OS FETICHES RETÓRICOS

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aos senhores,
 
trecho de um capítulo do brilhante livro poesia e filosofia, do meu querido amigo, o poeta & filósofo antonio cicero.
 
no referido capítulo, cicero atenta para as confusões feitas, desde priscas eras (e que perduram), entre poema & seqüência de versos, verso & verso metrificado, poema & rima.
 
brilhantemente, antonio cicero nos revela, em sua prosa pra lá de prazerosa, como alguns recursos retóricos (o verso metrificado & a rima são dois exemplos de recursos retóricos) transformaram-se em fórmulas mágicas de fabricar poemas. desse modo, basta que se escreva um texto rimado & metrificado para que este, por muitos leitores médios, seja entendido como poema.
 
aristóteles salientou que um tratado de medicina ou de física, ainda que escrito em versos, continuará a ser um tratado de medicina ou de física.
 
um texto escrito em versos & rimas, porque escrito em versos & rimas, não deve ganhar o status de poesia.
 
uma receita de bolo, uma bula de remédio, por exemplo, ainda que escritas em versos & rimas, continuarão a ser uma receita de bolo, uma bula de remédio.
 
aos meus olhos, a questão poética não reside em fórmula (não existe um modo “certo” de fazer poesia) mas na sua formulação: (a questão poética) reside no que os versos suscitam da inteligência & sensibilidade do leitor, reside nas surpresa & excitação causadas pelos jogos semânticos, fonéticos, sintáticos, reside na atenção do leitor, despertada & alarmada, pela construção poética & interpretação dos versos.
 
e as linhas de antonio cicero bem clarificam essa questão.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(trecho do capítulo: 14. livro: Poesia e filosofia. autor: Antonio Cicero. editora: Civilização Brasileira.)

 

 

OS FETICHES RETÓRICOS

 

É curioso que, embora (…) já no século III a.C. Aristóteles tenha denunciado a confusão entre poema e sequência de versos, ainda hoje muita gente a repita. A palavra de Aristóteles que traduzi por “verso” (…) literalmente significa “metro”. Assim, (…) a palavra “verso” significa “verso métrico”, isto é, escrito segundo determinado esquema métrico.

Tanto o emprego do verso métrico quanto de outros recursos teóricos, como, por exemplo, a rima, já pareceram a muitos (e ainda parecem a alguns) serem não apenas condições necessárias (o que já estaria errado), mas também condições suficientes para a produção de um poema.

Isso, na verdade, significa transformar esses recursos teóricos em fetiches. A palavra “fetiche”, como se sabe, vem do francês, fétiche, que, por sua vez, vem do português “feitiço”. O fetiche, como o feitiço, é um objeto ao qual falsamente se atribuem poderes mágicos. Pode-se dizer que o mundo pré-moderno, tendo fetichizado determinados recursos teóricos, lhes atribuía o poder de produzir poesia.

Isso aconteceu, por exemplo, com a rima. Os poemas gregos e latinos raramente eram rimados. A rima era pouco usada nas línguas antigas, pois a produção de uma rima é, nas línguas declinadas como grego e latim, relativamente trivial. Somente com a decadência da poesia latina, na Idade Média, é que as rimas vieram a ser usadas de modo sistemático, a partir sobretudo dos séculos XI e XII. Quando se passou a escrever poesia lírica nas línguas neolatinas, a rima era um dos recursos retóricos disponíveis. Ora, por ser, nessas línguas não declinadas, um recurso menos trivial do que na língua latina, a rima acabou tendo, na poesia daquelas, uma função muito mais valiosa do que tivera na poesia desta.

No século XVII, na França, o poeta Boileau cuja Art poétique havia codificado o bom gosto, no que diz respeito à poesia francesa, decretara que o bom-senso deve sempre estar de acordo com a rima.

(…)

No século XIX, a rima já estava tão associada à poesia, uma vez que a maioria esmagadora dos poemas líricos que se faziam era rimada, que um texto que não fosse escrito em versos métricos e rimados corria o risco de não ser tomado como um verdadeiro poema pelo leitor médio. Por outro lado, qualquer conjunto de versos métricos e rimados costumava ser automaticamente chamado, pelo mesmo leitor médio, de “poema”. Dessa maneira, atribuía-se à versificação métrica rimada o poder mágico de produzir poesia. O verso métrico e rimado tornou-se um fetiche.

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5 Respostas

  1. Esse seu texto citado é de uma perfeita conscientização. A grande ralé poética que se desenvolve hoje, ainda crê que, se rimou é poesia!

    Uma tristeza ler certos “poetas” que circulam na net, uma vez que o gosto melódico do poema não é restrito ao sistema racional do ser humano, mas à alma que o escritor empresta às palavras para que estas sejam de valor real.

    Gostei muito e vou partilhar no face… =) Grande abraço…

    • Adorei as suas palavras, Kiro!

      Que bom saber que gostou da publicação!

      Beijão!

      • Outro beijo, em honra a sabias considerações!!!! =)

  2. Paulinho, lembro bem de um encontro nosso nos corredores da FCS, na época que o senhor publicou um livro com seu poemas, e que eu, ainda mais ignorante que hoje das coisas do mundo, lhe perguntei exatamente sobre essa questão: o que você achava das rimas nos poemas, e o que você achava dos poemas sem rimas. Lembro que você, já naquela época, ecoava essas palavras aí de cima, as suas próprias e as do Cícero: você disse que gostava das rimas, por uma questão próprias, mas o poema não carecia delas. O que isso demonstra? Além de tudo, que coerência não se compra na farmácia. 🙂

    Segundo detalhe que o texto me fez pensar foi: Borges [quem mais seria, né?] dizia gostar da rima por um recurso mnemônico. Cego, ele precisava se lembrar de todos os versos antes de [re]citá-lo. Ele dizia que a rima era bom porque dava ritmo aos seus versos, mas, por sua vez gostava muito de Walt Whitman, por exemplo, que usava bastante verso branco.

    • Puxa, Ronaldo, que bacana você lembrar desse nosso momento!

      Eu realmente não lembro, mas a minha cabeça… Cê sabe. 😉

      É bom pensar, reafirmar, que coerência não se compra na farmácia (rs). Adorei isso (rs).

      E que maravilha pensar que conto com amigos, como você, que estão na minha vida há bastante tempo, e estamos aqui, ainda amigos & felizes pela amizade.

      Beijo grande!

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