VIAJAR

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viajar?

para viajar basta existir.

 pois a vida, por si só, é já uma grande viagem.
 
pensar a existência, os seus mistérios, e pensar em tudo que está aí, aqui, e pensar em como tudo veio parar aí, aqui, é uma grande viagem.
 
vou de dia para dia como de estação para estação (as tão lindas viagens de trem caminho afora…), no comboio do meu corpo, ou no comboio do meu destino (no conjunto de acontecimentos que se postam à minha frente caminho afora…), debruçado sobre as ruas & as praças, sobre os gestos & os rostos, sempre iguais & sempre diferentes (as ruas & praças, os gestos & rostos: sempre iguais, porque a rua, por exemplo, existe sempre com o mesmo nome, o mesmo trajeto, a mesma largura & tamanho, assim como uma pessoa, que terá o mesmo nome sempre e que, de si, será por toda a vida prisioneira; porém, ao mesmo tempo que são iguais, são diferentes, porque, a cada momento, uma hora, um dia, um mês, um ano. tudo muda, o tempo todo, no mundo. é sempre um outro segundo, é sempre uma outra hora, é sempre um outro dia), como, afinal, as paisagens são (sempre iguais & sempre diferentes).
 
se imagino, vejo. se uma árvore, ou uma casa, ou uma província, eu imaginar, eu visualizo, isto é, se imagino uma árvore, ou uma casa, ou uma província, eu vejo a árvore, ou a casa, ou a província. a casa, ou a província, ou a árvore, existe na nossa memória.
 
portanto, se imagino, vejo.
 
que mais faço eu, assim sendo, senão viajar? só a fraqueza extrema da imaginação (só alguém que não imagine) justifica que se tenha que deslocar para sentir.
 
é em nós que as paisagens têm paisagem. as paisagens são o que sentimos ao vê-las. uma pessoa pode passar por um caminho e nele não enxergar nada de muito interessante. uma outra pessoa pode passar pelo mesmo caminho, observando todo o entorno e, por ele, encantar-se: as formas das nuvens no céu, a estética das árvores no parque, as silhuetas das montanhas à frente, o vôo do pássaro que risca a manhã.
 
é em nós que as paisagens têm paisagem. na realidade, o mundo é o que pensamos dele; o mundo é o conceito que criamos para ele.
 
o mundo é o que dele enxergamos. no fundo, somos nós quem criamos as paisagens que nos cercam.
 
por isso, se as imagino, as crio; se as crio, se crio as paisagens na minha imaginação, elas são; se são, vejo-as como vejo outras paisagens dispostas caminho afora.
 
para que viajar? em madrid, em berlim, na pérsia, na china, nos pólos ambos (norte & sul), onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo & gênero das minhas sensações?
 
em madrid, em berlim, na pérsia, na china, nos pólos ambos, ou em casa, ou caminhando na orla (beira-mar), onde estaria eu senão encerrado em meu corpo, preso à minha visão & às sensações despertadas ante o que vejo?
 
a vida é o que fazemos dela.
 
adoro viajar, conhecer novos lugares, o cotidiano de pessoas outras. viajar contribui na apreensão que faço da vida.
 
mas não acho que quem viaje (fisicamente, deslocando-se de um lugar a outro), necessariamente, aprenda ou apreenda mais da vida. viajar ajuda a confabular a trama/o drama feita/o de acasos absurdos & continuidades previsíveis. sim, viajar ajuda. mas é preciso querer ser ajudado.
 
a vida é o que fazemos dela. as viagens são os viajantes.
 
uma pessoa pode olhar uma paisagem & esta nada lhe dizer. uma outra pessoa olha a mesma paisagem & sente-se encantada com o que a vista avista.
 
o que vemos não é o que vemos, senão o que somos.
 
somos nós os inventores das paisagens que nos cercam.
 
para o bem viver, vivamos em prol de paisagens que nos animem o ser, lutemos por elas.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Livro do desassossego. autor: Bernardo Soares, heterônimo de: Fernando Pessoa. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
451.
 
 
Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são.
 
Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir.
 
“Qualquer estrada, esta mesma estrada de Entepfuhl, te levará até ao fim do mundo.” Mas o fim do mundo, desde que o mundo se consumou dando-lhe a volta, é o mesmo Entepfuhl de onde se partiu. Na realidade, o fim do mundo, como o princípio, é o nosso conceito do mundo. É em nós que as paisagens têm paisagem. Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como às outras. Para quê viajar? Em Madrid, em Berlim, na Pérsia, na China, nos Pólos ambos, onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo e género das minhas sensações?
 
A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos. 
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6 Respostas

  1. Caro Sabino, lindo texto.A viagem torna-se única para aquele que a enxerga com os olhos do coração.Um abraço!!

    • Abraço grande, Izabel!

      Obrigado pela visita & pelas palavras!

  2. É emocionante viajar pelo seu blog, Querido!
    Mais uma vez, os meus Parabéns!!
    Saudades…

    • Ô, Marcelo,

      Que bom esse retorno, fico muuuito feliz!

      Vamos marcar para sentar & conversar? Até hoje, quando pego o Mario Quintana pra ler, não me esqueço de você, a grande fonte!

      Beijo grande, Querido!

      • Paulinho adorei a viagem, na verdade em qualquer lugar que estejas sempre estarás encerrado em si próprio o foco somos nós que fazemos… muito lindo. Um bjão!

      • Marcelo, meu lindo,

        que BOM te ter aqui, fiquei feliz!

        Beijão!

        Saudades!

        Vamos marcar algo!

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