A POESIA

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uma seta sem forma perpassa & atravessa a sala, o quarto, o inabitável, uma seta sem forma revira as gavetas do armário, seta voraz, seta veloz, perfura o “in” (o que está dentro), perfura o visível, o invisível, e a seta sem forma acerta o íntimo: a seta sem forma: a poesia.
 
seta sem forma (seta que pode ter formas as mais diversas & díspares), a poesia perpassa & atravessa & perfura tudo & qualquer coisa, acertando o íntimo (em cheio): dardos sem fins, dardos que não pretendem acertar alvo algum, dardos que servem a nenhuma finalidade, e que, por isso, podem absolutamente tudo (dardos que podem acertar o alvo que bem desejarem acertar), a poesia ultrapassa a conversa & o cerne do silêncio, a poesia vai além do que é dito & do que não é dito, perfura (pois que acerta o íntimo) a frágil folha da existência, perfura da existência a folha por um fio (folha que brevemente recebe o seu ponto final & que se transforma em folha virada, passada, no livro da vida), a poesia, às cegas, sem que nem ela mesma saiba de onde vem, salta, a poesia, portanto, salta do imprevisto, a poesia pula do inesperado, sobre as sobras do infinito (as sobras do infinito: tudo aquilo que sobra do que não finda, tudo aquilo que sobra do que nunca acaba, tudo aquilo que sobra do que é eterno: as sobras do infinito: tudo aquilo que, ao infinito, não interessa: a frágil folha da existência, folha que recebe o seu ponto final & é virada, passada, no livro da vida) & crava-se em algum sentido (o sentido é resultado de algumas variáveis; por conta do sentido derivar da junção & do resultado da junção de algumas variáveis, existem as variações — as diferenças — no modo de interpretar um acontecimento ou um poema, por exemplo. o modo das pessoas interpretarem, por exemplo, um acontecimento ou um poema são os mais variados, e isso tem a ver com o sentido que se dá ao que é interpretado):
 
lança sem freio, lança sem o que consiga detê-la, a poesia lança-se, e, lançando-se, traspassa, atravessa, perfura, (a frágil folha da existência) para, então, dispersar-se, sem código de barras ou marca d’água (a poesia dispersa-se sem que algum sistema de identificação possa reconhecê-la ou decodificá-la, a poesia espalha-se, parte-se em partes — a serem pensadas para o entendimento da poesia — sem que algum sistema de identificação — código de barras ou marca d’água — possa decifrar seu conjunto de palavras & versos), e afundar-se no istmo do que se saiba.
 
istmo: faixa estreita de terra que liga duas áreas de terras maiores. por extensão de sentido, istmo: parte estreita que une duas partes maiores.
 
o istmo do que se saiba, isto é, o istmo da sabedoria: a sabedoria que temos do mundo é pequena, o que dele sabemos é pouco. não temos um largo, um abrangente, conhecimento do mundo. portanto, estreita é a sabedoria que temos do mundo. além de estreita, é a sabedoria que serve de “ponte”, que serve de “elo”, entre, de um lado, a existência, e do outro lado, o ser pensante (o homem).
 
a sabedoria é uma espécie de istmo por ser a faixa estreita (pois a faixa de conhecimento que temos do mundo não é larga) que liga duas partes: uma delas, o homem, à outra parte, o mundo. é o “saber”, é a “sabedoria”, que nos liga, que nos conecta, ao mundo. sabemos o que é o mundo graças ao acúmulo de conhecimentos — o que é o mesmo que dizer: sabedoria — sobre o mundo.
 
lança sem freio, a poesia lança-se, traspassa, dispersa-se & afunda-se no istmo do que se saiba.
 
faca afiada (pois corta rasga perfura), a poesia, pronta para tudo ou nada (a poesia aprontada & repleta de pretensões, todas elas, ou a poesia aprontada & vazia de pretensões, nenhuma delas), a poesia, pronta para tudo ou nada (a poesia, por não ser comprometida com absolutamente nada, isto é, por não estar comprometida com um tipo de assunto ou de formato específicos, a poesia pode absolutamente tudo), a poesia finca-se em si.
 
a poesia finca-se em si: a poesia encerra-se em si: nada que se diga ou que se escreva a respeito de um poema é mais que o próprio poema.
 
a poesia finca-se em si e, em si, fica. (à espera de quem deseje desvendar os seus mistérios.) 
 
nada é mais & melhor que a própria poesia.
 
a poesia: uma das (grandes) chaves do mundo.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(autor: Adriano Nunes.)
 
 
 
A POESIA  —  Para Carlito Azevedo
 
 
seta sem forma,
a poesia,
perpassa,
atravessa
a sala,
o quarto,
o inabitável,
revira as gavetas
do armário,
voraz,
veloz,
perfura o in-
visível
e acerta o
 
íntimo:
dardo sem fins,
a poesia,
ultrapassa
a conversa e
o cerne do silêncio,
perfura a frágil folha
da existência,
às cegas,
salta
do imprevisto,
sobre as sobras
do infinito
e crava-se em
 
algum sentido:
lança sem freio,
a poesia,
traspassa,
dispersa-se,
sem código de barras
ou marca d’água,
afunda-se
no istmo do que se saiba,
faca afiada, pronta
pra tudo
ou nada,
finca-se
em si.
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4 Respostas

  1. Querido Paulo,

    Qualquer coisa que eu diga, será pouco. Mas é preciso que se diga: Você é o cara! Bravo! Bravo! Você mergulha fundo em um poema, coisa pra poucos. É como se você desvendasse a infinda armadilha de criar um, como se você o tivesse feito, para o próprio autor.

    Adriano Nunes

    • Adriano Nunes, meu poeta das Alagoas,

      Poeta sempre MUITÍSSIMO bem-vindo, MUITÍSSIMO bem-lindo, poeta cuja obra sempre me fascinou pelo cuidado artesanal com os versos, com as palavras, que HONRA, para mim, receber as suas linhas!

      A sensação é a de dever (bem) cumprido, graças!

      Continuemos juntos, unidos, irmãos de vida & poesia!

      Beijo IMENSO!
      Love love love!

  2. […] sentido este pulsar que nos sopra Lêdo Ivo em A Voz e O Lugar, nos escreve Tânia Du Bois, Paulo Sabino e todos que leem Adriano, o que que agora se comprova com a Voz de Antonio Cicero. Salve a Poesia […]

    • Salve a poesia!

      E salvem a poesia de Adriano Nunes!

      Beijo grande!

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