no susto que essa idéia provoca, a de tocar nas coisas incômodas & mal resolvidas, queremos ruído, almejamos ruídos, muitos ruídos, certa poluição sonora, a fim de que os ruídos nos distraiam & nos distanciem das coisas incômodas & mal resolvidas, coisas que, muitas vezes, não queremos perceber porque a percepção destas incita mudanças, e mudar coisas incômodas & mal resolvidas não é fácil, não…

silêncio faz pensar, remexe águas paradas, trazendo à tona sabe deus que desconserto, que desarranjo, que desordem, que estrago nosso…

com medo de ver quem — ou o que — somos, adia-se o defrontamento com nossa alma sem máscaras. com medo de ver, adia-se o defrontamento com nossa alma sem afetações, sem os maneirismos que não correspondem, sem as armaduras que nos tornam inacessíveis, que nos deixam fora do alcance de nós mesmos.

porém contudo todavia, se a gente aprende a gostar um pouco de sossego, descobre — em si & no outro — regiões antes não imaginadas, questões fascinantes & não necessariamente ruins.

no processo do autoconhecimento (processo que requer quietude, sossego, silêncio), questões são reafirmadas; há o prazer do reencontro com questões que alegram & animam o ser de ser & estar.

a quietude pode ser como a chuva que, atentos ao ar, observamos chegar: intensa & lenta, tornando tudo singularmente novo.

nela, na quietude, a gente se refaz para voltar mais inteiro ao convívio, às tarefas, aos amores.

(aquietar-se é preciso, viver não é preciso…)

então, por favor, me dêem isso: um pouco de silêncio bom, para que eu escute o vento nas folhas, a chuva nas lajes, o mar que quebra na areia, e tudo o que fala muito além das palavras de todos os textos & muito além da música dos sentimentos: o grito do silêncio. sua voz inaudita, voz de vazio, voz oca, voz que possibilita o diálogo entre tantas vozes outras, vozes que surgem do (aparente) vazio dentro de nós, e que retumbam, e que ressoam, vozes que se reafirmam satisfeitas, vozes que pedem mudanças, vozes que precisam ser encaradas & resolvidas se necessário.

ouvir a voz do silêncio: a pedra, toda exterioridade, um silêncio absoluto defronte para o mar: ouvir o que sua voz tem a nos ventar.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Pensar é transgredir. autora: Lya Luft. editora: Record.)

 

UM POUCO DE SILÊNCIO

 

Nesta trepidante cultura nossa, da agitação e do barulho, gostar de sossego é uma excentricidade. Sob a pressão do ter de parecer, ter de participar, ter de adquirir, ter de qualquer coisa, assumimos uma infinidade de obrigações. Muitas desnecessárias, outras impossíveis, algumas que não combinam conosco nem nos interessam.

Não há perdão nem anistia para os que ficam de fora da ciranda: os que não se submetem mas questionam, os que pagam o preço de sua relativa autonomia, os que não se deixam escravizar, pelo menos sem alguma resistência.

O normal é ser atualizado, produtivo e bem-informado. É indispensável circular, estar enturmado. Quem não corre com a manada praticamente nem existe, se não se cuidar botam numa jaula: um animal estranho.

Acuados pelo relógio, pelos compromissos, pela opinião alheia, disparamos sem rumo — ou em trilhas determinadas — feito hâmsteres que se alimentam de sua própria agitação.

Ficar sossegado é perigoso: pode parecer doença. Recolher-se em casa ou dentro de si mesmo, ameaça quem leva um susto cada vez nos que examina sua alma.

Estar sozinho é considerado humilhante, sinal de que não se arrumou ninguém — como se amizade ou amor se “arrumasse” em loja. Com relação a homem pode até ser libertário: enfim só, ninguém pendurado nele controlando, cobrando, chateando. Enfim, livre!

Mulher, não. Se está só, em nossa mente preconceituosa é sempre porque está abandonada: ninguém a quer.

Além do desgosto pela solidão, temos horror à quietude. Logo pensamos em depressão: quem sabe terapia e antidepressivo? Criança que não brinca ou salta nem participa de atividades frenéticas está com algum problema.

O silêncio nos assusta por retumbar no vazio dentro de nós. Quando nada se move nem faz barulho, notamos as frestas pelas quais nos espiam coisas incômodas e mal resolvidas, ou se enxerga outro ângulo de nós mesmos. Nos damos conta de que não somos apenas figurinhas atarantadas correndo entre casa, trabalho e bar, praia ou campo.

Existe em nós, geralmente nem percebido e nada valorizado, algo além desse que paga contas, transa, ganha dinheiro, e come, envelhece, e um dia (mas isso é só para os outros!) vai morrer. Quem é esse que afinal sou eu? Quais seus desejos e medos, seus projetos e sonhos?

No susto que essa idéia provoca, queremos ruído, ruídos. Chegamos em casa e ligamos a televisão antes de largar a bolsa ou pasta. Não é para assistir a um programa: é pela distração.

Silêncio faz pensar, remexe águas paradas, trazendo à tona sabe Deus que desconserto nosso. Com medo de ver quem — ou o que — somos, adia-se o defrontamento com nossa alma sem máscaras.

Mas, se a gente aprende a gostar um pouco de sossego, descobre — em si e no outro — regiões nem imaginadas, questões fascinantes e não necessariamente ruins.

Nunca esqueci a experiência de quando alguém botou a mão no meu ombro de criança e disse:

— Fica quietinha, um momento só, escuta a chuva chegando.

E ela chegou: intensa e lenta, tornando tudo singularmente novo. A quietude pode ser como essa chuva: nela a gente se refaz para voltar mais inteiro ao convívio, às tantas frases, às tarefas, aos amores.

Então, por favor, me dêem isso: um pouco de silêncio bom para que eu escute o vento nas folhas, a chuva nas lajes, e tudo o que fala muito além das palavras de todos os textos e da música de todos os sentimentos.

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2 Respostas

  1. Muito lindo esse silencio bom! E o cheiro da chuva tomando conta do olfato de tantos cheiros diários…

    • Que bom saber que gostou deste silêncio aqui, Kiro.

      Beijo grande!

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