PASSOS QUE PASSAM & FICAM (PRESENTE NO PASSADO)

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poesia: letras que se metem a palavras que se metem a cantoras.
 
palavras querendo ser poesia: velhas cigarras cantando (“velhas” cigarras porque, afinal, as palavras são nossas cúmplices desde que nos entendemos como seres pensantes) nada de novo (afinal, originalidade não tem vez neste mundo, nem tempo, nem lugar; as coisas são ditas & reditas de formas as mais diversas) pela primeira vez.
 
cantar, pela primeira vez, nada de novo: mas se o que se canta é “nada de novo”, como cantar o “nada de novo” (que deixa de ser “novo” para transformar-se em “conhecido”) pela primeira vez?
 
é que, apesar de nada de novo, cada canto entoado pelas “velhas cigarras” pode dizer a mesma coisa, porém o diz de maneiras distintas.
 
e é a distinção encontrada na maneira de dizer aquilo que é já “conhecido” (o arranjo, a disposição, o ordenamento das palavras —  velhas cigarras — que cantam) que faz com que “nada de novo” seja cantado pela primeira vez. 
 
poesia: letras que se metem a palavras que se metem a cantoras que, velhas cigarras, cantam nada de novo pela primeira vez: como estas cigarras-palavras que seguem:
 
tudo, no mundo, se passa com passos já passados.
 
as coisas acontecem num instante ínfimo, instante instantâneo, impossível (na prática) de ser captado, e logo as coisas que acontecem num instante ínfimo, instante instantâneo, impossível (na prática) de ser captado, passam a passado, e logo as coisas deixam de lado o presente para abrigarem-se no passado. é como se tudo se passasse com passos já passados. como não se captura o exato instante em que cada coisa “é”, vivemos um eterno passar dos passos, tudo rapidamente jogado do tempo presente ao tempo pretérito.
 
tudo o que fica (tempo verbal no presente) para nós, no fundo, permanece (presente) no passado.
 
tudo, no mundo, fica onde já passou: o presente no passado.
 
(paradoxal, contraditório, e extremamente humano…) 
 
com passos já passados (já andados, já caminhados), tem os que passam, tem aqueles que são incapazes de deixar uma gota de si que seja.
 
(a vida urge, o tempo voa, os passos passam.)
 
tem os que, da pedra ao vidro, partem, isto é, tem os que, da pedra ao vidro, quebram, arrebentam, danificam, destroem, tem aqueles que, com pedra & vidro, deixam tudo partido: estilhaços do sentimento ao rés do chão.
 
e também tem — ainda bem! — os que, com passos já passados, deixam a impressão (ainda que vaga, ainda que imprecisa) de ter ficado.
 
(e ficam.)
 
que bom…
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Dois em um. autora: Alice Ruiz S. editora: Iluminuras.)
 
 
 
letras
se metem a palavras
querendo ser poesia
 
cigarras velhas
cantando
pela primeira vez
nada de novo
 
 
 
tem os que passam
e tudo se passa
com passos já passados
 
tem os que partem
da pedra ao vidro
deixam tudo partido
 
e tem, ainda bem,
os que deixam
a vaga impressão
de ter ficado
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